Pode faltar água para o enchimento do lago

O relatório do engenheiro Domingos Iglésias Valério surpreende pela coerência com o atual estágio de implantação da obra e faz temer pelo que ainda está por vir. Segundo o estudo, todo o projeto teria se baseado num cálculo equivocado da vazão do Manso, do qual dependem o tempo de enchimento do lago e a produção de energia.

Segundo Iglesias, o erro da Sondotécnica foi não considerar o declínio sistemático da vazão do rio Manso, a partir de 1980. Sendo assim, a vazão do Manso, que já era reduzida à época do projeto, vem se tornando ainda menor, a ponto de ameaçar o bom funcionamento da usina e os seus múltiplos aproveitamentos.

“Se não for invertido o quadro atual de declínio, que vem se verificando desde 1980, dificilmente a Eletronorte terá o alcance pleno de seu projeto. Sua obra poderá funcionar como pequena usina, apesar de possuir estrutura superior a de grandes usinas do País(...)”, adverte.

Haverá água suficiente? É o que questiona Iglesias, num trecho do relatório. “Qualquer engenheiro com vivência em Aproveitamento de Recursos Hídricos hesitaria em responder afirmativamente a esta questão”, pondera o engenheiro, que àquela época não via qualquer sintoma de reversão do exaurimento da bacia do Manso, causado pelo desmatamento ciliar e o avanço da agricultura.

O relatório demonstra que o tempo de enchimento do lago, ao contrário do que apregoa Furnas, poderá ser ainda maior que o previsto no projeto. Em um cálculo preliminar, considerando a vazão existente no rio Manso em 1º de dezembro de 1985, Iglesias concluiu que o lago teria gasto mais de quatro anos para atingir o nível máximo de operação (287 metros).

“(...)Uma grande cheia poderá reduzir o tempo de enchimento, contudo é bom repetir que o atual declínio fluviométrico da bacia do rio Cuiabá não é cíclico(...) e pode levar todo o sistema ao limite da perenidade”, relata Iglesias. “Portanto, a restituição à jusante poderá ser superior à vazão influente, o que diminui o rendimento hidráulico. Podemos quase afirmar que, se for respeitada a legislação sobre o uso das águas, o reservatório só terá ascensão no período das cheias”.

Sob condições tão desfavoráveis, argumenta Iglesias, o aproveitamento da UHE-Manso para permitir a navegação, irrigação e controle de cheias são assuntos muito discutíveis. “Aliás, a Eletronorte tinha esta mesma opinião até 1981, em relação à navegação(...) É evidente a falta de disponibilidade hídrica daquela bacia”.(RV)






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