Parte IV - Um projeto morto e sepultado

No final de 1986, antes portanto de assumir o governo, o Sr. Carlos Bezerra revelou que já teria acertado com o Estado de Goiás antecipar a construção da Usina “Couto Magalhães”, no rio Araguaia, com uma capacidade inicialmente prevista de 220 MW. Os detalhes desse acerto, com o apoio integral da Eletrobrás, foram definidos durante uma reunião que teve lugar na cidade de Goiânia com a presença de todos os governadores então recém-eleitos na região Centro-Oeste.

Naquele instante – e este Diário ressaltou o fato – o governador nada falou a respeito da Usina do Manso, imaginando-se, então, que pelas pressões exercidas contra a obra por alguns ecologistas o Sr. Carlos Bezerra já teria considerado inviável a construção dessa hidrelétrica e tomado a decisão política de apoiar a implantação da Couto Magalhães.

O tempo, porém, se encarregou de esclarecer a opção do governador que, embora não muito favorável à Usina do Manso (e quem sabe, na verdade, qual é a opinião do governador a esse respeito?), parece não mais se interessar pela construção da Couto Magalhães, ignorada dentro das preocupações governamentais.

Mas não é apenas o governador Bezerra que prefere considerar a opção da Couto Magalhães como coisa do passado. A própria Eletronorte incompreensivelmente, não se dispõe a falar sobre o assunto, considerando-o morto e sepultado para todo o sempre. Sua opção, agora, é pela Usina do Manso que pode repetir, de certa forma, o grande blefe da Casca III com a agravante de comprometer seriamente a existência do rio Cuiabá, senão matá-lo de vez e, com ele, o próprio Pantanal, num crime inominável à majestade desta que é uma das mais singulares e belas regiões do mundo.

A Eletornorte, no caso, mais aprece uma casa sem dono e a música que dança depende basicamente das circunstâncias em que ele sobrevive como empresa responsável pelas soluções energéticas destinadas a facilitar e a incrementar o crescimento econômico de grande parte da região amazônica incluindo Mato Grosso. O que a empresa concluiu ontem, não vale para hoje e sobre o que diz, hoje, certamente ela não terá nenhuma responsabilidade amanhã. A Eletronorte não pode ser (e não é) uma empresa incompetente. Mas as suas posições em relação a Mato Grosso são sempre duvidosas e estranhas. O problema, portanto, não estaria na competência da empresa, mas nas dúvidas e apreensões que cercam as conclusões que cercam as conclusões técncias que elabora.

Quem não recorda das informações que o engenheiro Kerman José Machado, hoje diretor da Eletronorte, prestou no decorrer de uma conferência que proferiu no dia 11 de agosto de 1980, na Universidade Federal de Mato Grosso, na solenidade de abertura do Curso de Engenharia Elétrica? A partir dessas informações – e não poderia ser de outra forma, pelo respeito que se tem pela capacidade profissional do engenheiro – tudo parecia encaminhado no sentido de possuir Mato Grosso a sua primeira grande usina hidrelétrica, construída dentro de seu território e servindo aos seus propósitos desenvolvimentistas.

Ao mesmo tempo em que detalhava as características principais da obra, com base no projeto pronto e acabado pela Eletronorte. Sr. Kerman José Machado elucidava também procedimentos adotados pelo governo federal visando, segundo disse, o planejamento dos suprimentos ao Estado de Mato Grosso que “partiu em maio de 1971 de estudos finais do Eneram, iniciados logo após a entrada em serviço da Usina Casca III, quando se concluiu pela inviabilidade de derivação de vazões do rio das mortes para a vertente do rio da Casca, na tentativa de otimzação do regime operacional daquela hidrogeradora”.

Segundo o atual diretor da Eletronorte, “de um elenco de onze fontes inventariadas num círculo de 450 km de raio em torno de Cuiabá, já no fim de 1972 definiam-se os instrumentos contratuais para a realização de estudos que, consolidados no “Relatório Bacias do Alto Curso do rio Araguaia e dos rios Correntes e Itiquira, Estudos de Inventário Hidrelétrico”, definiram o ponto de partida para um suprimento planificado e sequente para o aproveitamento do potencial do Vale do Araguaia, tendo na Cachoeira Couto Magalhães o ponto previsto para uma usina de base para Mato Grosso e o piloto para os aproveitamentos que se definiram pelo inventário procedido daí para jusante, partindo-se dos 220 MW deste sítio. Da divisão de quedas ao longo dos 500 km do rio Araguaia, entre a localidade de Alto Araguaia (MT), na cota 650 e Araguaiana (GO) na cota 300, cerca de 920 MW de potencial foram inventariados nos eixos de barramentos possíveis em Couto Magalhães, Barra do Peixe, Torixoréu e Barra do Caiapó, com 280, 180 e 168 MW, respectivamente.”

A “Couto Magalhães”, segundo o Sr. Kerman Machado disse em 1980, deveria estar concluída e em operação definitiva a partir de dezembro de 1986 para, logo após, ser iniciada a construção da UHE Barra do Peixe, a maior de todas as usinas previstas para o rio Araguaia. Mas nada disso aconteceu. Porque? Segue.





· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório



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