Terça feira, 27 de junho de 2017 Edição nº 9993 01/07/2001  










MÁRCIO PINHEIROAnterior | Índice | Próxima

O João Gilberto folk

PORTO ALEGRE – Mr. Hurricane estava para completar 50 anos quando esteve pela primeira vez em Porto Alegre. Foi há exatamente 10 anos, em maio de 1991, e a capital gaúcha era a primeira etapa da turnê brasileira. Um ano antes, Bob Dylan havia feito sua estréia no Brasil, tocando no Hollywood Rock, no Rio e em São Paulo. Passou todo o resto do ano viajando e entrou 1991 voltando à América do Sul, começando por Buenos Aires, seguindo por Montevidéu, até chegar pela segunda vez ao Brasil pela fronteira do extremo Sul.

As lembranças de Eduardo "Peninha" Bueno são cristalinas. Jornalista e escritor, Peninha, 43 anos, começou a ouvir Dylan em 1976. Procurou o ídolo pela primeira vez às 6h30 do dia 16 de janeiro de 1990, no hotel Hilton, em São Paulo. Peninha trabalhava o “Estadão”, foi para o lobby do hotel e reconheceu uma figura presente nos 30 livros que já havia lido sobre Dylan; aproximou-se do homem e perguntou:

– Você não é Victor Maimudes?

– Como você sabe disso? Você leu o livro de Robert Shelton ('No Direction Home')? – devolveu Maimudes.

– Li esse e outros 29. E aquele ali não é Marty Feldman (homônimo do ator e contador de Dylan)?

– Você conhece ele também? – espantou-se Maimudes.

– Claro. Foi ele que expulsou Larry Sloman (repórter da revista "Rolling Stone") do hotel em Plymouth, em 1976.

– Então você volta daqui a uma hora.

Peninha voltou, pediu na recepção para falar com Maimudes e lhe disseram que não havia ninguém com aquele nome hospedado no hotel. Peninha arriscou Rick Harder, o "alias" de Maimudes (codinome com que os integrantes da trupe de Dylan se hospedam e coincidentemente nome que Dylan usou no filme "Pat Garrett e Billy The Kid"). "Maimudes atendeu, disse que eu havia passado no primeiro teste e mandou subir". Peninha ficou amigo de Maimudes, manteve contato quase semanal com ele, hospedou-o em sua casa em setembro do ano passado e planejava escrever em conjunto mais um livro sobre Dylan, "The Joker and The Thief". A idéia está suspensa desde 22 de janeiro devido à morte de Maimudes.

De 16 de janeiro de 1990 até hoje, Peninha teve, contados, 62 dias ao lado de Bob Dylan. Foram oito dias da primeira turnê brasileira; 12 dias em Nova York em julho de 1990 (quando assistiu 10 shows seguidos, abertos por Lenny Kravitz); 15 dias viajando pelo Leste Europeu em junho de 1990; quatro em Los Angeles, em dezembro do mesmo ano; outros 12 da turnê Argentina-Uruguai-Brasil, em abril/maio de 1991; mais três dias em Nova York em maio de 1992; outros três dias em Los Angeles em julho de 93 (quando conheceu uma das seis casas de Bob Dylan espalhadas pelo mundo. Essa fica ao lado de uma reserva florestal em Point Dume, na baía de Santa Monica); e cinco dias em Nova York em maio de 1994. Na última vez que Dylan esteve em Porto Alegre, em abril de 1998, Peninha não procurou o músico.

Em Porto Alegre, na primeira apresentação, Dylan se hospedou no Plaza São Rafael – Peninha havia sugerido à produção que optasse pelo City Hotel, mais antigo e num estilo mais parecido com o que Dylan normalmente fica. Dylan, como sempre, lavou as próprias roupas, estendeu-as num varal dentro do quarto, não saiu de seu apartamento, comeu apenas o que foi preparado pela cozinheira particular e foi para o show, no ginásio Gigantinho, a pé, percorrendo quase dez quilômetros acompanhado por Maimudes e por um segurança que andava três metros atrás. Não foi reconhecido e, se foi, não foi importunado. Esse negócio de caminhar do hotel ao local do show é uma prática comum de Dylan. Tentou fazer isso também em Buenos Aires, indo do hotel Claridge (no centro da cidade) ao Monumental de Nuñez (distante quase 30 quilômetros), e no Rio de Janeiro, indo do Rio Palace até o Imperator – pelo menos uns 28 quilômetros. Nos dois casos conseguiu ser contido a tempo.

Além dos 30 livros que havia lido quando se apresentou para Maimudes, Peninha leu na última década mais 11 títulos – os melhores são "Bob Dylan's Stolen Moments", "Wanted Man" (seleção de artigos publicados em "Telegraph") e "The Invisible Republic", de Greil Marcus (395 páginas que contam a história dos Estados Unidos, dos pilgrims aos dias atuais através da intepretação das canções de "The Basement Tapes"). "É impressionante como todos os biógrafos tratam ele como uma pessoa normal e se esquecem que muitas vezes ele dorme de botas, que não raramente fica até uma semana sem tomar banho e que passa seis meses sem ver a luz do sol".

Peninha calcula que as 500 músicas que têm o copyright de Dylan representam uma ínfima parte do que ele compôs. "É possível pensar que ele tenha outras 2.500 músicas inéditas e que deve saber de cor mais de 10 mil temas do folk e do country". Não há registro de que Dylan um dia tenha se enganado com uma letra ou tido um branco.

Peninha chegou a fazer parte do círculo mais restrito do compositor, que inclui Maimudes, Kramer (que cuida do dinheiro) e o produtor Don De Vito (que cuida da agenda de shows) e isso faz com que tenha algumas definições claras: Bob Dylan é um idiot savant que não opera na mesma frequência que as pessoas normais. É depressivo, vive num mundo à parte, trabalha o tempo inteiro e só consegue se expressar através da música. "Quem acha que o João Gilberto é cheio de mania é porque não conhece o Bob Dylan. Perto dele, o baiano é a Branca de Neve, que acorda alegre e passa o dia inteiro sorrindo".

Para o guitarrista Duca Leindecker as lembranças são nebulosas. Duca tinha 21 anos, um disco solo gravado e algumas participações em shows e discos de outras bandas gaúchas. Ele se lembra vagamente que foi convidado pela produção para fazer o show de abertura, mas não se lembra do repertório – apenas que foi escolhido em parceria com o também guitarrista Frank Solari e que era basicamente composto de temas instrumentais (com uma música do disco "Friday Night in San Francisco", de Al Di Meola, John McLaughlin e Paco De Lucia e nenhuma do Dylan) – e também não se recorda muito bem de quanto foi o cachê. Esse comportamento naturalmente blasé chamou a atenção do próprio Dylan que saiu do camarim para ouvir o show de abertura e através do produtor Jeff Kramer disse que gostaria que os dois acompanhassem a turnê por todo o Brasil.

Duca gostou da idéia de passear, mas não se entusiasmou em abrir o show. Emoção maior ele havia tido três anos antes quando fez o show de abertura da turnê do hoje obscuro guitarrista Stanley Jordan. Daqueles 12 dias de maio, Duca se lembra que não teve contato com Dylan em Porto Alegre, nem em Belo Horizonte, nem em São Paulo. Apenas no Rio recebeu um rápido abraço. Duca não ouvia Dylan, gostava mais de Eddie Van Halen e mesmo depois de tudo isso ainda hoje se interessa mais por um Dylan menos famoso, o filho Jakob.

Em Los Angeles, onde esteve no ano retrasado com a banda Cidadão Quem para mixar "Soma", Duca contou para algumas pessoas sobre o contato com Dylan. Ninguém acreditou.



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