Sexta feira, 23 de agosto de 2019 Edição nº 9980 18/06/2001  










ENTREVISTAAnterior | Índice | Próxima

Trabalho para chegar a governador

Ricardo Adriane, mineiro com quatro anos de Cuiabá, diz que joga para chegar à “seleção da Política”

EVILÁZIO ALVES/DC
Ricardo Adriane chega a Câmara Municipal com apenas quatro anos de Cuiabá e avisa: quer chegar a governador e trabalha para isso
LUIZ ACOSTA
Da Reportagem

Em Cuiabá há apenas quatro anos e seis meses, Ricardo Adriane, um mineiro de 32 anos, criado no interior de São Paulo, conseguiu o que muitos cuiabanos de “tchapa e cruz” vêm tentando há décadas e não conseguem: se elegeu vereador logo na primeira vez que disputou.

Atuando no setor de transporte coletivo há 17 anos, Adriane veio para Cuiabá para gerenciar a empresa Arco-Íris de Transporte e conseguiu angariar a simpatia de todos no setor, desenvolvendo, segundo ele próprio, uma política de companheirismo. A simpatia que angariou e o trabalho que desenvolveu nos últimos anos levou o ex-gerente a disputar uma vaga na Câmara de Cuiabá pelo PMN, tendo conseguido se eleger à frente de muitas ‘cobras criadas’ da política local.

Nesta entrevista exclusiva ao Diário, Ricardo Adriane demonstra todo o seu conhecimento do setor de transporte coletivo, do qual faz uma avaliação completa, e fala das propostas que pretende desenvolver ao longo deste mandato. O vereador é contra a gratuidade dos ônibus nos finais de semana e também o passe-livre para os estudantes, e explica porque. Ele classifica a militância política como a carreira de jogador de futebol, afirmando que todo juvenil sonha em chegar à Seleção, e ele, como ‘juvenil’ na vida pública, também sonha em sair do cargo de vereador para ‘chegar à seleção’, ou seja, alçar vôos mais altos na carreira.

Diário – O senhor é o vereador de Cuiabá que mais entende de transporte coletivo, ao lado de Yênes Magalhães (PSDB), porque foi diretor de empresas de ônibus até se eleger. O senhor acha justo o recente aumento da passagem de ônibus de R$ 1,00 para R$ 1,20?

Ricardo Adriane – Desde quando há melhoria no sistema é justo. O sistema de transporte coletivo de Cuiabá está sendo um dos melhores do país e esse aumento também traz um dever de casa para os empresários, que é a renovação da frota, estruturação da Estação Bispo Dom José e da Estação do Porto, que será o principal meio de integração entre Cuiabá e Várzea Grande, duas cidades co-irmãs, quando for implantado do Aglomerado Urbano, que trará também outras ações conjuntas para os dois municípios.

Diário – Esses 20% de reajuste não representam muito para os trabalhadores, uma vez que o salário mínimo é de apenas R$ 181,00?

Ricardo Adriane – Sem dúvida nenhuma. Sempre é o povo que paga, acho que o percentual é um pouco alto, mas a cidade está crescendo, os itinerários estão aumentando e, se levarmos em conta que o sistema de integração permite a uma pessoa sair do Pedra 90 e ir para o CPA pagando apenas uma passagem, acho que dá para ser absorvido, já que o custo-benefício justifica.

Diário – Os vereadores de oposição questionaram bastante a planilha de custos apresentada pelos empresários, chegando a aventar a possibilidade de adulteração dos custos. Tecnicamente isso é possível?

Ricardo Adriane – Não existe como alterar a planilha porque ela é feita pela SMTU (Secretaria Municipal de Transporte Urbano) e avaliada pelo Ministério dos Transportes. Os vereadores da oposição fizeram uma audiência pública, da qual participou o secretário Josué Souza, que fez todos os esclarecimentos necessários da nova planilha tarifária.

Diário – Como ficam as propostas de passe-livre e ônibus gratuitos aos domingos se os empresários sempre reclamam de prejuízos?

Ricardo Adriane – Eu estive visitando Campo Grande (MS) durante dois finais de semana e pude constatar que o prefeito André Puccinelli (PMDB) já retirou um domingo de gratuidade dos ônibus, deixando apenas um e já avisou que vai retirá-lo em pouco tempo. Particularmente sou contra a gratuidade, porque ela não serve apenas a população, mas também facilita o deslocamento de gangues e de toda sorte de marginais de um lado para outro da cidade, o que contribui para aumentar o índice de violência e de assaltos. A única forma de se implantar essa gratuidade para que as famílias tivessem maiores condições de ir visitar um parente ou uma área de lazer da cidade, seria com a utilização de seguranças, o que causaria outro dispêndio para os empresários ou para o próprio poder público, para inibir a ação de bandidos que também se utilizariam largamente dos ônibus gratuitos para praticar toda sorte de delitos.

Diário – O senhor defende o passe-livre para os estudantes?

Ricardo Adriane – Eu defendo o sistema que existe hoje, onde todos os estudantes têm direito a 50% de desconto na aquisição do passe. Agora, essa gratuidade que alguns vereadores estão cogitando vai culminar com um prejuízo muito grande para aqueles usuários que pagam a passagem, os pais de família que ganham salário mínimo porque, sem sombra de dúvida, a passagem vai aumentar novamente. A lei é clara e estabelece que toda gratuidade no sistema de transporte coletivo tem que ter um subsidiário e o pagador, nesse caso, não pode ser o poder público estadual, municipal e muito menos a iniciativa privada, por isso sou contra o passe-livre para os estudantes. Acho que todos, indistintamente, devem ser beneficiados pelos 50% de desconto, mas andar de graça não.

Diário – Todas as linhas que exploram o transporte coletivo em Cuiabá e Várzea Grande e entre os dois municípios estão com suas licenças vencidas, necessitando de novas licitações. Essa situação não é cômoda para os empresários e prejudicial para os usuários?

Ricardo Adriane – Sem dúvida nenhuma. Sou a favor de novas licitações no sistema de transporte, acho até que o edital já está pronto. A concorrência é necessária até para melhorar o sistema, os veículos que atendem a população. O grande beneficiário da concorrência é o usuário, além do que, ela disciplina a exploração do setor. Além disso, quem paga a passagem quer segurança e comodidade, coisa que atualmente as empresas que exploram os serviços em Cuiabá não oferecem.

Diário – O senhor tem um projeto de instalar câmeras de vídeo nos ônibus para coibir a ação de assaltantes e vândalos. Como está esse projeto atualmente?

Ricardo Adriane – O projeto está tramitando na Câmara Municipal e acho que após o recesso do mês de julho deverá ir para votação em plenário. Já conversei com companheiros de vários partidos e pude sentir que todos estão a favor, porque é um projeto que não vai onerar na tarifa nem no bolso do usuário. Esse método já está sendo testado por alguns empresários com sucesso, tendo em vista que em alguns assaltos que ocorreram em determinadas linhas, os ladrões puderam ser identificados graças as fitas de vídeo. Além de ajudar na identificação daqueles que cometem crimes, o mecanismo oferece muito mais segurança e tranqüilidade tanto para os usuários quanto para os funcionários da empresa. Acho que esse projeto deveria ser implantado não só em Mato Grosso, mas em todo o Brasil deveria ser aprovada uma lei federal que obrigasse todas as empresas a se utilizarem desse mecanismo.

Diário – Se é verdade que o sistema de transporte coletivo não dá lucros, como alegam os empresários, por que é que ninguém abandona o mercado?

Ricardo Adriane – O transporte coletivo é uma vivência, o empresário ganha hoje mas tem que pagar amanhã. Eu, como ex-diretor de empresa, ex-gerente de transporte, com uma experiência de 17 anos no ramo, conheço bem as dificuldades de se tocar qualquer empreendimento dessa natureza nos dias de hoje. É difícil conviver com a situação de crise econômica que o país atravessa: juros altos, insumos sempre aumentando, peças aumentando, além do que a mão-de-obra tem que ser paga religiosamente em dia, afinal, quem trabalha tem que receber seus salários, é obrigação mínima do empregador. Então, é difícil ter algum retorno. Muita gente pensa que o transporte coletivo é uma máquina de fazer dinheiro mas não computa os gastos que existem. Agora, os empresários não abandonam o mercado porque muitas vezes não sabem fazer outra coisa e investiram todos os seus recursos no sistema, então, não têm como desistir, jogar tudo para o alto.

Diário – Como líder da bancada do PMN na Câmara, como o senhor avalia as denúncias contra o seu colega Sérgio Ricardo na CPI da Compra de Votos?

Ricardo Adriane – Olha, eu me mantenho neutro quanto a esses desentendimentos que estão acontecendo. Eu acho que a Justiça deve buscar a verdade, investigar todas as denúncias, tanto de um lado quanto de outro. Não tomo partido nessa questão, minha linha de trabalho não é de confrontar com este ou aquele político, prefiro trabalhar em parceria para desenvolver um bom trabalho em benefício das camadas mais necessitadas de Cuiabá.

Diário – O senhor concorda com as atitudes do seu colega Sérgio Ricardo, de atacar pessoalmente a presidente da CPI, deputada Serys Slhessarenko?

Ricardo Adriane – A sociedade fica cada vez mais de queixo caído com esse tipo de atitude, mas eu creio que a deputada Serys, pela qual eu tenho uma admiração pessoal e política muito grande, e o vereador Sérgio Ricardo, um homem de mídia que eu também respeito bastante, vão entrar num acordo. Acho que não há necessidade de agressões e denúncias mútuas, tenho certeza que Sérgio Ricardo foi eleito porque a população reconheceu o trabalho que ele sempre realizou em favor dos mais fracos, tanto que ele sempre ponteou as pesquisas de intenção de votos como um dos favoritos. Então, para mim sua eleição não foi surpresa, por isso, não acredito que ele tenha qualquer culpa nesse episódio. Tenho certeza que tudo vai terminar em paz entre os dois, desde que se apure totalmente os fatos e que o culpado pague pelos seus atos.

Diário – Como é que a Silvana Dias de Campos foi trabalhar no seu gabinete, se ela trabalhou na campanha de um candidato a prefeito que era seu adversário, na época, o deputado Emanuel Pinheiro, do PFL?

Ricardo Adriane – Eu não conhecia a Silvana Dias até o dia 10 de janeiro deste ano. Conheci o seu irmão, Sivaldo Dias de Campos, em 1996, quando ele era presidente de bairro e eu era gerente da empresa Arco-Íris e tínhamos parcerias comunitárias. Sempre admirei o seu trabalho, ele saiu candidato a vereador praticamente no peito, torci pela sua eleição, estou torcendo pela sua recuperação. Agora a questão da Silvana foi uma iniciativa que eu tive para ajudar a família, dar uma força para a própria Silvana, que está fazendo um grande trabalho social junto ao meu gabinete, isso é, sabe fazer, é competente.

Diário – O senhor acredita nas denúncias feitas pela sua funcionária contra a deputada Serys Slhessarenko?

Ricardo Adriane – Fui pego de surpresa. Tomei conhecimento das denúncias pelos jornais. Confesso que cheguei a ficar constrangido diante da possibilidade de algumas pessoas começarem a dizer que eu estava por trás disso. Não vou entrar no mérito da questão, não sou juiz para julgar ninguém, a Justiça que apure, e se as denúncias forem infundadas, que a Silvana pague por isso. Ela trabalha no meu gabinete e só, não tenho porque discutir as decisões pessoais que ela toma.

Diário – O senhor teme ser envolvido em algum tipo de denúncia de compra de votos, como aconteceu com vários outros vereadores eleitos?

Ricardo Adriane – Eu não temo, mas a gente tem que estar sempre preparado, porque de repente, um cabo eleitoral, um eleitor qualquer que não foi atendido nisso ou naquilo, pode querer denegrir a imagem da gente. Até uma pessoa que foi candidato e não teve sucesso pode lançar mão de um expediente dessa natureza, inventando coisas que nunca existiram. Mas o que importa é que eu tenho a minha consciência tranqüila, trabalhei durante quatro anos para ser eleito e não cheguei aqui de graça, foi à custa de muito trabalho.

Diário – Esses primeiros meses de mandato estão correspondendo à sua expectativa?

Ricardo Adriane – Eu sou primário na atividade política, ainda estou aprendendo, mas estou bastante satisfeito com o rendimento que venho apresentando e vou continuar trabalhando para melhorar ainda mais.

Diário – O senhor pretende disputar algum cargo nas eleições do ano que vem, como deputado estadual ou federal?

Ricardo Adriane – Olha, é como um jogador de futebol, quando ele é juvenil, quer virar profissional. Eu cheguei a vereador e quero ser governador. É como o jogador que quer chegar na Seleção. Eu quero chegar à Seleção, estou ‘jogando bem’ para isso.



Anterior | Índice | Próxima

Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto




19:31 Mauro "pede a Deus" por empréstimo
19:31 BOA DISSONANTE
19:30 Incentivos fiscais: novos tempos!
19:29 Preservação
19:29 60 anos da Rádio Difusora Bom Jesus


19:28 Lista da privatização
19:28 Desserviço
19:27 Livro dribla melodrama com personagem que usa sono para superar luto
19:27
19:26 Raul Seixas persiste 30 anos após morte
Cuiabá
Min: 18°
Max: 36°

TOPO | PRIMEIRA PÁGINA | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | POLÍTICA | ECONOMIA | CIDADES | POLÍCIA | ESPORTES
BRASIL | MUNDO | DC ILUSTRADO | CUIABÁ URGENTE | EDITORIAIS | ARTIGOS | AZUL | TEVÊ | E-MAIL
Diário de Cuiabá © 2018