Segunda feira, 18 de junho de 2018 Edição nº 10276 28/04/2002  










HISTÓRIA IIAnterior | Índice | Próxima

Influência nas eleições de 1933

Com a derrota nas urnas, grupo da situação decidiu que era hora de destruir o Arraial do Tanque Novo

RODRIGO VARGAS
Da Reportagem

O fogo já havia consumido os pequenos barracos de palha quando a última carga de dinamite explodiu, arrasando por completo a igreja do arraial do Tanque Novo. A tropa da Polícia Militar - mais de cem homens armados com fuzis, revólveres e carabinas - agora descansa, saciada com o resultado do saque ao único armazém do lugar. No dia seguinte, logo cedo, o trabalho irá recomeçar: é preciso cercar e prender Doninha.

Concluída dois meses depois, em setembro de 1933, a captura da vidente e de vários de seus seguidores seria o último ato da saga do Tanque Novo. No entanto, na origem destas cenas de guerra estão eventos anteriores às misteriosas aparições da santa Maria da Verdade.

Este marco pode ser divisado no momento em que o governo provisório de Getúlio Vargas, consoante com as diretrizes da Revolução de 1930 (ver matéria), passa a nomear interventores para comandar o processo nos Estados.

Esta atitude, fundamentada na idéia de um Estado forte e centralizador, tem por objetivo diluir a força das oligarquias agrárias e, com isso, viabilizar um projeto “modernizante” para o país. Em Mato Grosso, isso se deu a partir de 1931, com a nomeação de Antonino Gonçalves para o cargo de interventor.

Ele acabou substituído pouco tempo depois por Artur Maciel, que iniciou uma política de conciliação com as forças já constituídas - dentre as quais predominava o grupo dos usineiros de açúcar e os “coronéis” da pecuária pantaneira.

Esta orientação mais flexível permitiu que fosse indicado um legítimo representante dessa velha oligarquia, o pecuarista Manoel Nunes Rondon (proprietário de 15 fazendas e um engenho de açúcar), para a prefeitura de Poconé. Amigo da família e vizinho de Doninha, a escolha de Rondon seria decisiva para o futuro do movimento religioso em Tanque Novo.

Isso porque, à medida que se multiplicavam os milagres atribuídos à santa Maria da Verdade, mais cobiçado se tornava o apoio político da mulher que dizia estar em contato permanente com ela. E o coronel Bem Rondon, como era conhecido o prefeito, tratou logo de conquistar para si a simpatia de todos, Doninha em especial.

Ele tomou por hábito enviar presentes e doações ao sítio, garantindo desde a alimentação dos romeiros até um certo aparato de segurança no local. Também autorizou o jornalista Solon Alves de Arruda, proprietário do “Poconé Jornal”, a dar cobertura ao “fenômeno”, o que atraiu ainda mais gente ao local.

Mas os ventos mudariam radicalmente em 1932, quando o movimento chamado constitucionalista – que pedia eleições diretas e voto secreto no país – tentou sem sucesso retomar o poder às mãos das velhas oligarquias. Em Mato Grosso, Artur Maciel é substituído pelo cuiabano Leônidas de Matos (que era ligado ao chefe de polícia do Distrito Federal, Filinto Müller).

O novo interventor logo trata de exonerar o coronel Rondon, nomeando em seu lugar Antônio Avelino Corrêa da Costa, que é declaradamente contrário ao seu antecessor e aliados – entre os quais, Doninha e seguidores.

Essa contrariedade se transformaria em ódio pouco antes das eleições para a Assembléia Constituinte, marcadas para 3 de maio de 1933. Naquela oportunidade, a filiação às pressas de vinte moradores do Tanque Novo deu condições legais à candidatura do Partido Constitucionalista de Mato Grosso - que acabou saindo vencedor na disputa em Poconé.

O resultado pegou de surpresa o grupo da situação, que imediatamente atribuiu a culpa pela derrota - inédita nos demais municípios do Estado - ao apoio de Doninha. A partir daí, e com o apoio irrestrito da interventoria federal, a destruição do Arraial do Tanque Novo passou a fazer parte do projeto de desmonte das antigas oligarquias. A sentença foi dada. Não tardaria o pretexto para a sua execução.

LEIA TAMBÉM

Líder religiosa atraiu multidões e causou medo entre os poderosos
Sítio onde morava recebia até 1,2 mil pessoas ao dia
Dom de dar respostas antes mesmo de ouvir as perguntas
Jornais de Mato Grosso deram ampla cobertura ao movimento
Influência nas eleições de 1933
Derrota obrigou ‘nova ordem’ a optar pelas armas
Emboscada atrapalhou planos de “investigação”
Forte resistência fez grupo recuar em menos de 2 horas
Estudo descarta reedição de Canudos
Arraial agora é uma fazenda, mas continua atraindo fiéis
A cada ano, devotos fazem vigília de louvor à santa
Lavradora previu a televisão, devastação e a própria morte
Apesar de absolvida, Doninha foi obrigada a deixar cidade




Anterior | Índice | Próxima

Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto




19:31 PF quer 144 novos inquéritos em MT
19:31 Selma Arruda terá segurança privada
19:31 José Celso Dorileo vai para Controladoria Geral do Estado
19:30 BOA DISSONANTE
19:30 Emanuel Pinheiro diz que foi ‘armadilha’


19:29 A Copa política e o patriotismo
19:29 Zuquim mantém Savi preso
19:28 De volta ao G4
19:28 Mercado, Estado e 2018
19:28 O fim do foro privilegiado
Cuiabá
Min: 18°
Max: 36°

TOPO | PRIMEIRA PÁGINA | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | POLÍTICA | ECONOMIA | CIDADES | POLÍCIA | ESPORTES
BRASIL | MUNDO | DC ILUSTRADO | CUIABÁ URGENTE | EDITORIAIS | ARTIGOS | AZUL | TEVÊ | E-MAIL
Diário de Cuiabá © 2018