Peixes do Manso representavam 30% da ictiofauna do Pantanal

José Luiz Medeiros/DC
Pescador à espera do peixe, na região do Porto
Um terço de todas as espécies de peixes do Pantanal compunha a ictiofauna da região do rio Manso, pouco antes do fechamento da barragem. Tanta riqueza, comprovada em diversos estudos feitos entre 1986 e 1999, por técnicos contratados pela Eletronorte e, partir de 1998, Furnas, demonstrava a importância do Manso para a reprodução das espécies de peixes.

De acordo com o biólogo Francisco Machado, do Departamento de Botânica e Ecologia da UFMT, os mesmos estudos deixavam claro que, em 1999, haveria um atraso do ciclo reprodutivo dos peixes, em função do regime de secas, especialmente na região Centro-Oeste. Mesmo sabendo deste dado, Furnas decidiu fechar as comportas da usina em novembro.

Para Machado, a decisão poderá ter influência direta na oferta de peixes na bacia do Cuiabá. “Se eles tinham estes dados, informações fundamentais para decidir o fechamento da barragem, por que escolheram o final do mês de novembro?”, questiona Machado. “O órgão ambiental responsável, no caso a Fema, não tinha conhecimento destas informações?”.

A preocupação é maior quando se analisa os pormenores do projeto. Segundo Machado, a flutuação diária na vazão, provocada pelo funcionamento somente nos horários de pico, poderá ser catastrófica para os peixes.

“Todos os dias, a partir do funcionamento da Usina, os rios Manso e Cuiabá terão lâminas de água diferenciadas. Se atualmente a situação nestas circunstâncias já é drástica, imagine como ficarão os peixes? Quais as respostas dos organismos aquáticos a estas variações?”, indaga o biólogo. “É correto afirmar que os peixes têm seu ciclo de vida sazonalmente dependente de secas e cheias, mas não com isso ocorrendo todos os dias”.

O rio Cuiabá detinha, até 1997, 80% de toda a produção pesqueira de Mato Grosso. É de se esperar que tais estatísticas mudem, quando os reflexos do fechamento da barragem sobre a usina começarem a ser sentidos. Segundo Machado, é inevitável que haja mudanças no padrão do estoque pesqueiro, mas ainda não é possível saber a dimensão e o seus impactos sobre a população.

Muitas coisas ainda vão acontecer, adverte. “É necessário que a sociedade tome conhecimento de tudo isso, com serenidade e com as informações já existentes sobre estas questões, para que no futuro não fiquemos sem estes recursos naturais tão importantes à nossa sobrevivência”.




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