Parte VI - A briga das estatais

A pretensão de Furnas, que está querendo “fazer investimentos no parque energético do Estado”, contrariando interesses da Eletronorte, recebeu o apoio imediato do governador Carlos Bezerra, para quem “as aspirações do Estado caminhavam no mesmo sentido, já que a Eletronorte, responsável por investir na região, não está dando conta de atender toda a região amazônica, devido à pressão migratória e à demanda energética reprimida”.

Nessa audiência, o presidente de Furnas deixou claro que a “preferência da empresa” seria a construção da Usina Barra do Peixe, no rio Araguaia, que nem projeto ainda tem. Barra do Peixe, disse o sr. Camilo Pena, permitirá uma geração maior de energia do que a projetada Couto Magalhães e com um investimento muito menor. Para ele, o rio Araguaia “é uma zona de concessão de posse não atribuída, uma fronteira entre as zonas de atuação de Furnas e Eletronorte, daí acreditar não haver problemas para a construção de usinas no local”. A dificuldade, segundo ele, estaria em investir no restante do Estado mas “caso a Eletronorte não se oponha à construção de Barra do Peixe, este seria um investimento prioritário para Furnas”.

“Não queremos ferir o princípio federativo, entrando numa área de influência da Eletronorte”, esclareceu naquela oportunidade o presidente de Furnas, dizendo, porém, que “eles próprios” (referindo-se à Eletronorte), “irão concordar que, com o crescimento dos diversos Estados da Amazônia, não poderão atender a contento toda a região”. Furnas, como se sabe, é a responsável pelo abastecimento energético do Sudeste e parte da região Centro-Oeste e sob seus cuidados estão onze usinas hidrelétricas, “desde Itaipu até usinas em Goiás”, administrando, também, as centrais nucleares de Angra dos Reis.

Se a empresa conseguir autorização para construir a Usina Barra do Peixe (e parece que está em vias de conseguí-lo), todo o trabalho da Eletronorte, na região, vai por água abaixo. Talvez por isso é que esta última, informada a respeito das pretensões de Furnas, resolveu arquivar definitivamente o projeto da Couto Magalhães e, às pressas, optar pela Usina do Manso, independente do desastre que ela poderá provocar à sobrevivência do rio Cuiabá e do pantanal de Mato Grosso.

Verdadeira a hipótese, tudo o que se assiste, hoje, é resultante de uma grande luta de interesses entre duas estatais do governo, subordinadas a grande holding em que se transformou a Eletrobrás. Para elas não importa muito o fato de Mato Grosso precisar encontrar - e com urgência - soluções para o seu problema de energia. O importante, ao que parece, é comandar a execução das obras, envolvendo certamente alguns milhões de dólares. Nem que para isso tenha que se comprometer, por mais alguns anos, o desenvolvimento do Estado, aniquilando-se de vez com o rio Cuiabá, através da Usina do Manso.

Ora, por quê se voltar para a construção da Usina do Manso - com todos os problemas que ela provocará - quando se tem, pronto e acabado, um projeto que custou milhões de dólares ao País, como a Usina de “Couto Magalhães”, no rio Araguaia? Por quê se esquecer completamente dessa usina quando se tem tudo pronto para a sua construção? Ou os estudos realizados pela Eletronorte, com vistas ao aproveitamento do potencial do rio Araguaia, não foram sérios e nem para valer? E se essa for a verdade, como é que fica a Eletronorte como empresa?

O recuo (incompreensível) da Eletronorte, em relação a “Couto Magalhães”, foi tão grande, que até mesmo uma das últimas publicações da empresa, com data de dezembro de 1987, simplesmente ignorou a existência da “Couto Magalhães”. Com o pomposo título de “Contribuição da Eletronorte para atendimento das necessidades futuras de energia elétrica da Amazônia”, o trabalho de divulgação das atividades e preocupações da empresa fala de tudo, menos dos estudos que resultaram na opção pelo aproveitamento do rio Araguaia, referindo-se apenas ao fato de que ela “está efetuando o inventário dos rios formadores do Tapajós (Juruena e Teles Pires) e revendo os dados do Alto Rio Araguaia, após o que poder-se-á ter, com maior grau de precisão, o efeito (sic) potencial do Estado, que totaliza hoje 13,6 gigawatts (GW) na para já inventariada”, compreendendo, “este manancial os rios que nascem na Chapada dos Parecis e na Serra Azul que, localizadas pouco acima de Cuiabá, dividem as bacias dos rios Amazonas e Paraguai”. Isto equivale a dizer o quê? Equivale a dizer que a própria Eletronorte, depois de pressionada pelo ex-governador Frederico Campos, abandonou pura e simplesmente a idéia da Usina “Couto Magalhães” para se fixar agora, de imediato, apenas em Manso e na Usina Barra do Peixe, não se importando com os catastróficos resultados de primeira e evitando, com a segunda, o que ela considera uma intervenção despropositada de Furnas em sua área de atuação.



· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório



Relatório de 1986 já previa erros
Couto Magalhães é mais viável, diz EIA-Rima
Pode faltar água para o enchimento do lago
Luta de interesses explica opção
‘Não estou arrependido’, afirma Frederico Campos
Prognósticos de especialistas se confirmam
Promotores não vão agir em conjunto
Projetos ambientais são inadequados, aponta UFMT
Programa para recuperação de áreas está atrasado
Domingos Sávio diz que Fema pode ser conivente
‘Falta de chuvas causa baixo nível’
De 21 pontos, 17 estão incorretos
Comissão de Meio Ambiente da OAB vai impetrar ação
Contrato com ‘parceiros’ é duvidoso
Usina de Balbina também foi desastre ambiental
Privatização do setor elétrico explica pressa
Manso tem lago grande para pequena geração
Furnas responde por 43% da energia do País
Qual é a fonte de energia ideal?
Barragens em construção afetarão 80 mil famílias
Núcleo quer intensificar discussões no interior
PCHs podem ser solução viável
Pescadores pedem garantias a Furnas
Terra dos assentados é improdutiva
‘Não como peixe há 7 meses’, diz agricultor
Usina de Manso e Rio Cuiabá, um problema anunciado