Comunidades traduzem hábitos tradicionais

As populações ribeirinhas do Cuiabá, no perímetro da capital e de Várzea Grande, estão distribuídas em 13 comunidades, cada uma delas com diversas características peculiares que foram registradas pelos pesquisadores do Gera. Retratar tais informações, de uma a uma das comunidades, destacando detalhes arquitetônicos e hábitos mais comuns, é como viajar para tempos distantes, pelo rio.

No Sucuri, por exemplo, as casas são de alvenaria, e a maioria delas fica de frente para as ruas, que não são asfaltadas e têm pouco movimento. As entrevistas de campo da pesquisa revelaram: 90% dos pescadores do Sucuri têm dificuldades de acesso às reservas pesqueiras por influências de chácaras às margens do rio. Já na Passagem da Conceição, localizada a oito quilômetros do centro de Várzea Grande, a maior parte dos quintais termina na margem do rio.

A Passagem é conhecida em toda Grande Cuiabá por sua rica história. O nome que a comunidade leva está associado a um senhor de nome Antônio Conceição, que tinha uma canoa e nela atravessava pelo rio pessoas da região de Jangada e Mata Grande para o Porto, em Cuiabá, na primeira metade do século XIX. O relatório final dos pesquisadores registra que, mais tarde, instalou-se na região uma balsa de madeira que transportava tropas de cavaleiros com madeira, tijolo, telhas, tecido e couro.

Na Passagem chegou a ser construído, em 1905, um mercado público freqüentado por viajantes. No local existia, inclusive, um alojamento para os tropeiros. A enchente de 1974 derrubou o mercado, e com o crescimento de Cuiabá e Várzea Grande, o entreposto foi perdendo importância. No distrito “os moradores possuem laços de parentesco entre si e todos se conhecem”, relata o estudo.

As terras conhecidas hoje como Barra do Pari, segundo os pesquisadores, eram do padre Ernesto Barreto. Na região as casas foram construídas de costas para o rio, e de frente para o centro da comunidade. As construções são de alvenaria e pertencem a um único proprietário, que as aluga para parentes ou terceiros.

Na região da Barra do Pari também é conhecida uma das mais tradicionais lendas de Mato Grosso: a do Minhocão, um grande monstro que surge como um rebojo e que vem do leito do rio levantando água, areia e folhas. Algumas versões indicam que, na verdade, o fenômeno é causado pela presença de um gás natural no leito do Rio Cuiabá.

Os pesquisadores do Gera levantaram ainda dados sobre a Guarita, comunidade cujo nome é atribuído a uma grande pedra localizada no meio do rio. “Ali os moradores colocavam a rede de arrastão, pescavam cotidianamente e, durante a seca, lavavam roupas”, relata do estudo. Muitas chamavam tal pedra de gurita. “Atualmente o acesso dos moradores até a gurita encontra-se impedido, pois o porto de passagem está em área particular. O proprietário, que não é morador local, cercou a margem do rio que dá acesso à pedra”, aponta o estudo.

A descida pelo rio continua e chega agora ao Porto, bairro oficial de Cuiabá, onde moram hoje mais de 9 mil pessoas. No local havia de fato um porto, onde chegavam grandes embarcações de outras regiões do país e canoas de ribeirinhos.

Do Porto para a Alameda Júlio Muller, o estudo – a partir de uma entrevista com um morador antigo – constatou que, no local, há mais ou menos dois séculos e meio, a área era formada por uma aldeia de índios guanás, que provavelmente vieram de Corumbá, e foram “dizimados”. “As terras em que os índios viviam pertenciam a um único proprietário que as doou para os índios assim que soube que o governo queria se apropriar das terras”, relatam os pesquisadores.

Já no bairro São Gonçalo, de Cuiabá, a influência indígena vem dos bororós e de europeus. “Os indivíduos, em sua maioria, são originários da miscigenação entre índios, negros e brancos”. O artesanato de cerâmica do local é famoso em todo o Estado.

No São Gonçalo da Várzea Grande, contam os atuais moradores, a área toda era um grande canavial cujas terras pertenciam à Usina São Gonçalo. Os homens trabalhavam na fabricação de álcool e açúcar. As mulheres eram cozinheiras. “A usina influenciava na dinâmica social da comunidade, pois com seu fechamento os moradores foram dispensados e tiveram que se reorganizar economicamente”, aponta o relatório do Gera.

Localizado nos fundos do Aeroporto Internacional Marechal Rondon, o Engordador tem esse nome por ser uma várzea com capinzal onde se engordavam bois de grandes fazendeiros, que vinha de lugares distantes. Muitas casas foram construídas nas margens do rio mas, com a enchente de 1942, passaram a ser edificadas em lugares mais distantes.

O Poço Grande, onde está o menor número de famílias – quatro – localiza-se entre as comunidades do Engordador e de Bonsucesso. “O lugar era de posse de uma única família, proprietária de redes de arrastão, cujo ponto de lance era um grande poço no rio, que deu origem ao nome do local”.

A viagem não pode parar antes de passar por Bonsucesso, distrito que fica a oito quilômetros do centro de Várzea Grande. Os pioneiros do local vieram de Poconé, Barranco Alto e Santo Antônio. “Casaram-se entre si e com índios que ali viviam”. “Os filhos que se casam constróem suas casas próximas das dos pais, nos quintais”, aponta o estudo. As edificações de alvenaria só começaram a surgir depois da enchente de 1974. Até então, eram em sua maioria de adobe.

Duzentos metros adiante de Bonsucesso chega-se em Pai André. O nome da localidade, comenta-se, é atribuído a um homem que não era da região, comprou as terras e as abandonou. Quando voltou, dividiu-as com agregados. Até a enchente de 1942 as casas de Pai André eram de barro, capim e palha.

O ponto final da viagem chega: é Praia Grande, comunidade formada no início do século e cujo povoamento intensificou-se a partir de 1940 com a abertura da estrada que dá acesso a Várzea Grande. O nome está relacionado à grande praia, que é freqüentada por turistas de outras localidades.(JPL)




O eterno protagonista da História
Degradação do meio ambiente muda manifestações culturais
Navegação fez crescer o comércio no século 19
Dezenove afluentes já estão mortos
Metade da mata ciliar foi extinta
Pesquisa revela que pescadores são mal-tratados
Seminário debate propostas para políticas pesqueiras
Prática é passada de pais para filhos há mais de 30 anos
Comunidades traduzem hábitos tradicionais
Gera fomenta discussões ambientais e culturais
Ribeirinhos não conhecem leis
Biólogo teme por reprodução de peixes
Esgoto sem tratamento ainda é o maior desafio no Cuiabá
Peixes do Manso representavam 30% da ictiofauna do Pantanal
Qualidade da água é contestável
37 dragas funcionam ‘mas não prejudicam’
Projeto revitaliza córregos do Cuiabá
Dragueiros também reclamam da Usina de Manso
Usina hidrelétrica ameaça futuro
Depleção do nível começou ainda na década de setenta
Ambientalistas consideraram audiência pública uma farsa