Luta de interesses explica opção

GERALDO TAVARES / DC
O governador Frederico Campos achava que o rio Araguaia não era ideal para uma hidrelétrica por ser de fronteira com Goiás
O abandono do projeto de construção da hidrelétrica de Couto Magalhães, no rio Araguaia, teria sido provocado pelo bairrismo dos políticos mato-grossenses e também por uma disputa “territorial” entre Furnas e a Eletronorte. A hipótese foi levantada em março de 1988 pelo jornalista José Eduardo do Espírito Santo, numa série de seis reportagens publicada pelo Diário.

Falecido em 1998, o jornalista revelou neste trabalho parte da movimentação de bastidores que tornaria a Usina de Manso em obra prioritária. “Entre os técnicos da eletronorte é visível, até hoje, o mal-estar que causa o assunto ‘Couto Magalhães’”, observou Espírito Santo. “Durante muito tempo, eles se incumbiram de projetar as obras. Porém, na hora da execução, as coisas se complicaram”.

Governador entre 1979 e 1983, Frederico Campos teria pressionado a estatal a alterar seus planos (ver matéria nesta página). O Araguaia, argumentou o governador, não era um rio mato-grossense e, portanto, não iria gerar energia para Mato Grosso.

“Concluído o projeto, a um custo de US$12 milhões, a empresa foi procurada pelo ex-governador para interromper tudo o que já havia sido feito”, prosseguiu o jornalista. “Ele não concordava em hipótese alguma com a realização da obra e chegou até mesmo a acionar um general (Dilermando Gomes Monteiro), seu tio, para interferir junto ao ex-ministro das Minas e Energia, Cesar Cals, seu antigo subordinado no Exército, visando a paralisação de todo o trabalho”.

A pressão surtiu efeito e a Eletronorte não só aceitou a nova empreitada, como passou a defendê-la. “A mesma obra que a empresa havia considerado “inviável”, no início da década de 70, ao realizar os estudos que culminaram com a indicação das usinas do rio Araguaia”, ressaltou Espírito Santo.

Para essa mudança de comportamento, também teria colaborado o temor de que Furnas, subsidiária da Eletrobrás responsável pela geração de energia na região sudeste e em Goiás, viesse a fazer investimentos em Mato Grosso. Segundo Espírito Santo, Furnas tinha interesse em construir Barra do Peixe – uma das quatro usinas do complexo do Araguaia.

Temendo a presença de Furnas na fronteira entre as zonas de atuação das empresas, a Eletronorte resolveu arquivar definitivamente o projeto e, às pressas, optar pela usina de Manso e a de barra do Peixe, “não se importando com os efeitos catastróficos da primeira e evitando, com a segunda, o que ela considera uma intervenção despropositada de Furnas em sua área de atuação”, lamenta o jornalista.

“Se verdadeira a hipótese, tudo o que se assiste hoje é resultante de uma grande luta de interesses entre duas estatais do governo, subordinadas à grande holding em que se transformou a Eletrobrás. Para elas, não importa muito o fato de Mato Grosso precisar encontrar soluções para o seu problema de energia. O importante, ao que parece, é comandar a execução das obras, envolvendo alguns milhões de dólares”. (A série completa de José Eduardo do Espírito Santo estará disponível a partir de hoje na Internet, no site www.diariodecuiaba.com.br).




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