Ingleses tentam provar que serra Ricardo Franco é o ‘Mundo Perdido’
Grupo de pesquisadores quer confirmar tese de que região inspirou o escritor Arthur Conan Doyle
José Luiz Medeiros/DC
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| | Pesquisadores navegam pelo rio Verde, na região da serra Ricardo Franco, refazendo caminho de Fawcett |
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ORLANDO MORAIS
Enviado a Vila Bela
Quase 90 anos depois da publicação, na Inglaterra, do famoso livro do escritor Arthur Conan Doyle, “Mundo Perdido”, três professores de Lancashire, Inglaterra, estiveram em Mato Grosso para provar que aqui está a região que serviu de inspiração para a obra. Mais precisamente, o “mundo perdido”, que até hoje encanta jovens e aventureiros de todo o mundo, e serviu de inspiração para o cineasta Steven Spielberg criar o seu “Indiana Jones”, é a Serra Ricardo Franco, em Vila Bela da Santíssima Trindade (a 547 quilômetros de Cuiabá).
Em 1908, um explorador inglês que se notabilizou depois de desaparecer numa expedição ao Xingu, o coronel Percy Harrison Fawcett, descobriu a Serra Ricardo Franco na região sudoeste de Mato Grosso quando traçava a fronteira entre o Brasil e a Bolívia (leia matéria nesta página). Quando voltou à Inglaterra, o coronel Fawcett contou a Conan Doyle as agruras que viveu na selva e descreveu para ele a região: “um inferno envenenado que nunca poderia ser explorado a pé, anacondas de até 20 metros capazes de tirar um homem para fora de uma canoa, homens selvagens, uma planície infestada de serpentes mortais, morcegos enormes olhando como pterodáctilos, panteras pretas ferozes, tribos indígenas brancas, enxames de abelhas e fogos à distância”.
Armados com câmeras de vídeo e fotográfica, um computador, um sistema de localização por satélite, uma canoa portátil, barracas e, principalmente, acompanhados por um guia local, os professores Simon Chapman (líder da expedição), Dave Clark e Derek Roddenburg tentaram refazer os passos do coronel Fawcett. A expedição começou no dia 25 de julho e terminou ontem (sábado, 4).
Ao todo, eles percorreram 60 quilômetros a pé, através do platô da Serra, e desceram cerca de 80 quilômetros pelo Rio Verde, que nasce na Serra e separa Brasil e Bolívia. Da Inglaterra, 850 estudantes de 11 a 16 anos acompanharam, pelo telefone celular, cada passo da aventura de seus professores. Com um telefone móvel por satélite e baterias carregadas por energia solar, os professores mandaram mensagens de texto para os alunos, que puderam respondê-las ou fazer perguntas.
O telefone se comunica com o satélite da rede Iridium, que oferece cobertura global. Do satélite, a conexão é feita com um servidor Iridium Apollo, que os conecta ao servidor do ProjectSMS via Internet. O servidor do ProjectSMS então gera mensagens através de um servidor na Suíça.
As mensagens então finalmente chegam ao telefone móvel do estudante. Todo o processo leva sete segundos desde o clique do ENVIAR no laptop na selva até a chegada da mensagem na Inglaterra. Foi a primeira experiência do tipo com um objetivo educacional. Mais tarde, as imagens da expedição serão disponibilizadas aos estudantes em um estúdio num sistema de “chroma key”, que permitirá a eles “mergulhar” na floresta.
De acordo com Simon Chapman, são inúmeras as semelhanças entre o cenário descrito no livro de Conan Doyle e o que eles puderam de fato constatar. ”Vimos que as descrições geográficas, com a vegetação, o tamanho e o formato da serra, as áreas pantanosas e até os bambuzais contra os quais os macacos jogavam os homens para matá-los são idênticas às do livro”, disse ele.
Segundo o professor, muita gente acreditava que o Monte Roraima, na divisa com a Venezuela, era o fundamento para o “Mundo Perdido” de Conan Doyle. “O fato é que Conan Doyle foi inspirado por uma conversa na Sociedade Geográfica Real, da qual o coronel Fawcett fazia parte — e agora estamos provando que aqui, sim, é o ‘mundo perdido’”.
Se para os ingleses a expedição serviu para consertar um equívoco literário e para testar uma nove forma de educar, para Mato Grosso ela pode abrir a possibilidade de um aumento no turismo. “Não podemos prever quantos ingleses vão querer visitar a região depois que popularizarmos a descoberta. O que sabemos é que serão muitos”, disseram os professores.
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