Domingo, 23 de fevereiro de 2020 Edição nº 15396 28/01/2020  










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Sérgio Augusto faz um guia nostálgico sobre o cinema

Jornalista reúne em livro textos nos quais revê personagens e histórias que acompanhou de perto nos melhores anos de sua vida

BOLIVAR TORRES
Da Agência Globo - Rio

É difícil ler os textos sobre cinema reunidos em “Vai começar a sessão” (Editora Objetiva) e não enxergar em seu autor, o crítico e jornalista Sérgio Augusto, uma alma nostálgica. Conversar com ele apenas reforça essa impressão. Em atividade desde os anos 1960, com passagens por veículos como “Tribuna da Imprensa”, “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “O Pasquim”, Sérgio Augusto lembra de um mundo que viu há mais de 50 anos como se fosse ontem. Recorda os detalhes do circuito cinematográfico do Rio e do modo de vida dos cinéfilos de sua época com a mesma naturalidade com que assoviava de cor as trilhas sonoras dos filmes em sua juventude.

Assim como o livro, as paredes de seu apartamento na Lagoa registram os seus principais momentos na imprensa e os encontros que fez pelo caminho. Um tête à tête com a atriz Sharon Tate de biquíni nos anos 1960, por exemplo. Ou um desenho de Francis Ford Coppola feito no dia em que o cineasta viu o desfile das escolas de samba em sua casa. Para Sérgio, a vida é um jogo em que o vencedor nasceu no ano certo.

— Você acaba sempre festejando e celebrando outras épocas — diz ele. — Sempre que lembro de algo que testemunhei, penso que, se tivesse nascido um ou dois anos depois, teria perdido.

Os textos de “Vai começar a sessão” foram originalmente publicados na imprensa, entre 2000 e 2018. Relembram trajetórias de grandes nomes da área, entre cineastas, atores e críticos — muitos dos quais Sérgio conheceu pessoalmente, seja no ofício do jornalismo, seja no acaso da vida.

O passado está longe de ser o único assunto da obra e as 440 páginas não chegam a compor um livro de memórias (nem era essa a intenção). Mas é difícil negar que seus melhores momentos são quando o autor volta aos tempos em que bebia chope com a fina flor do Cinema Novo no Bar da Líder e, junto com o amigo David Neves (diretor de filmes como “Lucia McCartney”), ciceroneava um já consagrado François Truffaut pelo Rio dos anos 1960.

Foi nessa época que Sérgio se tornou testemunha privilegiada de uma era de ouro do cinema brasileiro, convivendo com Glauber Rocha, Cacá Diegues e Walter Lima Júnior. Os amigos tinham mais ou menos a mesma idade e viviam caçando raridades para discuti-las nos bares e escrever sobre elas nos jornais. “Aqueles não foram os melhores anos de minha vida, apenas, mas também de todos os citados”, escreve o sempre nostálgico Sérgio, ao lembrar das sessões do Clube de Cinema do MAM, onde a turma se encontrava.

Sem paciência para séries

Só que enquanto Glauber e cia. saíram de lá para seguir a carreira de cineastas, Sérgio optou por viver apenas escrevendo sobre eles. Mais do que um livro sobre cinema, “Vai começar a sessão” é uma homenagem à atividade de crítico — e, em especial, a ídolos de juventude do autor, Antonio Moniz Vianna e Ely Azeredo.

— Antigamente as pessoas se guiavam pela crítica. Hoje, há um desinteresse por ela e os textos estão superficiais, com ideias prontas. Com a internet, todo mundo pode ser crítico — opina.

O audiovisual contemporâneo, em todas as suas formas, também anda desanimando o jornalista. Sérgio não é entusiasta do streaming, não tem paciência para séries e, ao contrário de uma corrente da cinefilia atual, que vê uma estreita sintonia entre a sétima arte e o videogame, não toma conhecimento de jogos.

— Também não tenho mais saco de ir ao cinema. Vejo muito filme na casa do Daniel Filho, que sabe das novidades. Cinema hoje em dia é das minhas... sei lá, “diversões”. Não é mais minha atividade favorita, hoje leio muito mais do que vejo filmes.

O jornalista diz ter dificuldade de entender os cinéfilos de hoje, que, em sua opinião, são compulsivos no consumo de filmes e séries. Seu contato com as novas gerações é circunstancial. Para isso, conta com a ajuda de interlocutores mais jovens, como o crítico Claudio Leal, de 37 anos, “uma criança para mim, mas que sabe tudo, dispensa rodapé”.

— Na nossa época, fazíamos outras coisas além de ver filmes — compara Sérgio. — Eu não entendo esse pessoal de hoje que vê tanto filme, maratona de séries... Esse pessoal não namora?

Horas após a entrevista, Sérgio enviou um e-mail para complementar a explicação sobre o seu “arredio relacionamento” com a produção recente. “Custei a decorar o (nome) do turco Nuri Bilge Ceylan, cujos filmes adoro, mas não me atrevo, nem em conversa com amigos cinéfilos, a mencionar Apichatpong Weerasethakui”, escreveu ele, dando uma leve escorregada no sobrenome do cineasta tailandês, cuja grafia correta é Weerasethakul. “Foi-se o tempo em que o máximo de dificuldade que a gente tinha era pronunciar corretamente os nomes de Joseph Mankiewicz e Budd Boetticher, embora muitos ainda não tenham aprendido que Coppola é proparoxítono”.



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