‘Não como peixe há 7 meses’, diz agricultor

Consideradas órfãs do poder público, as famílias que estão na primeira fase do assentamento começam a comparar a produção, alimentação e perspectivas de vida anteriores, com o que vivem atualmente. Pedro Paulo Ferreira da Cruz, 66 anos é um dos assentados às margens direita do rio Quilombo, que se considera o mais infeliz dos moradores do lugar conhecido como Mamede.

Criado desde os oito anos na comunidade de Goiavazinho, ele compara a vida de sua família (13 filhos e três netos) à das árvores. “Ela foi crescendo assim, cai um fruto ali, abre a semente e brota. Cai outro ali a árvore enraíza e cresce. Quando queria peixe era só descer no rio e pescar. Meus filhos vinham com cambada deles só nas brincadeiras de tarde. Mas aqui, há sete meses não como peixe”, descreve.

A produção agrícola também é lembrada por ele. “O milho que antes dava para um ano, agora é suficiente para três meses. As vezes, se quero água tenho que andar dois quilômetros para pegar. Tô triste. Isso me dá um nó na garganta. Não saber se vou conseguir dar comida para minha família nesta terra”, disse, sentado no banco de madeira em frente sua casa de quatro cômodos, enquanto olhava o cerrado.

Pedro tem uma história de amor e ódio com o empreendimento de Manso. Ele trabalhou no exército inimigo por seis anos e seis meses entre demissões e contratações como funcionário da Sondotécnica. “Quando os engenheiros do Rio chegavam para fazer qualquer trabalho na área, já tinham indicação para me procurar. Eu fui guia, ajudei a furar os buracos para pesquisa de tipo de rocha, fiz leitura do nível dos rios Manso e Casca em três períodos do dia. Mas tive que pedir para ser demitido da empresa quando soube que ia mudar. Eles não queriam que eu fosse embora de jeito nenhum”, conta orgulhoso de ter sido funcionário dedicado.

Ao ser questionado se já não sabia que ia ter que mudar, diz que sim, mas que não imaginava ir para um lugar ruim. O que o senhor sente ao saber que foi útil para instalação do que hoje muda sua vida? “Não sabia que ia terminar assim, numa terra seca, sem meu sossego, sem minha paz. Eu precisava do dinheiro, trabalhava para eles, e me pagavam”.

Ao ser procurado para falar sobre as críticas ao projeto social, e as reclamações das famílias, o gerente do Departamento de Patrimônio de Furnas, Roberto Camilo da Cruz Oliveira, disse que o jornal não pode generalizar fatos pontuais. (MO)




Relatório de 1986 já previa erros
Couto Magalhães é mais viável, diz EIA-Rima
Pode faltar água para o enchimento do lago
Luta de interesses explica opção
‘Não estou arrependido’, afirma Frederico Campos
Prognósticos de especialistas se confirmam
Promotores não vão agir em conjunto
Projetos ambientais são inadequados, aponta UFMT
Programa para recuperação de áreas está atrasado
Domingos Sávio diz que Fema pode ser conivente
‘Falta de chuvas causa baixo nível’
De 21 pontos, 17 estão incorretos
Comissão de Meio Ambiente da OAB vai impetrar ação
Contrato com ‘parceiros’ é duvidoso
Usina de Balbina também foi desastre ambiental
Privatização do setor elétrico explica pressa
Manso tem lago grande para pequena geração
Furnas responde por 43% da energia do País
Qual é a fonte de energia ideal?
Barragens em construção afetarão 80 mil famílias
Núcleo quer intensificar discussões no interior
PCHs podem ser solução viável
Pescadores pedem garantias a Furnas
Terra dos assentados é improdutiva
‘Não como peixe há 7 meses’, diz agricultor
Usina de Manso e Rio Cuiabá, um problema anunciado