Documentos do DOPS desapareceram

JOSÉ LUIZ MEDEIROS
O coordenador do Arquivo Público de Mato Grosso, Clementino Nogueira, que pretende localizar os documentos
O Arquivo Público de Mato Grosso vai formalizar, na próxima semana, um pedido para a formação de uma comissão para investigar o paradeiro dos documentos do extinto Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Segundo o coordenador do órgão, Clementino Nogueira, o ofício será encaminhado à Secretaria de Administração, para que venha a definir os moldes da equipe – que poderá contar com membros de universidades, Ministério Público e do próprio arquivo, entre outros participantes.

A tentativa do Arquivo Público é responder à seguinte pergunta: onde estão as fichas dos perseguidos políticos dos tempos da ditadura militar? O destino dos documentos do DOPS sediado em Cuiabá é um mistério até para as autoridades do Estado. “Eu também gostaria de saber onde estão aquelas fichas”, disse o secretário de Justiça e Segurança Pública, Benedito Corbelino. Reação semelhante foi manifestada pelo diretor geral de Polícia Civil, Milton Teixeira. Também não há rastros do material na Divisão Central de Inteligência (DCI) da Secretaria, assim como no Exército (ver matéria nesta página).

Entre os documentos requeridos pelo Arquivo Público, a maior preciosidade são os fichários da Divisão de Informação do DOPS de Mato Grosso. Organizado pelo ex-diretor do Departamento, Joaquim Ramalho dos Santos, o setor concentrava esforços nos casos mais importantes, de caráter estritamente confidencial.

O DOPS começou suas atividades em Mato Grosso em 1973, cerrando as portas uma década depois, em 1984. Sua primeira sede foi o prédio do Palácio da Instrução, onde permaneceu por dois anos. Passou então a funcionar no Palácio Alencastro – atual prefeitura de Cuiabá, na época Palácio do Governo – ocupando a área onde hoje funciona o setor de cobrança de IPTU.

Ramalho iniciou suas atividades como diretor do DOPS em 20 de março de 1975 e exerceu a função até 28 de outubro de 1979 – assumindo o cargo por indicação do então governador Garcia Neto. Sua primeira providência foi estreitar as ligações locais com os DOPS de outros estados. E obteve êxito: segundo ele, os maiores vínculos foram estabelecidos com São Paulo, graças à sua amizade com o ex-diretor e atual senador Romeu Tuma.

As informações corriam por diferentes pontos do país. Em um tempo em que não havia fax ou internet, o DOPS de Mato Grosso recebia e enviava dados sobre os procurados por crime de ordem política e social incessantemente. Naquela época, os Correios eram o grande canal de comunicação entre os DOPS de diferentes partes. Os envelopes seguiam nos malotes, mas nunca sem um carimbo que avisava: confidencial.

O DOPS tinha suas táticas. Além da teia de informações estabelecida com o resto do país – importante para o regime, tendo em vista que Mato Grosso é um estado de fronteira – usava “macetes” para rastrear e desvendar as tendências ideológicas dos procurados. Policiais se disfarçavam de garis, mendigos, bacharéis ou até estabeleciam laços de amizade com os suspeitos, para descobrir o que queriam. Seguindo de perto a trajetória do investigado, era possível “ver se ele tinha dotes ou cacoetes para ser terrorista ou comunista” sem mesmo chamá-lo para depor. Joaquim Ramalho garante que pessoas não eram presas, mas apenas “chamadas a prestar esclarecimentos”. E acrescenta: “Muitos jamais ficaram sabendo de que um dia foram investigados”.

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