Parte X - Fechamento do reservatório

O engenheiro Domingos Iglésias também não concorda com a proposta da Eletronorte para o enchimento do reservatório da Usina de Manso, que prevê uma interurpção total da vazão à jusante no período inicial de dezembro a abril, justificando a empresa que, nesse período, o rio Cuiabá não se ressenteria da tributação do rio Manso por ser ocasião de águas altas. Isto é inaceitável, afirma Iglésias, com especial atenção à área do meio ambiente, pois vem prejudicar a população ribeirinha e interromper a migração normal dos peixes refílicos, que no início desse período provocam a piracema abundante nas cabeceiras dos rios Cuiabá e Manso. Também é inadmissível sob o ponto de vista técnico, pois o deflúvio do rio Cuiabá nesta região e nessa época oscila rapidamente entre baixo e altas.

Declara ainda o projeto da Eletronorte que a restituição à jusante só seria feita quando o nível da água no reservatório atingir “cotas mais elevadas”, sem no entanto determiná-las e estimar o tempo de espera, o que lhe abre espaço para arbitrá-las de acordo com a sua conveniência. E isto é preocupante, segundo Iglésias, em função da realidade hídrica atual extrapolar, em muito, o tempo de enchimento previsto.

Um outro problema levantado pelo engenheiro, em relação à Usina do manso, foi o da evaporação, já que seu volume é proporcional à superfície do espelho d´água, podendo atingir sua grandeza valores que desaconselhem a construção de uma obra. Iglésias fez vários cálculos para prever o tempo de enchimento do reservatório, se o fechamento tivesse acontecido, por exemplo, em dezembro de 1985, concluindo que a obra, hoje, estaria enfrentando inúmeros problemas e, entre eles os principais seriam os seguintes:

1 - O reservatório teria gasto aproximadamente cinco meses e meio, no mínimo, para atingir a soleira de tomada de água,

2 - Não teria chegado ainda ao nível mínimo normal de operação e, se conservar a tendência atual do deflúvio, gastaria 32 meses para atingí-lo;

3 - Consequentemente, necessitaria de 50 meses para chegar ao nível normal de operação.

Isto, diz ele, com a hipótese absurda de desprezar a evaporação e a percolação das margens. Mas a evaporação é uma grandeza que de forma alguma poderá ser subestimada, ainda mais quando o seu índice alcança valores significativos, como no caso, e a precipitação é de 1.449 mm/ano. Aliás, a própria Eletonorte admite a possibilidade do enchimento do reservatório de Manso se estender por mais de cinco anos. Mas se o ciclo das grandes cheias (42/58/74) se confirmar em 90/91, poderá reduzir o tempo de enchimento, embora seja sempre bom repetir que o atual declínio fluviométrico da bacia do rio Cuiabá não é cíclico, pois ele denuncia eloquentemente o exaurimento do aquífero freático que a sustenta, causado pela unsificiência de recarga das águas meteóricas, podendo levar todo o sistema de drenagem da sub-bacia ao limite da perenidade.

A evaporação, segundo Iglésias, é uma grandeza de relevante influência na análise operacional de um reservatório mas, todavia, não foi considerada no projeto da Sondotécnica. Num cálculo que ele mesmo considera como “grosseiro”, Iglésias demonstra que o volume evaporado, por ano, representa aproximadamente 10% do volume acumulado, o que quer dizer que a evaporação vai tirar na vazão influente, isto é, da vazão do rio Manso, grandeza que não poderiam ser desprezadas. Nota-se, portanto, afirma ele, que a restituição à jusante prevista durante o enchimento, ou prevista na vazão regularizada, somada com a vazão de evaporação, poderá ser superior à vazão influente, o que diminui o rendimento hidráulico e coloca em dúvida a eficiência operacional colimada no projeto. E podemos quase que afirmar, diz ele, se for respeitada a legislação sobre o uso das águas, o reservatório da Usina de Manso só terá ascensão no tempo das cheias, residindo também aí a justa apreensão da comunidade cuiabana.

· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório







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