Quinta feira, 22 de agosto de 2019 Edição nº 10101 21/10/2001  










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Eu era garoto ainda

MAY DO COUTO: “UM LIBELO CONTRA O

PRECONCEITO”



Eu era garoto ainda e estudava no Colégio São Gonçalo,

quando passava diariamente pelo casarão que pertenceu a

May do Couto e ficava intrigado. Diziam ser mal

assombrado. Da boca do povo surgiam mil histórias a esse

respeito. Situado no bairro Bandeirantes, ao lado do

Clube Dom Bosco, o time do seu coração, ela viveu pouco

tempo na casa, mas a encheu de alegria durante o pequeno

período em que ali viveu, mesmo já estando doente e

sentindo terríveis dores físicas. Hoje, 30 anos após a

sua morte, ocorrida no dia 17 de outubro de 1971, o

casarão ganhou cores fortes e alegres, mas guarda ainda

um insistente aspecto de abandono.



Sempre tive curiosidade sobre essa mulher. Não apenas

por causa dessas histórias, mas principalmente pela sua

atuação na vida da cidade. Sabendo disso, Regina Calhao

emprestou-me o livro “A Presença de May”, escrito pela

mãe da homenageada, de onde retirei subsídios para

escrever este texto. Embora a obra possa incorrer em

parcialidade, por motivos óbvios de laços afetivos,

traça um retrato da mulher, sem mitificá-la.



Filha de Hermínio do Couto e de Francisca Torres do

Couto, Ana Maria era a segunda filha do casal e nasceu

em Cuiabá, no dia 13 de setembro de 1925, mais

precisamente na Rua General Mello. Foi o irmão mais

velho quem lhe deu o apelido com o qual se tornou

conhecida. Já aos 02 anos começou a demonstrar vocação

para a intensa vida social, que viria a marcar toda a

sua existência. Escolhida para coroar Nossa Senhora

Auxiliadora, no Colégio São Gonçalo, deixou transparecer

também a sua irreverência, outra de suas

características. Apesar de haver ensaiado, na hora da

solenidade, diante dos olhos de todos os presentes, que

aguardavam aquele momento solene, a menina pegou a coroa

e colocou-a sobre a própria cabeça e cruzou as mãos.

Todos riram. Somente após alguém ter-lhe cochichado ao

ouvido, foi que retirou-a e colocou-a onde de direito.



Aprendeu as primeiras letras muito cedo, contra a

vontade dos pais, que achavam que ainda não era o

momento. Mas a menina insistiu tanto e, aos 04 anos de

idade, passou a freqüentar a escola da Professora Zilda

de Carvalho, no distrito da Guia, para onde a família

havia se mudado.



De volta a Cuiabá, aos 07 anos de idade é matriculada na

Escola Modelo Barão de Melgaço, passando a se destacar

dos demais colegas, pois era presença constante em

desfiles cívicos e nos esportes. Esse mesmo espírito

participativo também a fez se destacar no Liceu

Cuiabano, onde concluiu os cursos ginasial e secundário.

Foi lá, inclusive, que surgiu a May oradora, sempre

solicitada a falar para a comunidade escolar e para as

autoridades, em datas cívicas.



O seu talento como esportista a levou para o Rio de

Janeiro, por mais de uma vez. A primeira foi aos 16

anos, quando só retornou em 1944, já com o diploma de

Educação Física. Retorna em 1951 para um curso de

extensão universitária, desta vez em História. Em 54

conclui o curso de verão na Escola Nacional de Educação

Física. Em 57 novo curso, de Informações sobre Educação

Física.



Como atleta, jogava vôlei, basquete e arremesso de

disco. No Rio de Janeiro destacou-se nesta última

categoria, obtendo o primeiro lugar disputando pelo

Fluminense. Na época, 1944, o jornal “O Cruzeiro” assim

se manifestou: “Magnífica atleta do Fluminense, que

venceu o arremesso de disco, com uma boa marca, ou seja

29 metros e 29” ”.



Mereceu de professores e colegas do Rio de Janeiro

declarações do tipo: “sol moreno que a todos aquece”,

“um libelo contra os preconceitos”, “personalidade

inconfundível”, “morena quente, que eu não sei ainda que

tamanho tem, nem o que encerra, nem o que vale”,

“procurarei corresponder às expressões fiéis de tua

camaradagem espontânea e cristalina”, “nos trouxe de

Mato Grosso uma mensagem de saúde e alegria e leva nossa

saudade e admiração”.



No entanto, a atleta não sobreviveu, talvez pela falta

de estímulos. Felizmente May era uma mulher de muitos

talentos. E doou-os, sem reservas à sua terra natal. Se

destacou em tudo o que se propôs a fazer. Foi também

professora e diretora de escola. Jornalista e

radialista, dirigiu e apresentou na TVCA o programa

“Galeria de Vultos Ilustres”. Advogada, formada pela

primeira turma da Faculdade Federal de Mato Grosso,

chegou a ocupar o cargo de juíza auditora da Polícia

Militar. Foi também vereadora, eleita em 1963, pelo

Partido Trabalhista Brasileiro.



Sua vida, porém, não foi apenas trabalho. May também se

divertiu. E muito. Mas ao seu modo. Alguns a

desaprovavam implacavelmente. E certamente não dava

ouvidos aos comentários desairosos, inclusive sobre sua

orientação sexual. Boêmia, adorava um carteado. Foi uma

das poucas mulheres a freqüentar (assiduamente) o Bar

Internacional, reduto dos machos e dos intelectuais.



Como vêem, não se trata de um fantasma, nem de uma

lenda. May foi uma mulher verdadeira, transgressora, que

morreu jovem, aos 46 anos de idade. E se por um lado as

histórias que inventaram a seu respeito ajudaram a

enriquecer o repertório popular e místico de Cuiabá,

por outro foram terrivelmente nocivas e injustas à sua

memória, pois transformaram em fantasma a advogada, a

professora, a atleta, a política, a boêmia, enfim a

mulher que esteve à frente do seu tempo.

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