Relatório de 1986 já previa erros

GERALDO TAVARES / DC
“O Estado possui vastos potenciais hídricos que, por falta de planejamento adequado, jamais foram aproveitados”, aponta Iglesias
Dúvidas e contestações sempre acompanharam o projeto da Usina Hidrelétrica de Manso. Nenhuma delas, porém, teve tanto impacto e credibilidade quanto um relatório assinado pelo engenheiro Domingos Iglesias Valério, coordenador de operações da Defesa Civil em Mato Grosso.

O Diário teve acesso aos três volumes elaborados por Iglesias entre 1986 e 1990. O primeiro, intitulado “O problema energético de Mato Grosso”, é uma demonstração clara de que, se hoje Mato Grosso ainda precisa importar energia, é por absoluta falta de coerência das políticas públicas.

Em “Considerações sobre a barragem do rio Manso e seus reflexos no rio Cuiabá”, o engenheiro adverte a população de Mato Grosso para todos os fatos obscuros do projeto que, 13 anos mais tarde, justificariam protestos de comunidades atingidas e inúmeras manchetes nos jornais da capital.

Iglesias analisou o projeto da obra a pedido da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que precisava de subsídios técnicos para questionar os seus impactos sócio-ambientais. Elaborado em 1987, o trabalho contesta argumentos até hoje defendidos pela atual gestora da obra, Furnas Centrais Elétricas, como certos aspectos do aproveitamento múltiplo.

Nas discussões que antecederam à aprovação do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima), em 1988, o parecer do engenheiro foi menosprezado pela direção da Eletronorte. A empresa alegou que o estudo carecia de base técnica, por utilizar dados ultrapassados - principalmente em relação à vazão dos rios Manso e da Casca.

Rebatendo a essas insinuações, Iglesias escreveu uma réplica em agosto de 1990, quando as obras da usina já ameaçavam parar por falta de recursos. É o terceiro volume, que encerra um documento de grande valor histórico, cujos pormenores o Diário relata nesta página.

ORIGEM – A falta de planejamento e de visão estratégica dos governos federal e estadual sempre contribuíram para perpetuar o déficit energético de Mato Grosso, propõe o engenheiro.

“O Estado possui vastos potenciais hídricos que, por falta de um planejamento adequado, jamais foram aproveitados(...) Os problemas têm sido encarados com soluções casuísticas e emergenciais, com sérios prejuízos para a população e o Estado”, escreveu Iglesias.

O estudo cita a ampliação do complexo energético do rio da Casca, onde já funcionavam as usinas Casca I e II (900kw e 3400kw, respectivamente), como a primeira de uma série de incoerências, em meados da década de 60.

A construção da usina de Casca III (com três turbinas e potência de 12mw), tida como a solução energética para a capital, resultou num grande fiasco, devido ao baixo volume do rio da Casca.

Na mesma época, o Governo do Estado e o Ministério das Minas e Energia determinaram os estudos para o projeto da usina do Funil, no rio Cuiabá, visando a geração de 68mw e, por meio de um sistema de aproveitamento múltiplo, o controle das cheias do rio Cuiabá. “(...)Tudo pronto para ser dado o início às obras, surgiu uma reação de alguns setores políticos contrários à usina e o governo retrocedeu em sua iniciativa(...)”, prossegue Iglesias.

Segundo o engenheiro, o projeto teria sido um “marco histórico na administração estadual”, pois, além de suprir o Estado com energia por mais de uma década, a barragem teria dispositivos de escala de peixes, evitando os impactos negativos na piracema. A idéia foi retomada em 1971, mas as mesmas forças “ocultas” o teriam arquivado definitivamente.

A história oficial da Usina de Manso começa em 1974, com a grande enchente do rio Cuiabá. A catástrofe natural, que desabrigou milhares de famílias ribeirinhas, foi a justificativa para a implantação de uma barragem com sistema de controle de cheias no rio e, num sistema de aproveitamento múltiplo, a barragem ainda teria potencial de geração em torno de 100mw.

Coube ao Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), de cuja equipe participou Iglesias, realizar os estudos de viabilidade técnica e operacional da obra. O resultado deste trabalho fez com que o Ministério do Interior desistisse da idéia. “(...)Em virtude do alto custo das obras civis e pelas dúvidas surgidas quanto à eficiência no controle de cheias e a comprobatória ineficiência na questão da navegabilidade do rio Cuiabá”.

COUTO MAGALHÃES - Em 1976, a Eletronorte começa a inventariar e projetar uma barragem no salto de Couto Magalhães, no rio Araguaia, 30 quilômetros de Alto Araguaia. Seria a primeira de uma série de quatro barragens, formando o “Complexo do Araguaia” – Barra do Peixe(280mw), Torixoréu (180mw) e Barra do Caiapó (168mw).

Segundo demonstra Iglesias, esta obra seria mais barata e muito menos impactante que Manso, gerando praticamente a mesma energia (220mw). Em primeiro lugar, havia a vantagem de aproveitar um salto já existente, evitando a construção de uma grande barragem. Também por este motivo, a usina não iria interferir na circulação de peixes.

Com o projeto completo, a obra já havia entrado em fase de concessão e concorrência pública, quando a lógica foi atropelada pela política (ver matéria na pág.B3). “(...)Mais uma vez, entraram opiniões contrárias, o governo do estado se posicionou favorável à estas opiniões e não se interessou pela obra”, lamenta Iglesias.

A questão foi decidida em favor de Manso. A Eletronorte, que defendeu Couto Magalhães até a última hora, sucumbiu à pressão interna e a usina de Manso tornou-se a prioridade. Para isso, também teria contribuído uma disputa “territorial” entre Furnas e a Eletronorte pela exploração do potencial energético do Araguaia (ver matéria B3).

O fato é que a empresa Sondotécnica foi contratada para os estudos e a execução da usina de Manso. Neste trabalho, conta Iglésias, a empresa simplesmente adaptou o mesmo projeto que havia sido feito – e arquivado – pelo DNOS, em 1975. “(...)Assim, começava tudo de novo. Apesar de termos chegado tão perto da solução deste magno e fundamental problema”, concluiu Iglesias.




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