Usina hidrelétrica ameaça futuro


Vista aérea do lago da Usina de Manso, que deverá ter 427 quilômetros quadrados quando estiver cheio
A Usina Hidrelétrica de Manso, a maior ameaça ao futuro do rio Cuiabá, custou ao governo mais de R$ 300 milhões, consumiu 200 mil m³ de concreto e vai provocar o alagamento de 427 km2 de áreas de interesse ambiental e turístico, sítios arqueológicos, jazidas minerais, o hábitat de mais de 400 espécies diferentes de animais, além do lar de 464 famílias tradicionais da região. Mas esta é apenas metade do problema.

À jusante da barragem, os impactos continuam e se avolumam, sob a forma de escassez de peixes, águas turvas e mal-cheiro. Desde o município de Nobres, onde mais de mil famílias de pescadores perderam a única fonte de renda, até as comunidades ribeirinhas de Santo Antônio do Leverger, a incerteza é a mesma: valerá a pena?

Se somente a geração de energia for levada em conta, a resposta é não. Com potência instalada de 210 megawatts (MW), a usina vai gerar de fato menos de 90MW, em decorrência da baixa vazão do rio Manso, insuficiente para suportar as quatro unidades geradoras funcionando de forma contínua. Funcionará apenas em horários de pico.

Para se ter uma idéia, a usina termelétrica de Cuiabá, construída pela multinacional americana Enron Power Eletric, tem capacidade de gerar em torno de 450 MW, ou seja, cinco vezes a produção de Manso – e com menos impactos sócio-ambientais.

Se o critério de avaliação for o chamado Aproveitamento Múltiplo de Manso, também é possível questionar a viabilidade da empreitada. O controle de cheias e secas do rio Cuiabá, por exemplo, é considerado por estudiosos e ambientalistas uma sentença de morte a um ecossistema que sempre dependeu destas variações: o Pantanal Mato-grossense.

“Toda inundação é benéfica para o Pantanal”, afirma o engenheiro Domingos Iglesias Valério, coordenador estadual de Defesa Civil, uma das primeiras vozes a se levantar contra a construção da Usina, ainda na década de 70.

Segundo ele, além de inviável do ponto de vista ambiental, tal controle não tem condições técnicas para garantir o fim das enchentes na capital. Pelo contrário, a propaganda oficial de Furnas estaria criando na população uma falsa sensação de segurança.

“O controle da barragem é relativo. Se o reservatório estiver cheio, e vier uma chuva muito forte à montante da barragem, eles não vão conseguir segurar o excedente. Vão ter que abrir as comportas, pegando a população de surpresa. Isso é um risco que está presente em todos os empreendimentos desse tipo”, relata.

O mesmo argumento pode ser utilizado para pôr em dúvida outros aproveitamentos prometidos por Furnas. Tanto as melhorias na navegação quanto na irrigação dependem de uma descarga constante de água, o que, como foi dito anteriormente, esgotaria a capacidade da bacia do Manso, reduzindo o nível do reservatório. “Com a usina funcionando somente nos horários de pico, não teremos um nível constante, mas um ciclo diário de cheia e seca”, explica Iglesias.

Finalmente, o turismo no lago. O “mar” de manso, em meio às paisagens do Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, terá inegável potencial turístico. Mas é preciso mencionar que inúmeras belezas naturais - como Saltinho do Manso -, tiveram seu potencial submerso.

Como ninguém sabe exatamente como será o desenrolar dos impactos, a incerteza continua, inevitável. “Neste ano, o rio vai se comportar irregularmente. Os afluentes da margem direita vão continuar abastecendo o rio, mas funcionando com a depleção sistemática anual”, prenuncia Iglesias.




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