Qual é a fonte de energia ideal?

GERALDO TAVARES / DC
Os linhões trazem 400 megawatts das usinas hidrelétricas de Cachoeira Dourada e de Itumbiara, em Goiás, para Mato Grosso
Mato Grosso não possui um modelo ideal único para geração de energia. No Estado, por conta das grandes distâncias e das características ambientais, muitas podem ser as opções. Energia solar, de biomassa, água ou calor são algumas delas, na avaliação do superintendente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), José Epaminondas Mattos Conceição. Apesar deste mosaico, o setor industrial acredita que, para grandes centros, somente as hidrelétricas e termelétricas são capazes de atender a demanda.

Epaminondas explica que grande parte da energia de Mato Grosso atualmente ainda é importada de Goiás. Os chamados linhões trazem das usinas hidrelétricas de Cachoeira Dourada e de Itumbiara (na divisa de Goiás com Minas Gerais) cerca de 400 megawatts. No Estado, de produção própria, são cerca de 110 megawatts: 84 gerados pelas hidrelétricas de Juba 1 e Juba 2 (em Barra do Bugres e Tangará da Serra) e o restante produzido em Pequenas Centrais Hidrelétricas, as chamadas PCHs.

Além disso ainda funcionam no Estado 70 megawatts através dos sistemas isolados, a base de óleo diesel. “Estas cidades estão localizadas principalmente no Nortão de Mato Grosso, fora do eixo da BR 163”, descreve o superintendente. Até 1997, Cuiabá era ponto final dos linhões. Mas há três anos um deles foi estendido até Sinop, e as cidades ao longo do caminho acabaram sendo beneficiadas.

Isto soma 580 megawatts, que não têm sido suficientes. A Usina Termelétrica Cuiabá 1, que irá receber até o início do ano que vem o gás boliviano, entra no sistema todos os dias, por entre quatro a 16 horas por dia. Este fornecimento começou com 90 megawatts e hoje já está na capacidade máxima de 150, em virtude da necessidade.

A expectativa pela chegada do gás é grande. Quando a segunda turbina entrar em funcionamento serão ao todo 300 megawatts. A terceira turbina, que completa a capacidade de 480 megawatts, deve ser acionada em meados de 2001. Para o próximo dia 31 de julho, às 9h, na sede da Fiemt, já está marcada uma audiência pública para discutir a construção da segunda termelétrica, a Cuiabá 2, que gerará mais 500 megawatts, e será construída pela Geração Centro-Oeste Ltda, subsidiária da Enron.

A chegada da termelétrica e o funcionamento de Manso, na avaliação de Epaminondas, vão permitir o envio de energia para os municípios à esquerda e direita da BR 163, que hoje são carentes. “Manso será uma usina de ponta, que vai garantir o equilíbrio deste sistema”, defende Epaminondas. Além disso, a importação de Goiás será reduzida, e o parque industrial do Estado poderá crescer. “Novos empreendimentos estão planejados: indústrias de algodão e de esmagamento de soja”, descreve o superintendente.

POLÊMICA - O presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat), geólogo José Domingues Godoi Filho – um dos críticos mais enfáticos à construção de Manso – é contra a afirmação de que, por comprar energia de Goiás, Mato Grosso está refém da importação. “Isso não existe. Ninguém está importando nada de ninguém. Tudo faz parte de um sistema só, o sistema nacional”, aponta o professor.

Outra informação contestada pelo presidente da Adufmat esbarra na política de atração de indústrias para Mato Grosso. Para Godoi, o crescimento do sistema energético deve ser paulatino. A relação estabelecida pelo governo do Estado e pela Fiemt, que atribui a demanda de energia elétrica no Estado ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), não é pertinente, na avaliação do professor. “Na França e no Japão o PIB também cresceu, mas o consumo de energia não”, compara. As informações divulgadas pelo setor industrial, “sempre ladeadas por um bom marketing”, não passam de esforço do setor para “encaixar” empreiteiras em grandes obras.

Godoi lembra que Antônio Carlos Holtz, diretor da Eletrobrás quando a obra de Manso foi paralisada, era um dos técnicos contrários à construção da Usina. “Ele mesmo denunciou que Manso era um conluio entre políticos e empreiteiros”, descreve Godoi referindo-se a um Congresso Brasileiro de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro, em agosto de 1998, da qual ambos participaram.

Dono de uma memória expressiva, Godoi se remete aos anos de 1976 e 1978 para lembrar que, nesta época, se desenvolveu no Brasil um grande projeto de pesquisa sobre aproveitamento de biomassa. O trabalho foi dirigido pela Secretaria de Tecnologia Industrial e pelo Ministério da Indústria e Comércio. “Aproveitando-se de tudo, principalmente dos óleos vegetais, eles chegaram à conclusão que o Brasil tem capacidade para produzir cinco milhões de barril de óleo diesel por dia”, detalha Godoi. Hoje, o País consome cerca de 450 mil barris. “Seria um salto na história econômica”, descreve.

SOLAR – O professor de engenharia elétrica da UFMT, Ildomar Freitas de Oliveira – que também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Planejamento Energético, aponta ainda outra alternativa, a da energia solar. “Se em 1% do território brasileiro tivéssemos placas fotovoltaícas já seríamos capazes de produzir energia para toda a América do Sul”, comenta. “No futuro nós utilizaremos energia solar”, acredita Ildomar. Este futuro irá chegar quando os laboratórios de pesquisa sobre o assunto não forem tão caros, de acordo com ele. Antes disso, Ildomar continua acreditando que a energia hidráulica é a principal de Mato Grosso, e que Manso é uma necessidade.






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