Prognósticos de especialistas se confirmam

Grandes obras sempre geram grandes impactos. E polêmica equivalente. A história da energia hidrelétrica no Brasil é repleta de exemplos em que tanto a viabilidade técnica, quanto o custo sócio-ambiental das obras foram duramente criticados por especialistas e entidades. Foi assim em quase todas. Está sendo assim em Manso.

Afinal, quem está com a razão? A lógica “perversa” das empresas construtoras, que leva em conta apenas a questão econômica, ou a “paranóia” ambientalista, pautada pela defesa intransigente dos recursos naturais?

A realidade de duas das mais controvertidas usinas já construídas no país revela que nem sempre a primeira opção é a mais correta. Em Balbina e Tucuruí, boa parte do que se qualificou como paranóia dos críticos acabou se revelando previsão certeira, anos após o fechamento das comportas. Por telefone, o Diário localizou um desses personagens.

BALBINA – “Quem é contra Balbina, é contra você”, dizia o anúncio da Eletronorte, em todas as tevês de Manaus, no final da década de 80. O biólogo americano Philip Fearnside, da coordenação de ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), era um dos principais alvos daquela campanha. “Havia muita pressão para fechar a barragem e contra qualquer tipo de crítica”, lembra o pesquisador, por telefone.

Vários estudos do INPA, conta o pesquisador, alertavam para os perigos da formação de um lago sobre a área densamente coberta por florestas e com relevo pouco acidentado onde estava a barragem. O aviso foi ignorado. “Formou-se um reservatório muito raso, que tinha cerca de 800 km2 com menos de quatro metros de profundidade”, relata.(Ver matéria sobre Balbina também na página B6).

Aconteceu o que Fearnside previra. Com o início da decomposição da matéria orgânica, o processo liberou um composto tóxico, o metilmercúrio, que contaminou os peixes restantes no lago. “O mercúrio metálico, que não é venenoso, só se transforma em metilmercúrio em ambientes sem oxigênio. É o que acontece no lago, devido à decomposição da floresta submersa”, afirma Fearnside. “O grau de mercúrio em Balbina é superior ao encontrado nas áreas de garimpo do rio Tapajós”.

Nem tudo resultou em catástrofe. Fearnside reconhece que, no caso do tratamento dado aos índios Walmiri-atroari – que tiveram sua área inundada pelo reservatório – a Eletronorte surpreendeu os críticos. “Acabou sendo melhor que o esperado. Os índios estavam morrendo e a empresa criou programas especiais que conseguiram reverter a situação”, diz o pesquisador.

TUCURUÍ – O jornalista Carlos Mendes, correspondente da Agência Estado e da revista Isto É em Belém, no Pará, acompanhou de perto toda a polêmica envolvendo a construção da Hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins. Segundo ele, a voz dos críticos deveria ter sido ouvida com mais atenção.

O reservatório de Tucuruí alagou dois milhões de metros cúbicos de madeira, o que também resultou em prejuízo à qualidade da água. Para conter o processo, diz Mendes, o Governo Federal teve de importar um robô norte-americano que retira as árvores no fundo do lago. “Este trabalho vai durar 30 anos”, estima Mendes.

Segundo o jornalista, há nove anos as 1,2 mil famílias atingidas buscam na Justiça receber indenização a que têm direito. Já os índios Paracanãs, que foram deslocados para áreas na região de Altamira, nunca conseguiram retomar a organização social que mantinham antes da usina. “Até hoje estão dispersos”, comenta o jornalista.

A 30 quilômetros do lago, as casas não têm energia e os moradores são obrigados a usar velas. “Além do impacto ambiental, o dano social foi tremendo. Aproximadamente 20 mil pessoas vivem no entorno do lago, em favelas de Tucuruí. Eles vieram acreditando na promessa de que a usina iria trazer o desenvolvimento para a região. Até hoje sofrem na miséria, violência e com o tráfico de drogas”.

Mendes conta que sete mil novos trabalhadores se mudaram para a cidade, na expectativa da duplicação da hidrelétrica. “Hoje em dia, Tucuruí é um tormento e a realidade está lá para quem quiser ver: a miséria e a degradação ambiental. E só 30% da energia beneficia o Pará”, conclui.

MANSO - Um dos principais representantes da ala crítica em Mato Grosso, é o geólogo José Domingues de Godoi Filho, presidente da Associação dos Docentes da UFMT (Adufmat). Verborrágico e contundente, Godoi conta que sempre teve suas críticas e questionamentos subestimados pela diretoria da Eletronorte.

“Era chamado de louco, de romântico, mas o tempo e a realidade acabam mostrando quem tem razão”, explica Godoi. “Hoje o grau de erosão da barragem é muito grande. Isso não é paranóia. Também não é invenção a situação terrível que enfrentam os ribeirinhos”.

Ele lembra que, na época da audiência pública, a Eletronorte saturou os meios de comunicação com uma agressiva estratégia de marketing. “Um médico ia fazer uma cirurgia e, quando começava a trabalhar, a luz se apagava. Depois, dizia para a câmera: com Manso, isso não teria ocorrido”, lembra o geólogo. “A intenção era transformar os críticos da obra em inimigos da população e do desenvolvimento”.

Godoi garante nunca ter sido deliberadamente contra a implantação de qualquer hidrelétrica. “Quando critico o projeto, não estou preocupado com a florzinha ou o peixinho, mas com a sua inviabilidade técnica. Todo mundo sabe que as questões ambientais em Manso são um salto no escuro, e que os riscos envolvidos nesta opção não compensam os supostos benefícios que ela venha a trazer”, ressalta Godoi. “Não tenho nada contra a Eletronorte, e até acredito que a questão da energia é de soberania nacional. Mas Manso é insustentável sob qualquer ponto de vista”.(RV)




Relatório de 1986 já previa erros
Couto Magalhães é mais viável, diz EIA-Rima
Pode faltar água para o enchimento do lago
Luta de interesses explica opção
‘Não estou arrependido’, afirma Frederico Campos
Prognósticos de especialistas se confirmam
Promotores não vão agir em conjunto
Projetos ambientais são inadequados, aponta UFMT
Programa para recuperação de áreas está atrasado
Domingos Sávio diz que Fema pode ser conivente
‘Falta de chuvas causa baixo nível’
De 21 pontos, 17 estão incorretos
Comissão de Meio Ambiente da OAB vai impetrar ação
Contrato com ‘parceiros’ é duvidoso
Usina de Balbina também foi desastre ambiental
Privatização do setor elétrico explica pressa
Manso tem lago grande para pequena geração
Furnas responde por 43% da energia do País
Qual é a fonte de energia ideal?
Barragens em construção afetarão 80 mil famílias
Núcleo quer intensificar discussões no interior
PCHs podem ser solução viável
Pescadores pedem garantias a Furnas
Terra dos assentados é improdutiva
‘Não como peixe há 7 meses’, diz agricultor
Usina de Manso e Rio Cuiabá, um problema anunciado