Biólogo teme por reprodução de peixes

José Luiz Medeiros/DC
Anderson Pereira, de 10 anos, e Jéferson Oliveira,9, que pescam juntos há um ano: curimbatás por R$ 0,50
O futuro dos peixes do rio Cuiabá depende do manejo da vazão da água liberada pela barragem de Manso, a partir do funcionamento da usina. Para o biólogo José Augusto Ferraz de Lima, coordenador do Núcleo de Pesquisas Ambientais e Recursos Hídricos do Ibama, se tal procedimento tiver como meta apenas a geração de energia, a reprodução dos peixes será novamente prejudicada.

“Nunca mais o rio vai voltar à normalidade e vamos ter que conviver com isso. Podemos, no entanto, implantar medidas para mitigar os danos causados pela obra”, defende o biólogo, uma das maiores autoridades em peixes do Pantanal no mundo. “O manejo de vazão é uma forma de fazer isso. Mas a empresa terá que decidir se o manejo será em função dos peixes ou em função da geração de energia. Disso vai depender o futuro das espécies”.

Toda a vida dos peixes da bacia do Cuiabá depende das flutuações de secas e cheias. Se não houver enchente, diz Ferraz, o ciclo biológico não se completa. “A usina de Manso é um fator que influencia fortemente o ciclo. A desova passada foi prejudicada pelo fechamento das comportas e esses níveis de prejuízo você só vê mais tarde”.

A promessa de furnas de que natureza vai adaptar à nova condição, recuperando a capacidade de manter seus estoques pesqueiros, é questionada pelo biólogo. Para Ferraz, o argumento tem fundamento científico, mas revela apenas um lado da questão.

“Se eu cortar as minhas pernas, vou passar um período de recuperação e adaptação, mas nunca mais vou me locomover como antes. Isso tem que ficar claro”, comparou o biólogo. “Todo mundo sabia que os impactos eram inevitáveis. O que defendíamos é que a usina não fosse construída”.

Maior agressão isolada, a Usina de Manso não é a única responsável pelo sumiço dos peixes na bacia do Cuiabá. Em seus 934 quilômetros de extensão, o curso d’água sofre agressões que também influenciam na sua piscosidade.

Entre as principais estão diques, desmatamentos ciliares, mudanças no curso da água, descarga de esgotos doméstico e industrial, a pesca predatória e desordenada, dragagens e o assoreamento. “Há um grande acúmulo de matéria orgânica, a pressão de captura em cima dos cardumes é grande e até mesmo a quantidade de lanchas que navegam no rio hoje é prejudicial aos peixes”.

Pela ordem, os fatores que mais determinam a diminuição dos estoques pesqueiros são alterações no ambiente, pressão de captura comercial e a introdução de espécies exóticas. Segundo Ferraz, o Pantanal tem características que tornam esta regra ainda mais rígida. “O Pantanal começa e termina em água. Se você altera de alguma forma o curso de água dos seus afluentes, altera todo o ecossistema”, diz.

FUTURO – Em relação aos peixes da bacia cuiabana, Ferraz critica a falta de investimento em pesquisas que determinem não só o grau de redução dos estoques, mas também as principais causas do problema. “Precisamos formar equipes para estudar do rio e entender o que está acontecendo. Se não vamos evitar que o peixe se acabe, ao menos vamos saber qual a intensidade dessa diminuição”, justificou.

Um retrospecto do que ocorreu em outras usinas pode servir de indicador para o efeito Manso. A construção de barragens, explica o biólogo, prejudica principalmente os chamados peixes de piracema (dourado, pacú, curimbatá, piraputanga), que ficam impedidos de subir o curso dos rios e completar o ciclo reprodutivo. “Se você interrompe o fluxo normal de água, acaba com os peixes migradores, que formam praticamente 100% do que é pescado na bacia do Cuiabá”.

Para Ferraz, a saída é uma ação governamental conjunta, que não ignore antigas e recentes agressões. “Se existir vontade governamental de tratar a questão, a situação ira se reverter. Porém, se as únicas medidas governamentais forem a proibição da pesca profissional e a reposição com alevinos, com certeza o peixe acaba”.




O eterno protagonista da História
Degradação do meio ambiente muda manifestações culturais
Navegação fez crescer o comércio no século 19
Dezenove afluentes já estão mortos
Metade da mata ciliar foi extinta
Pesquisa revela que pescadores são mal-tratados
Seminário debate propostas para políticas pesqueiras
Prática é passada de pais para filhos há mais de 30 anos
Comunidades traduzem hábitos tradicionais
Gera fomenta discussões ambientais e culturais
Ribeirinhos não conhecem leis
Biólogo teme por reprodução de peixes
Esgoto sem tratamento ainda é o maior desafio no Cuiabá
Peixes do Manso representavam 30% da ictiofauna do Pantanal
Qualidade da água é contestável
37 dragas funcionam ‘mas não prejudicam’
Projeto revitaliza córregos do Cuiabá
Dragueiros também reclamam da Usina de Manso
Usina hidrelétrica ameaça futuro
Depleção do nível começou ainda na década de setenta
Ambientalistas consideraram audiência pública uma farsa