Parte III – A história de um escândalo

No governo do Sr. José Fragelli , logo após a inauguração da usina Casca III, o ex-prefeito falecido conselheiro do Tribunal de Constas do Estado, Manoel José de Arruda, um misto de homem público competente e ardoroso defensor de soluções práticas e objetivas para os problemas de seu Estado e de sua terra natal, Cuiabá, teve acesso a todo o projeto elaborado com vistas à construção da Usina do Funil (conhecida também como “Barragem da Guia”), distante 35 quilômetros à montante de Cuiabá. Toda a vez que se referia ao processo, o ex-prefeito se irritava muito (e com razão) pelo fato de o governo haver desprezado uma solução tecnicamente viável e economicamente aconselhável, que era a Usina do Funil, no rio Cuiabá, para se aventurar na construção de uma terceira usina do rio da Casca, em Chapada dos Guimarães, que acabou se transformando num dos maiores blefes que a administração pública patrocinou em Mato Grosso. Essa usina, que entrou em operação comercial em 1971, foi idealizada em três etapas, sendo a primeira para a produção de 4.200 KW, a Segunda de 8.400 KW e a terceira de 12.600 KW. Mas a terceira etapa, quando ela passaria de 8.400 para 12.600, só seria possível mediante o desvio do rio das Mortes, pois o volume de água do rio da Casca não comportava a operação das três turbinas inicialmente previstas.

Ao contrário da solução adotada, a Usina do Funil, pelos estudos realizados e depois ignorados, tinha capacidade de gerar 68 mil KW.

A história já foi contada, mas é oportuno relembrá-la para se tentar fixar, com a máxima exatidão possível, os tortuosos e incompreensível caminhos que a administração pública, sempre por decisão da tecnocracia brasiliense, adotou para o problema energético em Mato Grosso.

Foi no governo do Sr. Fernando Corrêa da Costa que ocorreram os estudos e o início da construção da usina Casca III. Não se sabe exatamente quem, mais alguém sugeriu ao ex-governador, recentemente falecido na cidade de Campo Grande, que diante da “inviabilidade” da usina do Funil, a opção era a construção de uma terceira usina no rio da Casca. O Sr. Fernando Corrêa da Costa aceitou a sugestão certamente depois que tomou conhecimento de todos os pareceres “técnicos” a respeito da obra. Um desses pareceres, preparados pela firma Hidrosservice, do Sr. Henry Maksoud, era assinado pelo engenheiro Mário Bhering, que seria depois por muitos anos (durante o período da ditadura e agora também na Nova República do Sr. José Sarney) presidente e comandante absoluto da Eletrobrás.

Ao assumir o governo, logo após período governamental do Sr. Fernando Corrêa da Costa, o Sr. Pedro Pedrossian tentou eliminar a Hidrosservice do negócio, sob o argumento de que a empresa, na realidade, não prestava serviço algum à administração mas apenas encarecia enormemente a obra em função das vultosas somas mensais que recebia. Transformou-se em fato público e notório, na época, a versão segundo a qual o ex-governador Pedro Pedrossian teria sido aconselhado a retirar uma ação que havia impetrado na justiça contra a Hidrosservice, elaborado por um dos mais competentes causídicos de Cuiabá, em razão das estreitas ligações dessa empresa com alguns “notáveis” da República, citando-se entre esses “notáveis” o ex-ministro Mário Andreazza e Antonio Delfim Netto. Naquela mesma época, como se recorda, a Hidrosservice participava também na construção da Ponte Rio-Niterói, advindo daí, como se supõe, as ligações da empresa com os dois ex-ministros. A batalha judicial foi suspensa e a Hidrosservice continua participando da obra até a sua conclusão em 1971, no início do governo do Sr. José Fragelli.

A Usina Casca III, como já foi dito tempos atrás por este Diário, foi um enorme e espetacular blefe, pois ao invés dos 68 mil KW da Usina do Funil acabou produzindo apenas algo em torno de oito mil quilovates. Em termos de aplicação de recursos públicos, a Casca III foi muito mais onerosa do que o previsto para a construção da usina do Funil e, a tal ponto que até hoje não se sabe exatamente quanto foi gasto em sua construção num rio que não tem água para acionar as suas turbinas, localizadas num buraco de mais ou menos 50 metros abaixo do nível do solo. Como consequência, ao término de sua construção, pelo volume de recursos ali aplicados, a usina passou a gerar o quilovate “mais caro do mundo” e situado em torno de dois mil dólares, o que hoje equivaleria mais ou menos a 250 mil cruzados.

Por isso é que durante a sua construção foi tentado o desvio do rio das Mortes para o aumento do volume de água do rio Casca, buscando-se assim uma solução que permitisse a entrada em operação de sua terceira turbina.

Mas, tudo isso foi em vão e a Casca III, para a glória da tecnocracia brasileira, deve continuar gerando o quilovate mais caro do mundo, num escândalo sempre precedentes mais ainda sem nenhuma explicação. Foi na época da construção da parte final da usina que a Cemat utilizou o slogan “energia cara é a energia que falta”. Certamente para justificar os bilhões consumidos por aquela obra.



· Parte I - Mato Grosso, a grande vítima
· Parte II - O complô contra o Estado
· Parte III – A história de um escândalo
· Parte IV - Um projeto morto e sepultado
· Parte V - A ordem de parar
· Parte VI - A briga das estatais
· Parte VII – O recuo da Eletronorte
· Parte VIII - Eletronorte, uma presença desastrosa
· Parte XIX - As consequências danosas de Manso
· Parte X - Fechamento do reservatório





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