Sexta feira, 22 de março de 2019 Edição nº 10215 24/02/2002  










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Boas coisas à mostra

Os músicos do Biquini Cavadão sempre foram desdenhados por parte da imprensa paulista, que usava o termo "rock de bermudas" para ironizar bandas consideradas leves e pueris demais. É uma banda que sempre compartilhou com Herbert, Bi & Barone, do Paralamas, uma saudável inquietação estilística.

ARTHUR DAPIEVE
Do site No.

Nos anos 80, o Biquíni Cavadão estava, por assim dizer, numa Segunda Divisão: a dos grupos que ou tinham sucesso de público e não tinham sucesso de crítica ou tinham sucesso de crítica e não tinham sucesso de público (ficando na Primeira Divisão, claro, quem acumulava os dois, tipo Legião ou Titãs). Quando a maré do mercado virou, com a eleição de Fernando Collor por 35 milhões de eleitores chegados a um neo-sertanejo, muitos colegas de geração do quinteto carioca hesitaram ou desistiram do negócio. It's a long way to the top if you wanna play rock'n'roll, essas coisas... Contudo, muita gente que partiu voltou quando o mercado se reabriu ao pop-rock nacional. O Biquíni não. Embora tenha passado um tempo sem gravadora, o que resultou em discos esparsos (apenas oito, em 17 anos de carreira fonográfica), o cantor Bruno Gouveia, o tecladista Miguel Flores da Cunha, o baterista Álvaro "Birita" Lopes e o guitarrista Carlos Coelho sempre estiveram "por aí". Na luta. O baixista André "Sheik" da Luz – ausente já no CD "80", recheado de versões para clássicos daquela década, lançado ano passado – também.

Eles sempre foram desdenhados por parte da imprensa paulista, que usava o termo "rock de bermudas" para ironizar bandas consideradas leves e pueris demais. Por contraste, naturalmente, com um subentendido "rock de sobretudo", metido a sério e a londrino. Os Paralamas do Sucesso também usavam essas bermudas metafóricas – e acabaram se tornando a mais ousada das grandes bandas daquela geração... Batizado por Herbert Vianna, o Biquíni nunca chegou a ser um Paralamas. Mas sempre compartilhou com Herbert, Bi & Barone uma saudável inquietação estilística. Assim, já em seu primeiro LP, "Cidades em torrente" (de 1986, há pouco relançado em CD remasterizado, bem como os seguintes "A era da incerteza", "Zé" e "Descivilização"), os sucessos adolescentes "Tédio" e "No mundo da Lua" conviviam com três vinhetas instrumentais, primeiros sintomas do desejo de fazer diferente. E, em "A era da incerteza", de 1987, seu melhor disco até hoje, o tratamento que a banda e o fiel produtor Carlos Beni (ex-baterista do Kid Abelha) deram aos 13 temas às vezes resvalava no erudito. Sem passar pelo progressivo.

Nesse disco, há em particular uma faixa, "Inocências", que reverbera pelos anos como uma das mais bonitas criadas pelo Rock Brasil dos anos 80, ou BRock. "Nessa estrada eu já fui pra todo lado", canta Bruno, que acalenta a idéia de regravá-la. "Tive quase tudo/ E por ser quase, tive nada/ Rodando na ciranda que separa/ O joio e o trigo, eu vou dançando/ Vou lembrando do primeiro prazer de se estar vivo." De quebra, o LP tinha "Ida e volta", talvez a primeira de uma série de músicas metalingüísticas do Biquíni, músicas que falam também dos dramas e angústias do grupo diante de sucessos e insucessos. ("Bem-vindo ao mundo adulto", de "Zé", de 1989, segue a mesma senda.) Aqui e ali emplacando um discreto sucesso, como "Vento ventania" (de "Descivilização", de 1991), "Chove chuva" (de Jorge Ben, em "Agora", de 1994), "Janaína" (de "biquini.com.br", 1998), "Escuta aqui" (do álbum homônimo, de 2000) e "Múmias" (de "Cidades em torrente", regravado em "80"), este Biquíni Cavadão nunca saiu de moda, mesmo mantendo-se na hipotética Segunda Divisão. E, como todo biquíni cavadão, sempre deixou à mostra coisas boas.



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