Degradação do meio ambiente muda manifestações culturais

Arquivo/DC
Patrimônio histórico e cultural do povo ribeirinho, o rio Cuiabá está intimamente ligado às suas mais importantes manifestações de grupo e de fé. Do sarã que nasce em suas margens e é matéria-prima da viola de cocho às manifestações de fé nas festas de santo, é o rio o espaço e o agente da unidade cultural dessas populações.

Entretanto, nas últimas décadas, a degradação ambiental trazida pelo “progresso” tem causado profundas alterações na forma como essas populações interagem com rio e com sua cultura. “A vida e a reprodução das comunidades ribeirinhas dependem da sua relação com a biodiversidade e da utilização dos recursos naturais”, concluiu pesquisa do grupo de Estudo e Pesquisas da UFMT (Gera), que o Diário publica neste caderno.

Para muitas comunidades, a manutenção das tradições reside na esperança de que o rio se recupere. “Se já teve peixe um dia, um dia pode voltar a ter de novo. São Pedro é que vai resolver”, diz Lucinda Ribeiro da Silva, 61 anos, 40 vividos em Bonsucesso, comunidade ribeirinha de Várzea Grande que a reportagem do Diário visitou na última semana.

Em 28 anos de festas em homenagem ao padroeiro dos pescadores, São Pedro, este será o primeiro em que não serão consumidos peixes do rio Cuiabá. A festa, que chega a reunir cerca de 5 mil pessoas, acontece na próxima quinta-feira (dia 29) e desta vez só está garantida porque peixes de tanque foram doados para a comunidade.

Em 1999 foram consumidas quatro toneladas de peixes do rio. Este ano, como a festa cresce a cada nova realização, serão seis toneladas. De tanque, doadas. A festa de São Pedro – que conta com missa, procissão fluvial, queima de fogos e corrida de canoas – é esperança para os ribeirinhos. “Ele (São Pedro) bem que podia alumiar a cabeça deste povo, para não fazerem o que estão fazendo com o rio”, brinca a festeira.

Pode ser a última saída. Conforme o estudo do Gera, além da importância para a sustentabilidade econômica, as atividades tradicionais “têm uma significação cultural presente na memória coletiva e na construção da identidade cultural dos ribeirinhos”, são a base destas comunidades. (RV)




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