BAIRRO - Moradores do Porto cultivam nostalgia


Festeiro, hospitaleiro, religioso e aglutinador de diferentes classes sociais. Com estas características construídas ao longo dos 281 anos de existência, o Porto é uma síntese da própria Cidade Verde.

Não é à toa que ele é visto pela maioria dos moradores de Cuiabá como o bairro que mais tem a “cara” da cidade, segundo o instituto UP-Unidade de Pesquisa.

Saindo de uma época de decadência e abandono, em que os prostíbulos e a marginalidade tomaram conta dos becos e avenidas do bairro, o Porto ganha obras novas e se prepara para voltar a ser o centro cultural e de lazer da cidade.

Foi ali que as primeiras embarcações chegaram por esses lados. Só não virou o ponto central do povoado quando da chegada dos bandeirantes por conta do descobrimento da lavra do Sutil, no local onde hoje está a igreja do Rosário.

Na época haviam dois pequenos povoados, um nas proximidades da mina de ouro e outro, o Porto Geral, como era chamado, na margem esquerda do rio Cuiabá. Os quatro quilômetros que os separavam eram cortados por dois caminhos, que muitas décadas depois se transformariam na avenida XV de Novembro e na rua 13 de Junho.

Nos tempos áureos, o Porto reuniu entre os seus moradores dezenas de famílias de tradicionais comerciantes, da elite governante bem como de famílias muito pobres. Foi passagem obrigatória de todas as procissões assim como dos cordões carnavalescos, o bairro dos presépios na época de Natal, dos saraus, das tertúlias, do piano de Dunga Rodrigues, do siriri e do cururu.

Personagens da história de Cuiabá que ainda vivem ou que se mudaram de lá, lembram com nostalgia de uma época em que os moradores “eram como se fossem de uma só família”, fala Joanice Bulhões Spinelli, filha de João de Deus Bulhões.

Joanice, que hoje é empresária do setor de vestuário, nasceu, cresceu e se casou no Porto. “Nasci em frente à praça Luís Albuquerque, a poucos metros do rio”, faz questão de enfatizar. Depois, a família comprou um casarão na avenida XV de Novembro para onde se transferiu junto com o comércio. A XV de Novembro, relembra Joanice, era onde moravam as famílias mais abonadas como os Miguéis, os Scaff, os Bussik, os Figueiredo, os Ribeiro Leite, os Haddad, os Olavarria, os Carvalhos, os Ponce de Arruda. As famílias mais pobres distribuíam-se em torno da avenida.

Joa, como é mais conhecida, recorda de outra característica que orgulhava os moradores: o Porto tinha fama de ser lugar de mulher bonita, fama confirmada pelas inúmeras misses Mato Grosso que saíram dali. A antiga moradora lembra de pelo menos quatro: Elinei Pinheiro, Mariinha Blanco, Marli Rosa e Moacir Metello.

Com o crescimento do comércio na região, a maioria das famílias acabou por mudar. Hoje restam poucas. Entre os que resistem, destacam-se os Metello.

Os irmãos Benedito e Gilberto ainda hoje moram na rua 13 de junho, nas proximidades do Restaurante Regionalíssimo, prédio que antigamente abrigava o Grupo Escolar Senador Azeredo, outro motivo de orgulho da época áurea. Filhos de Apolônio Metello (responsável pela colocação do forro e a colocação da imagem de Cristo na abóboda da igreja do Porto), eles nasceram no bairro. Os outros três irmãos já morreram. Benedito nasceu em um casarão que fica ao lado da casa onde mora hoje. Gilberto mora quase em frente.

Benedito, vereador entre 1949 e 1953, foi autor do primeiro projeto de canalização do córrego da Prainha, idéia depois concretizada por Pedro Pedrossian. “O projeto é semelhante ao que vi em Piracicaba, onde fui estudar o científico e depois, Agronomia”, explica. Para chegar até lá, Benedito lembra que levava 15 dias e o trajeto era pelo rio. “Hoje, está tudo mais fácil. Sou conservador, mas admito que a qualidade de vida melhorou”, conclui Benedito.






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