Sexta feira, 28 de fevereiro de 2020 Edição nº 9631 13/06/2000  










SANDRA QUEIROZ LEITE, LUIZ AUGUSTO PASSOSAnterior | Índice | Próxima

Em Mimoso festa é tradição

O azul do céu parece poder ser tocado no infinito campo de capim mimoso, onde as flores do cambara ornamentas a terra de Rondon. Mimoso é distrito de Santo Antônio de Leverger, comunidade do meio rural, em pleno pantanal mato-grossense, formada a partir da diversidade étnica e lingüística: índio (Bororo), branco e negro. Um povo que recriou seu próprio espaço e tempo, a partir de sua singular visão de mundo. E a partir das relações sociais e culturais, relacionam-se entre si, na base da solidariedade e reciprocidade, que por sua vez, estendeu-se para relações que esta comunidade estabelece com seu território espacial e com a natureza. Sendo esta relação, bastante generosa para com a região, pois apresenta um conjunto de beleza impar, apesar das freqüentes ações do homem, colocando sobre ameaça a sobrevivência da população pantaneira. Haja vista a situação agonizante das Baías de Chacororé e Sía Mariana.

Este é o cenário em que acontece todos os anos (nos dias 12 e 13 de junho), a Festa de Santo Antônio - padroeiro de Mimoso. O culto ao santo padroeiro da comunidade ressalta o caráter estruturante das relações entre família e comunidade, além de celebrar o tempo e o espaço do grupo, sendo as dimensões elaboradas por cada sociedade ou cultura, que lhe atribui um peso específico, de acordo com seu ordenamento estrutural. Nesta perspectiva, a participação na festa, para os mimoseanos, não implica apenas aproveitar-se, festejar mas sobretudo a festa se constitui num espaço e tempo sagrado, isto é, uma qualidade especial "singular", uma realidade diferente daquela vivenciada no cotidiano. Portanto, o espaço apresenta uma ambigüidade na circulação das forças sagradas: o local da festa, o altar do santo, a Igreja, o cemitério, são espaços sagrados. Com relação a temporalidade o fenômeno se repete, há tempos sagrados: dia dos santos dia dos mortos, dia da festa.

As relações que envolvem crenças e expectativas no tempo e no espaço apresentam sentido e significado para o mimoseano, por exemplo: não executar tarefas consideradas perigosas em dia santo (trabalhar com machados, foices, enxadas, etc.), não adentrar em lugar sagrado com o chapéu na cabeça. Neste sentido a festa religiosa em mimoso, esta articulada à sobrevivência de um tempo antigo, mantido pela tradição e fé do grupo, cujos velhos exercem o papel de orientadores, para que não se perca o contato com os rituais de seus ancestrais. Nesse espaço e tempo festivo, ocorrem manifestações de alegria, com regras e limites nutrindo a identidade cultural, a memória coletiva os valores e viv6encias inseridos na história do grupo. A festa é um tipo de ritual cujos símbolos presentes nesse cenário articulam a resist6encia e a identidade desse povo.

Para o mimoseano a festa é um elemento central e aglutinador, é o momento de reencontrar parentes, amigos, de trocar informações, descontração, de namoros, de danças, de música, e de reatualização do conjunto de valores, de sentidos e significados do grupo. Nas rodas de cururu, ocorrem duelos, entre os curureiros que cantam e dançam o santo festejado. As disputas entre cantadores, implica em fama e vantagens, pois a tempos passados para se conquistar as namoradas, levava vantagem um bom cururueiro. Há casos em que os cantadores não sabiam ler, mas pediam a alguém que soubesse para que lê-se passagens da bíblia, eles ouviam e gravavam tudo na memória, para poderem ter argumentos ao duelos com outros trovadores. As danças e toadas ( versos) do cururu e siriri, também são formas de comunicação, de expressarem seus valores, sentimentos, mágoas e até mesmo para a critica, ou seja, os conflitos emergem. Estes momentos são tomados como a oportunidade de dizer o que não se diria objetivamente: rivalidades políticas, desfeitas de uma pretendente, insinuações de fatos que não se tem provas, enfim, diz-se o que se sente e pensa sem poder ser interpelado.

Mas o momento pleno da festa para o mimoseano, e a razão principal do evento, é a reza (cantada), e a transcendência, pois a fé não tem explicações, apenas crença. Para as pessoas que não pertencem ao grupo, "estranhos" à festa de Mimoso pode passa, apenas por mais uma festa. Mas se o visitante quiser embebedar-se na poesia polissemica, em que se constitui a festa, deverá conferir de perto. Vá a Mimoso na festa de Santo Antônio, imbuído de espirito observador e participante, pois não basta olhar, mas deve-se deixar envolver na teia de significados que se estabelece neste tempo e espaço singular.

No entanto, mimoso não é só festa, é um lugar de gente receptiva e solidária. É além de suas atrações naturais, ainda cultua o mito de Rondon, o mais ilustre de seus filhos, para não dizer de Mato Grosso. A figura mítica do marechal Rondon, confere identidade ao povo mimoseano. E o recente lançamento do filme "Rondon o último dos bandeirantes", foi marcado pela expressiva presença de mimoseanos, muitos deles personagens do enredo. Sendo esta uma característica importante deste grupo, orgulhar-se de ser mimoseano.



* SANDRA QUEIROZ LEITE é historiadora, mestranda em Movimentos Sociais, Política e Educação Popular do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso.

* LUIZ AUGUSTO PASSOS é Doutor em Educação e professor da Universidade Federal de Mato Grosso

E-mail: elaineso@zaz.com.br

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