Segunda feira, 26 de junho de 2017 Edição nº 10138 30/11/2001  










MÁRCIO C. COIMBRAAnterior | Índice | Próxima

Ética do PT

O Partido dos Trabalhadores está vivendo um momento inimaginável até o momento. O seu governo gaúcho é alvo de investigações em uma CPI do legislativo local que indicou a presença de irregularidades graves em sua administração. Estas falhas se agravaram quando foi percebido que a corrupção instalada no governo petista era maior do que se imaginava, pois se misturava com a arrecadação dos fundos de campanha e a troca de favores pós-eleição. Parecia um filme já assistido por milhares de brasileiros.

Pelo que indica a CPI, que tem como relator um dos maiores expoentes da esquerda gaúcha, o deputado estadual Vieira da Cunha, o PT recebeu doações de campanha advindas de banqueiros responsáveis pelo jogo do bicho no Rio Grande do Sul. As sobras de campanha serviram para a compra do atual prédio-sede petista em Porto Alegre. Em troca, os bicheiros solicitaram o abrandamento da vigilância policial em seu negócio. Em depoimento a CPI, o Sr. Diógenes de Oliveira, ex-secretário de transportes do governo Olívio Dutra durante gestão na Prefeitura de Porto Alegre e segundo a imprensa um antigo guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária, responsável pelo seqüestro do cônsul japonês Nobuo Okuchi em 1970, é o principal personagem da história que corrói o manto de probidade que encobria o PT.

Nas investigações da CPI, que contou com o depoimento de Diógenes, foi descoberto que o Clube de Seguros da Cidadania foi uma entidade criada para receber doações para o partido. Na apreensão de documentos foram encontrados recibos de doações em branco com datas passadas. Entretanto, o fato mais grave foi a gravação em que pede para polícia fornecer uma espécie de tratamento especial ao jogo do bicho, em nome do Governador Olívio Dutra. O ex-secretário de governo de Olívio é o responsável por dirigir o Clube e, conseqüentemente, receber as supostas doações e além da entidade citada, também era responsável por uma agência de viagens que levava turistas até acampamentos do MST. Na última semana, Diógenes deixou o PT para não enfrentar a comissão de ética, entretanto informou: “continuo socialista e revolucionário”.

Apesar de alegar que não falava em nome do Governador, ou seja, havia apenas “dado um carteiraço”, como enfatizou, o antigo guerrilheiro se tornou o ponto principal das denúncias de corrupção que envolve o governo petista.

O governador Olívio veio a público pedir o esclarecimento das denúncias via Ministério Público, para que o julgamento do caso não se tornasse político. No Senado Federal, contudo, as apurações de possível falta de decoro ou corrupção, sofrem, além da remessa ao MP, um julgamento político na Casa. Esta tese encontra abrigo enfático principalmente entre os líderes petistas do Senado. Acredito que a postura deve ser mesma para todos os casos. Se foi assim para ACM, Arruda e outros, não há razão para ser diferente quando um fato ocorre em outra casa legislativa brasileira. A ética não encontra abrigo em ideologias.

A publicação de apedidos em jornais, com a tese de que está em curso um golpe para retirar do poder um governo legitimamente eleito não é de bom tom. Da mesma forma, Fernando Collor esbravejou antes de seu impeachment. Se o governo do PT sofrer impedimento pela Assembléia Legislativa (o que não acredito, quero ressaltar), o fato ocorrerá dentro das regras legais pré-estabelecidas e que legitimam esta atitude do parlamento. Logo, não há que se falar em qualquer espécie de golpe. Ao invés de alegar um golpe, o governo gaúcho deve trabalhar se deseja recuperar a sua imagem, pois o pleito de 2002 se aproxima e o julgamento das urnas é implacável. O PT gaúcho deve perceber que sua atitude enfraquece Lula, o partido e a esquerda. Termino com a frase do deputado Vieira da Cunha, um dos líderes da esquerda gaúcha: “Eles (PT e governo) tem de entender que há vida na esquerda fora do Partido dos Trabalhadores”.



* MÁRCIO C. COIMBRA, especialista em Direito Internacional

marcio.coimbra@uol.com.br



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