Parte V - A ordem de parar

Entre os técnicos mais responsáveis da Eletronorte é visível, até hoje, o mal-estar que causa o assunto UHE “Couto Mahalhães.” E por razões óbvias. Durante muito tempo, todos eles se incumbiram de projetar a realização das obras, num trabalho que deveria estar concluído, como falou o engenheiro Kerman José Machado, até o final de 1986. Na hora da execução do projeto, porém, as coisas se complicaram.

A Eletronorte, dentro da sua estranha filosofia de atuação, procurou encobrir os fatos e acabou não divulgando nada a respeito. Em agosto do ano passado, ao proferir uma palestra em Cuiabá sobre a questão energética em Mato Grosso, um dos assessores da empresa, Sr. Maurício Coelho, fez mistério em torno do assunto e, mesmo indagado diretamente, preferiu afirmar que, em público, nada poderia dizer. Sua palestra fez parte do III Encontro Empresarial Mensal, que já há algum tempo vem sendo promovido em Cuiabá por associações ligadas ao comércio e à indústria de Mato Grosso.

Mas a verdade em torno da questão – embora ainda não muito bem detalhada – já é conhecida.

Concluído o projeto a um custo, para a Eletornorte, de 12 milhões de dólares (o equivalente, hoje, a mais de Cz$ 1.200.000.000,00), a empresa foi procurada pelo ex-governador Frederico Campos para interromper tudo o que já havia sido feito sob o argumento, segundo fontes daquela estatal, de que o Araguaia “não era um rio mato-grossense” e que, por isso, “não iria gerar energia para o Estado.”

O ex-governador – como aliás já foi também divulgado por este Diário – não concordava em hipótese alguma com a realização da obra e chegou até mesmo a acionar um general, seu tio, para interferir junto ao ex-ministro das Minas e Energia, Sr. Cesar Cals, seu antigo subordinado no Exército, visando a paralisação de todo o trabalho até então realizado pela Eletronorte. A mesma fonte da empresa recorda as diversas tentativas que foram feitas para evitar que o ex-governador conservasse a sua intransigente posição. Mas tudo foi inútil, “pois a sua força política tinha como base a força de seu tio.”

A partir daí, cumprindo o que se denomina de “determinação superior”, a Eletronorte arquivou o projeto e imediatamente passou a cuidar da elaboração da Usina do Manso, que ela própria havia considerada “inviável”, no início da década de 70, ao realizar os estudos que culminaram com a indicação das usinas do rio Araguaia.

O sucesso do Sr. Frederico Campos, o ex-governador Júlio Campos, não deve ter encontrado forças para alterar a situação ou, ao contrário, teria deixado o problema da mesma forma que o encontrou, ensaiando apenas algumas providências para a construção da Usina do Manso que acabaram resultando infrutíferas, já no período da Nova República.

O estranho e incompreensível nisso tudo é o comportamento da Eletronorte, uma empresa que tem sob seu comando uma área de concessão num território de 494 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo os estados de mato Grosso, Goiás, Amazonas, Pará, Acre, Rondônia e ainda os Territórios de Amapá e Roraima. Em 1980, a empresa perdeu parte de Goiás mas, em compensação, recebeu o Maranhão da Chesf. Para se ter uma idéia da capacidade gerencial da Eletronorte basta dizer que foi ela quem construiu a Usina de Tucurui, no rio Tocantins, a 300 quilômetros ao Sul da cidade de Belém. Embora contestada por muitos, a verdade é que a UHE de Tucurui é considerada uma das maiores do mundo.

E em Cuiabá, no decorrer do Encontro Empresarial Mensal, já citado, o Sr. Maurício Coelho, sustentado a capacidade da empresa que representava, chegou até mesmo a dizer, com certo orgulho, que “quem teve a capacidade para construir Tucurui, construirá qualquer usina no Brasil.”

E a Usina “Couto Magalhães?”

Bem, com essa usina a questão que envolveu a Eletronorte deve ter sido mil vezes superior à sua força entre as subsidiárias da Eletrobrás. A empresa desenvolveu um trabalho técnico, anunciou o início de sua construção, formulou todos os atos subsequentes mas depois teve que recuar, esquivando-se, a partir daí, de falar a respeito do assunto. E ao mesmo tempo em que isso acontece, a Eletronorte começou a perceber, deixando um pouco de lado o seu orgulho, que outras empresas que integram o sistema Eletrobrás têm procurado abocanhar generosas fatias de sua área de atuação, como Furnas, atualmente presidida pelo Sr. João Camilo Pena. O objetivo de Furnas – e isto ficou claro demais numa audiência que o governador Carlos Bezerra concedeu ao Sr. Camilo Pena em agosto do ano passado – “é fazer investimentos no parque energético do Estado mas para isso deverá obter a autorização da Eletronorte, que é quem atua na região”, como esclareceu nota divulgada pela assessoria de imprensa do governo naquela ocasião.

Em função disso, a Eletronorte entrou em pânico. E não é para menos.



· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório





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