Parte VII – O recuo da Eletronorte

O atual sistema elétrico de Mato Grosso - como esclarece a publicação da Eletronorte de dezembro do ano passado - é composto de dois sistemas distintos. O sistema isolado constituído de vários sub-sistemas pulverizados em todo o interior do Estado e o sistema interligado, que é uma extensão radial do sistema interligado Sudeste-Sul. O primeiro desses sistemas, atendido por unidades térmicas a óleo diesel (51 MW) e centrais hidrelétricas de pequeno porte (7.5 MW) é caracterizado por apresentar precárias condições de atendimento, especialmente na porção norte do Estado. O suprimento ao sistema interligado é feito através de linhas de transmissão nas tensões de 138 KV e 230 KV, que se originam nas hidrelétricas de Cachoeira Dourada e Itumbiara (Furnas), principal centro de carga do Estado. Furnas entrega a energia à Eletronorte, na subestação de Couto Magalhães, que faz o suprimento à Cemat. A capacidade total de transporte das linhas de transmissão é de 220 MW distribuída nas linhas Rio Verde/Couto Magalhães/ - Coxipó (230 KV, Rio Verde/Barra do Peixe/Rondonópolis (230 KV), devendo também ser destacada a entrada em operação do segundo trecho em 230 KV entre as subestações de Rondonópolis e Coxipó, elevando-se a capacidade de transmissão para 244 MW.

Segundo ainda a Eletronorte, com a entrada em operação do compensador estático na subestação Coxipó e da linha de transmissão Couto Magalhães/Barra do Peixe (230 KV), em 1989, a capacidade de transmissão do sistema será de 312 MW.

Quanto ao programa de obras a ser cumprido, a Eletronorte deixa de lado definitivamente a Usina “Couto Magalhães”, citando apenas a UHE de Manso e a UHE de Barra do Peixe. A primeira delas será construída em quatro etapas sucessivas, prevendo-se essas operações, respectivamente, para dezembro de 1992, abril de 1993, agosto de 1993 e dezembro de 1993. Cada uma dessas unidades terá uma potência nominal de 52,5 MW, totalizando-se, em dezembro de 1993, 210,0 MW. A Usina Barra do Peixe, também divida em quatro etapas, terá sua primeira unidade concluída em setembro de 1995, a segunda em janeiro de 1996, a terceira em maio de 1996 e a quarta em setembro do mesmo ano. Cada uma dessas unidades terá uma potência nominal de 70,0 MW, totalizando 280,0 MW.

A respeito de seu programa de obras, explica a Eletronorte que a UHE de Manso “dotará o sistema interligado de sua primeira fonte de geração com porte adequado ao suprimento de uma parcela expressiva do mercado de Mato Grosso”, e que em 1992, o atendimento do mercado dependerá do desempenho do sistema de transmissão de interligação com o Sudeste, haja visto que a geração de propriedade da Cemat tem reduzida expressão”.

Adianta ainda a Eletronorte, que a “entrada em operação da UHE Barra do Peixe, em setembro de 1995, deverá reforçar o suprimento ao sistema interligado de Mato Grosso com energia hidrelétrica gerada no próprio Estado”, acrescentando depois que “o programa de obras de transmissão, a exemplo do programa de geração, também deverá sofrer algumas modificações, em função da nova projeção da demanda de energia elétrica”. Tal programa de obras “compreende a construção da linha de transmissão Manso/Nobres, primeiramente em circuito simples para o suprimento ao canteiro de obras da Usina Manso e, posteriormente, em circuito amplo para a integração da UHE Manso com sistema Mato Grosso e, ainda, a construção das linhas Barra do Peixe/Rondonópolis e Rondonópolis/Coxipó farão parte do circuito para a transmissão de energia elétrica do sistema Sudeste, para a área metropolitana de Cuiabá”.

Dentro das preocupações da Eletronorte, como se vê, é total o desprezo à Usina “Couto Magalhães”, comportando-se a empresa de forma a evitar qualquer interferência àquela hidrelétrica. E isso é incompreensível, para não se dizer empenho. Incompreensível e estranho quanto a própria empresa, na divulgação de seu recente trabalho, anteriormente citado, que a Eletronorte “motivadas no propósito de tornar transparente e pública (sic) os trabalhos que vem realizando no sentido de melhor atender às unidades da região”. Não parece, pois se assim for qualquer um encontraria por parte da empresa a melhor boa vontade para os esclarecimentos indispensáveis em torno da Usina “Couto Magalhães” que não poderia transformar de um instante para outro num sabor de interesses não muito bem debatidos, em coisa absolutamente imprestável. Fica evidente demais a incômoda postura em que se meteu a Eletronorte. A empresa que dá suporte aos planos do governo em uma das maiores áreas brasileiras, que é a Amazônia, não pode e nem tem o direito de alterar tão rapidamente sua posição, ele pode defender tecnicamente a obra dos anos setenta e depois desprezá-la nos anos oitenta? Que tipo de empresa é essa?

Talvez a Eletronorte, para se dizer ela o melhor, seja aquela empresa defendida pelo “Jornal do Brasil” em sua edição do dia 24 de fevereiro último. “Mesmo entre os especialistas do setor energético, e não costumam cultivar pendores ecológicos, é baixíssimo o conceito de que goza, o projeto da hidrelétrica de Balbina, prevista para abastecer a cidade de Manaus. Com as variações de relevo na região são quase nulas, para gerar 300 MW de potência que a usina demandará a formação de um local com área superior a dois mil e quinhentos quilômetros quadrados. Itaipu, que produz 40 vezes mais eletricidade, tem uma carga muitíssimo menor. Há quem fale é duplo crime: contra a natureza e contra a inteligência”.

A Usina de Balbina é de responsabilidade da Eletronorte.





· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório



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