Qualidade da água é contestável

JOSÉ LUIZ MEDEIROS/DC
Esgoto jogado no rio compromete a qualidade da água do Cuiabá e hoje já é uma preocupação para estudantes e cientistas
Regiane Souza Andrade, 16 anos, Lucinéia da Silva, 17 anos, e Renata Lopes Souza Aguiar, 13 anos – alunas da Escola Cesário Neto, no Bairro Bandeirantes – reservaram a manhã do feriado da última quinta-feira para um “passeio” diferente. As estudantes foram até o rio Cuiabá, onde são despejados efluentes do Córrego Mané Pinto, e com luvas e pequenos potes de plástico colheram amostras da água para um trabalho de Biologia do 1º científico.

“Vamos fazer a análise e levar o resultado para a escola. Estamos preocupadas com o rio”, explica Regiane. A presença das estudantes no local pode indicar que, na verdade, a qualidade de água do rio Cuiabá não é uma preocupação exclusiva de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde o assunto tem sido esmiuçado. Uma tese de mestrado defendida em março deste ano encontrou até 2 mil coliformes fecais por 100 ml de água no rio Cuiabá, entre os bairros do Porto e São Gonçalo.

Edna Hardoim, doutora em Ecologia e Recursos Naturais do Departamento de Botânica e Ecologia da UFMT, orientadora da tese, explica que os padrões aceitáveis pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) variam entre 20 e 1000 coliformes fecais por 100 ml de água. O índice é alarmante mas, para que a água seja definitivamente condenada, outras variáveis têm que ser analisadas. “Este resultado significa que a situação é preocupante, mas pode ser reversível”, analisa.

Cuiabá produz por mês 4,6 milhões de metros cúbicos de esgoto. Deste total atualmente são tratados 22% (1 milhão de metros cúbicos). Ao atingir cerca de 40% do esgoto tratado, no final do ano que vem, serão 2 milhões de metros cúbicos. Este número é inexpressivo na opinião do engenheiro sanitarista José Benedito Gaiva, assessor operacional da Agência Municipal de Saneamento porque, segundo ele, a vazão do rio Cuiabá é de 7,8 milhões de metros cúbicos por dia. “O esgoto não compromete”, diz.

OFICIAL – Segundo a Agência, o rio Cuiabá é responsável por 80% do fornecimento de água para a capital e Várzea Grande. O rio Coxipó responde pelos 20% restantes. Em 1996 15% do esgoto da capital eram tratados. Depois da construção da Estação de Tratamento do Tijucal, com recursos do Projeto de Recuperação da Bacia do Cuiabá (a partir de uma ação do procurador da República Roberto Cavalcanti, ver matéria nesta página) esta proporção subiu para 22%. Com a conclusão de obras no CPA (prevista para setembro), o número deve chegar a 32%.

Nesta semana, segundo garante Gaiva, têm início as obras do coletor tronco do Córrego Mané Pinto. Os efluentes passarão a ser levados por gravidade, até a elevatória da Prainha, numa distância de 650 metros. Esta obra de transporte, mais a construção de pelo menos 30% da elevatória, custarão cerca de R$ 1,8 milhão e devem estar prontos em seis meses. O restante dos trabalhos, da elevatória da Prainha até a Estação de Tratamento do Dom Aquino, estão orçados em mais R$ 2,3 milhão, e devem estar concluídos no final do ano que vem.

“Isto representa que vamos fechar 2001 com 45% do esgoto tratado”, diz Gaiva. Ambas as obras, segundo o assessor, estão sendo executadas com recursos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), obtidos através de emendas da bancada federal. A previsão de aumentar ainda mais esta proporção depende da liberação de recursos do Programa BID/Pantanal, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Na semana passada o presidente da Agência, Joaquim Curvo, esteve em Washington para tratar do assunto.




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