Segunda feira, 16 de dezembro de 2019 Edição nº 15352 20/11/2019  










SUELME FERNANDESAnterior | Índice | Próxima

A consciência negra e as afrocuiabanidades

Criei esse neologismo afrocuiabanidades que significa características culturais de quem pertence ou é nascido em Cuiabá; herança cultural cuiabana ou identidade de quem nasce em Cuiabá.

Ao contrário da cosmovisão eurocêntrica que afirma a herança europeia portuguesa do cuiabano, buscaremos nesse texto outros cenários possíveis para entender essa complexa formação sociocultural.

O passado da capital sempre foi contado através do mito de origem bandeirantil, da descendência da raça de gigantes - brancos paulistanos, cantada no hino oficial de Mato Grosso e icônicamente representado no monumento dos Bandeirantes de Cuiabá (na av. Cel. Escolástico) onde o negro e o índio é representado num degrau inferior, numa espécie de “podium” da colonização, como personagens secundários.

A presença africana e indígena é um tema nem sempre bem quisto e abordado na construção da identidade da dita “cuiabania”, não era pra ser diferente, pois essa cosmovisão foi construída historicamente e hegemonicamente através de inúmeras instituições de produção de saber e memória. O Dia da consciência negra é um ótimo pretexto para tocarmos em algumas feridas abertas da sociedade escravista brasileira e para tratar da nossa formação enquanto povo e nação – alteridades, contradições e consequências para os dias atuais.

Nos séc. XVIII e XIX em Mato Grosso existiram três eixos de acesso a essa região mineradora e entrada de escravos no mercado local: rota de tropeiro pela ligação Bahia-Cuiabá, chamada estrada de terra da Chapada dos Guimarães que passava por Goiás; outra pela carreira sul, no traçado monçoeiro que partia do Rio de Janeiro-São Paulo através dos rios Tietê -Cuiabá e uma última rota, chamada carreira norte que iniciava no Grão-Pará até Vila Bela da SS. Trindade via rio Madeira/Guaporé.

Nesses caminhos foram introduzidos aproximadamente 30 mil negros africanos escravizados nas vilas e povoados de Mato Grosso nos Sec. XVIII e XIX. Para se fazer um comparativo com base nos mapas populacionais da época, de cada 10 habitantes, aproximadamente 6 eram negros, 2 eram índios e outros dois portugueses, mantendo a média da colônia.

Segundo o arqueólogo Luiz Paulo Symansky da UFGO parte desse contingente 70% era advindo da África central, atuais Angola e Congo e pertencentes ao tronco linguístico Banto e em menor quantidade da África Ocidental e oriental do golfo da Guiné, Mocambique e falavam a língua geral Iorubá. Os negros da Costa da Mina nas regiões mineradora tinham domínio de técnicas de mineração desde o solo africano e os Angolanos mais aptidão para agricultura e pastoreio. Nesta babel de etnias, línguas e culturas era possível encontrar grupos convertidos ao mulçumanismo desde a África, como se constatou com os Haussás em N. Sra. do Livramento.

Como em todos os recantos da colônia houve resistências negras à opressão branca, sabemos da existência de pelo menos 10 quilombos em Mato Grosso segundo o historiador Edvaldo de Assis, os mais conhecidos são do Quariterê de Tereza de Benguela e em Cuiabá os do Manso e da Mãe Bonifácia.

Houve também iniciativas da sociedade civil e organizada de profissionais liberais em defesa da causa abolicionista em Cuiabá, ao todo 4 entidades, a mais atuante, a Sociedade Abolicionista Mato-grossense de 1883. Os movimentos eram tão fortes que conseguiram até a declaração de liberdade um ano antes da própria Lei Áurea, chamada lei “7 de setembro” do juiz cuiabano Antônio Augusto de Moraes que emancipou em 1887, 112 africanos com idade inferior a 56 anos.

Por causa do racismo existente no país a maioria das pessoas não se autoreconheçem como descendentes de africanos ou afrobrasileiros, no máximo se definem como pardos, basta olhar com atenção e com o coração para perceber a nossa volta o resultado estrondoso dessas trocas, legados e circularidades culturais negras em nossas vidas, sinais de pertencimentos que nos coloca como maior população negra do mundo fora da África, resultado de 4.8 milhões de escravos introduzidos no Brasil pelo tráfico atlântico.

Como consequência dessa presença determinante da clivagem africana na formação sociocultural da sociedade cuiabana originaram-se muitos costumes e signos culturais que dialogam com esse passado recente, presentes na nossa mesa e na nossa cosmovisão: a paçoca de pilão, a feijoada cuiabana com osso buco (de corredor), lôro e catuní, ensopadão, furrundú, no matriarcado cuiabano, nos siriris de pés no chão, nas cores estampadas de hibisco das saias rodadas de chita do Siriri, nos nichos e na devoção á São Benedito, nos nomes de batismos, no toque de viola de cocho e também nas rodas de desafios cantados em trovas no Cururú pantaneiro.

Afrocuiabanidades se conjuga no plural, diferente do singular conceito de cuiabania, fixo e monocultural. É uma afirmação etno-semântica, política afirmativa das práticas e crendices de raízes africanas que nos formam nesses múltiplos cuiabases dos quais pertencemos. E quem sabe assim no dia de hoje ninguém reclamará por ser mais um feriado e teremos então de fato uma verdadeira e necessária Consciência Negra.



* SUELME FERNANDES, analista político e Mestre em História

suelmefernandes40@gmail.com



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