RUA - Marcos da história e do dia-a-dia


Os mais jovens talvez não façam idéia, mas, debaixo das toneladas de asfalto e concreto que cobrem a avenida Tenente Coronel Duarte, está sepultada parte da história de Cuiabá.

Sob a forma de esgoto, um córrego que já abrigou animais, grandiosos arvoredos de mata ciliar e extraordinárias lavras de ouro, hoje desce caudaloso rumo ao rio Cuiabá, esquecido pela cidade que ajudou a formar.

De sua importância econômica, histórica e cultural só restou o nome, Prainha, ao qual poucos conseguem atribuir a origem ou significado, mas que virou o “apelido” oficial da avenida que é a “cara” de Cuiabá para 35,5% dos cuiabanos.

Para o historiador Carlos Rosa, apesar de engolido pela cidade, tal escolha mostra que o córrego da Prainha ainda mantém ligações com o povo cuiabano. “Embora hoje tenha virado esgoto, o córrego da Prainha ainda está presente na memória social de Cuiabá, pois demarca o traçado original do seu espaço urbano. Até hoje, as ruas seguem o que era leito do córrego, no sentido norte-sul”.

Segundo Rosa, o córrego é fundamental na história da cidade. “Sua margem direita é o ponto inicial da ocupação de Cuiabá. Este recurso de desenhar o espaço urbano seguindo a fonte de água mais próxima era uma concepção urbanística da época”.

As agressões ao córrego não são recentes. Desde o início das atividades de garimpo em suas lavras, as águas do Prainha começaram a ser castigadas com rejeitos tóxicos. “Por conta disso, a água do córrego não era consumida. No entanto, na época das chuvas ele servia como meio de transporte até o rio Cuiabá”.

Na década de 60, quando, em nome do progresso, diversos crimes contra o patrimônio histórico foram cometidos, o córrego da Prainha não escaparia ileso. “Na época do governo Pedro Pedrossian, não existia uma legislação de preservação dos recursos ambientais. Então a canalização e depois a cobertura do córrego foram feitos sem levar em conta a importância ambiental e mesmo histórica do córrego da Prainha”.

Em São João Del Rey (MG), conta o historiador, um córrego também chamado de Prainha é um contraponto ao que aconteceu em Cuiabá. “Além do nome e da importância histórica, havia outras similaridades como as pontes de pedra ligando as margens. No córrego de Cuiabá, tudo isso foi destruído. Em Minas, virou atração turística”, pondera.

PRAÇA DA REPÚBLICA – Perto dali, outra pedra fundamental da história de Cuiabá foi lembrada pela população. A recém-reformada Praça da República foi considerada a “cara” de Cuiabá por 31,1% dos entrevistados, confirmando uma preferência que remonta aos tempos do império.

Foi nesta praça, chamada nos primórdios de Largo da Matriz, que aconteceram alguns dos principais eventos religiosos, políticos e culturais da capital. Segundo Carlos Rosa, esta praça sempre foi o coração da cidade, já que, em seu entorno, ficava o chamado quadrilátero do poder.

“Naquele ponto foram concentrados a Igreja, a Cadeia Pública, a Casa do Ouvidor e o Senado da Câmara. Era o núcleo da cidade, onde tudo o que era realmente importante acontecia. Esta força simbólica permanece até hoje, mesmo com a mudança do centro de poder para o CPA. Basta ver que as grandes manifestações populares começam ali”.

Para o historiador, o fato de a população optar por dois logradouros históricos não significa necessariamente uma súbita valorização do patrimônio. Para ele, a concentração dos meios públicos de transporte nesta rota é uma hipótese mais provável.

“Esta escolha tem a ver com o fato de o sistema coletivo tende a convergir para estes pontos e este fluxo faz parte do cotidiano das pessoas. Isso vai fixando os pontos na memória, mesmo que a maioria não saiba direito o que eles significam para toda a cidade. De qualquer forma, é um bom indício”.




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