Pescadores pedem garantias a Furnas

JOSÉ LUIZ MEDEIROS
Já são 2,5 mil os pescadores atingidos pela barragem, segundo a Federação das Colônias de MT
A partir do fechamento das comportas da usina de Manso, em 30 de novembro de 1999, entrou em colapso a vida de milhares de ribeirinhos da bacia do rio Cuiabá. A situação, principalmente em relação aos pescadores, é de total desesperança: não há mais peixes e o rio definha, a cada dia.

“Hoje o pescador está passando fome”, avalia Lindberg Gomes de Lima, presidente da Federação das Colônias de Pescadores de Mato Grosso. “O peixe não sobe mais o rio, porque a água é ruim e o nível é baixo”.

Segundo ele, nas cinco colônias atingidas (Nobres, Rosário Oestes, Cuiabá, Santo Antônio e Barão de Melgaço), cerca de 2,5 mil pescadores – metade da categoria no Estado – teriam sido prejudicados pela usina.

“Desde que fechou lá, arruinou tudo. Só tem lodo no rio”, relata Jonas de Campos, presidente da Colônia Z13, de Rosário Oeste. “Antes da represa, o rio sustentava todo mundo. Agora é só desilusão e as nossas famílias estão passando necessidade”.

Para Herberto Buri, da Colônia Z4, de Nobres, não acabou só o peixe. “Acabou a esperança. Pode até dar uma melhoradinha daqui há alguns anos, mas todo mundo aqui sabe que o rio nunca mais vai ser como era antes”, lamenta o pescador.

Apesar de atribuir à seca parte da culpa pela situação em que se encontra a bacia, Lindberg garante que o “fator Manso” foi o tiro de misericórdia. “A nossa preocupação é que não tem mais rio. Isso é uma realidade. Realmente estamos passando por uma das secas mais bravas dos últimos tempos, mas Furnas tem participação nisso, liberando aquela água suja lá em cima”, disse Lindberg.

Por conta dessa contribuição, entende Lindberg, Furnas tem a obrigação de garantir a sobrevivência dos ribeirinhos, ao menos enquanto durar a adaptação à nova realidade. “Como é que você vai explicar a um senhor de 50 anos, que nunca fez outra coisa na vida, que agora ele vai ter que se virar e arrumar outro emprego? Muitos vão acabar se marginalizando na periferia das cidades, onde não tem vaga para mais ninguém”, alega o presidente. “É isso que estamos cobrando: sustentabilidade”.

FUTURO – Conforme relata a pesquisadora Verone Cristina da Silva, do Grupo de Estudos e Pesquisas do Pantanal, Amazônia e Cerrado (Gera-UFMT), a situação das comunidades ribeirinhas, antes mesmo da chegada da usina, já era crítica.

Estudo realizado pelo Gera em 1998, concluiu que a sobrevivência dessas populações depende fundamentalmente do poder público. “Não é só a sobrevivência material, mas cultural, de memória e de história. Os pescadores, por exemplo, aprenderam a vida toda a lidar com o rio”, diz a pesquisadora. “Se você rompe com isso, causa um problema social seríssimo”.

É natural que, com o tempo, haja transformação no modo de vida dos ribeirinhos, explica Verone. Porém, atualmente esta experiência tem sido traumática. “No caso do Rio Cuiabá, as mudanças são muito impactantes”, observa.




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