Parte XIX - As consequências danosas de Manso

No segundo semestre de 1986, relembra o engenheiro Domingos Igléisas, ele fez um histórico superficial, porém documentado, sobre o problema energético de mato Grosso, descrevendo suas reservas e alternatvas e mostrando ainda o quanto o Estado tem sido infeliz neste setor, em razão de “decisões apressadas e interesseiras de seus responsáveis, chegando a situação atual de quase caos.” Agora, reconhece o engenheiro que parece ser este o destino do Estado, “pois o barramento do rio Manso se desponta como “questão julgada” e “inconteste”, apesar de tantas admoestações levantadas em seminários e debates, pelos representantes da Universidade Federal de Mato Grosso, entidades ecológicas e comunitárias, bem como de setores políticos, as quais jamais encontraram receptividade na Eletronorte.”

O engenheiro conta ainda em seu trabalho, que vem alcançando a maior repercussão, que em dois debates que participou ele sentiu como a Eletronorte capiturou perante sua consultoria técnica, contratada para execução do projeto, “aceitando todo o desenvolvimento de cálculo como “inerente” e “consumado”, proporcionando-lhe, dessa forma, o cômodo e livre manuseio justificativo de seu trabalho dentro da própria empresa e perante a opinião pública.”

No trabalho que elaborou, Domingos Iglésias deixa claro que não está querendo impor mudanças no curso da história mas tão somente tentando prestar uma assessoria ao governo para que ele não seja surpreendido amanhã “com novas frustrações. O engenheiro, que coordena a Defesa Civil no Estado realiza diariamente um acompanhamento hidrológico das principais bacias hidrográficas de Mato Grosso, com enfoque especial para o rio Cuiabá. E vê, com apreensão, o declínio sistemático da vazão desse rio que ocorre desde 1980, atingindo profundidades mínimas e jamais previstas pela Sondotécnica (contratada da Eletronorte para trabalhos de consultoria técnica das obras de Manso) em sua investigações hidrológica de 50 anos. Ora - afirma Iglésias - sendo a “vazão firme” a grandeza basilar e vetor determinante de todas as etapas de válculo, justifica-se essa preocupação, porque o referido declínio altera substancialmente os resultados até então obtidos por aquela consultoria técnica, reduzindo sua caudabilidade, aumentando o tempo de enchimento do reservatório e prejudicando os seus objetivos, com destaque para o potencial energético.

Para cálculo das vazões mínimas do rio Manso - explica Igléias - a Sondotécnica usou o processo de correlação entre o rio Cuiabá, em Cuiabá, para a estação fluviométrica de Porto de Cima, perto do local da obra, que é admissível, porém não lhe exime concordar que se trata de um resultado hipotético. A correlação adotada foi de 77%, incidindo no fluxo total, o que constitui, em princípio, um aberratioictus, superestimando outras vazões relacionadas. A Estação Fluviométrica de Porto de Cima, no rio Manso, observa o engenheiro, controla uma sub-bacia de drenagem de 9.529 quilômetros quadrados e a Estação Fluviométrica de Cuiabá controla uma bacia de 24.226 quilômetros quadrados, deduzindo-se com facilidade que a correlação mais aproximada deve ser de 41% sobre a vazão do rio Cuiabá, em Cuiabá, ou 77% sobre a parcela contribuitiva do rio Cuiabá, como principal, pois do contrário estaríamos invertendo o conceito universal de Ordem do Sistema de Drenagem de uma bacia hidrográfica, segundo Horton e Strahler. Mesmo assim, o resultado depende muito de suas características físicas, geológicas e hidrológicas.

Essas observações, prossegue o engenheiro - são suficientes para justificar as dúvidas levantadas sobre a disponibilidade hídrica do rio Manso e ficam mais preocupantes quando se vê que o parâmetro pde vazões mínimas do projeto teve por base o mês de setembro de 1964, mês em que a altura do rio Cuiabá, obtendo uma vazão média de 45,00 metros por segundo. A base tomada naquele mês está muito além da realidade atual, que sucede abaixo de 1,00 m desde 1980, no período das secas, indo à profundidades inferiores a 0,50 m de julho a outubro de 1987, especialmente no mês de setmebro (0,33 m), correspondendo a uma vazão de 16,95 metros por segundo. Diante disso, como se pensa num volume maior de água?

Dai, afirma, as perguntas que jamais foram esclarecidas em todos os debates em torno da Usina do Rio Manso: haverá água suficiente para garantir uma “vazão firme” que proporciona a caudabilidade almejada no projeto?; a análise operacional baseada nas características físicas do reservatório é real?

Em seu estudo, o engenheiro apresenta, para justificar sua posição, uma série de dados a respeito das vazões máximas e mínimas aproximadas do rio Cuiabá e os valores correspondentes para o rio Manso, na correlação de 41%, a partir de 1980, tomadas mensal e anualmente e a média octoanual (1980/1987) e nas quais se constatam valores muito inferiores aos do projeto e a sua depleção acentuada, informando também que os cálculos de vazão que efetuou foram fundamentados nas equações de curva chave, adotadas pelo 8º Distrito do DNOS e 8º Distrito do DNAEE e DNPM, limitados até 0.80 m de profundidade e obedecendo a seção transversal, igualmente anexada ao seu trabalho. A Sondotécnica, por outro lado, usou o modelo “chuva - deflúvio”, baseando-se nos dados fornecidos pelas Estações Meteorológicas de Diamantino e Cuiabá.



· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório



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