Navegação fez crescer o comércio no século 19

Vinhos finos, louças e talheres vindos diretamente da Europa, estabelecimentos bancários alemães e italianos, casas comerciais em dia com a moda vigente no mundo. Não estamos falando de uma metrópole desses tempos globalizados, tampouco de uma visão neoliberal de futuro.

Por incrível que pareça, estamos em 1856, na pacata Cuiabá. Neste ano, a assinatura do Tratado de Aliança, Comércio, Navegação e Extradição entre a província de Mato Grosso e a república do Paraguai reativou a navegação pela bacia do Prata – fechada desde o turbulento processo de independência do país vizinho, a partir de 1811. Partindo de Cuiabá, as embarcações seguiam até Corumbá, Assunção, Buenos Aires, Montevidéu, Santos, Rio de Janeiro e a Europa.

Em torno dos principais portos de Mato Grosso - Cuiabá, Cáceres e Corumbá -, nasceram pontos de intenso comércio. Daqui saíam matérias-primas como a poaia, a borracha bruta (látex em goma), erva-mate (apenas seca) e subprodutos de animais, como chifres, crina, carne-seca (charque), unhas, couro curtido rusticamente, sebos, peles de animais, plumas, penas e alguns artefatos indígenas.

Logo surgiriam casas comerciais de câmbio e de exportação e importação de mercadorias. Faziam o caminho inverso, trazendo produtos diretamente da Europa para abastecer o comércio da província com artigos de luxo. “Assim, o complexo hidroviário composto pelos rios Paraguai e Cuiabá foi responsável pela dinamização da economia e da cultura em nossa terra”, conta a historiadora Elizabeth Madureira Siqueira, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.

O desenvolvimento do comércio trouxe recursos para financiar a implantação das primeiras indústrias de Mato Grosso. “Principalmente as usinas de açúcar e do charque, através dos saladeiros, que eram indústrias responsáveis pela produção de carne-seca, caldos de carne, curtição do couro”, relata a historiadora. “Um dos mais famosos saladeiros era o de Descalvados, que foi todo montado com capital estrangeiro”.

Além de produtos, a hidrovia do Prata também “exportava” muitos jovens mato-grossenses para as faculdades do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Naquele tempo, não existia faculdade por aqui e os jovens, logo que terminavam o secundário no Liceu Cuiabano ou Liceu Salesiano, partiam para o Sudeste, Sul ou Nordeste, para cursar uma faculdade. Muitos voltavam, anos depois, para servir em sua terra natal”, diz Elizabeth.

Era uma viagem cara, o que limitava este recurso aos filhos da classe alta, e demorada. “O momento da partida desses estudantes era muito triste, pois as famílias ficavam balançando os lenços brancos com os quais limpavam as inúmeras lágrimas que a saudade, certamente, provocaria (ver sobre o assunto texto nesta página)”.

Com a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o comércio novamente se voltaria para o sudeste. De forma precária, a hidrovia continuaria até 1960, quando as condições do rio Cuiabá inviabilizaram a navegação de médio porte. Era o início da derrocada. (RV)




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