Domingo, 08 de dezembro de 2019 Edição nº 15352 20/11/2019  










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Em meio às chamas no Pantanal, a luta de uma família de araras-azuis

Guarinim tem apenas dois meses e observou, do ninho, a morte de muitas espécies pelo fogo; liberação do plantio de cana coloca bioma em perigo

ANA LUCIA AZEVEDO
Especial para o DIÁRIO

Do alto de uma árvore cercada por cinzas no Pantanal do Mato Grosso do Sul, um filhote de arara-azul resiste, uma bolinha de penas da cor do céu, sobrevivente da tragédia das queimadas pantaneiras. Se chama Guarinim (guerreiro, em tupi). Seu ninho foi cercado pelo fogo e salvo pela placa metálica colocada por pesquisadores do Instituto Arara Azul no tronco, que deteve as chamas.

Guarinim acaba de completar dois meses e foi "batizado" na quinta-feira pelo padrinho, o cineasta Carlos Saldanha, criador do longa de animação em 3D "Rio", estrelado pela arara azul Blu. A pequena arara ganhou o nome por simbolizar a resistência do Pantanal. Mas o futuro de sua espécie assim como o de todo o bioma é incerto.

Não só devido às queimadas deste ano. Mas também a mudanças no clima e ao avanço do desmatamento, que teve o fôlego renovado na quarta-feira, com a revogação do decreto que proibia o plantio de cana-de-açúcar no bioma.

O filhote e seu ninho no Refúgio Ecológico Caiman, onde está o maior centro de reprodução da espécie, foram adotados por Saldanha, que há anos apoia o Instituto Arara Azul e agora se preocupa com as consequências das queimadas.

Os extremos no clima podem tornar inviável a manutenção da biodiversidade e do modo de vida do Pantanal, a mais exuberante e rica planície inundável do planeta.

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), um dos símbolos do Pantanal, havia escapado da lista brasileira de animais em extinção em 2014 graças ao esforço do Projeto Arara Azul, da bióloga Neiva Guedes, num sucesso de conservação de repercussão mundial. De cerca de 250 aves em 1989 a população saltou para 6.500, 5.000 das quais no Pantanal. Ainda não é possível medir todo o impacto do fogo sobre as araras. Mas ela agora corre de novo risco de voltar para a lista vermelha das espécies que podem desaparecer: “Muito provavelmente as araras azuis voltarão para lista da extinção. Não somente devido a essas queimadas, mas a outras alterações climáticas, desmatamento e suas consequências, como aumento da predação e falta de comida. As araras não sofrem sós, são a bandeira mais visível do que acontece com as demais espécies do Pantanal”, destaca Neiva Guedes, presidente e fundadora do Instituto Arara Azul e a maior especialista do mundo na espécie.

Este ano o Inpe registrou o maior número de focos de incêndio no Pantanal desde 2005. O fogo começou a se apagar na quarta-feira, graças às chuvas, que chegaram com atraso. Mas nesse mesmo dia a promessa de mais se chamas se renovava em Brasília, com a revogação do decreto 6.961/2009, que proibia a cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal.

O plantio está associado a queimadas e suas consequências para o bioma levaram o ambientalista Francisco Anselmo de Barros a atear fogo no próprio corpo em 12 de novembro de 2005, num protesto em defesa do Pantanal. A data virou Dia do Pantanal, que este ano será lembrado por uma comissão de ambientalistas e cientistas no Congresso Nacional.

“O futuro é agora no Pantanal. As mudanças previstas pelos cientistas acontecem à nossa frente. A capacidade de lidar com a variabilidade climática, com os extremos, precisa melhorar muito. Temos baixa capacidade de resposta. E o sinal verde para a cana é um risco para o Pantanal”, afirma Felipe Dias, diretor executivo do Instituto SOS Pantanal e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

Depois do fogo que se alastrou por 60% dos cerca de 55 mil hectares do Caiman, restou ao bebê arara aguardar os pais trazerem de cada vez mais longe os coquinhos das palmeiras acuri e bocaiúva, os únicos alimentos da espécie no Pantanal. As palmeiras foram calcinadas e levarão anos para frutificar de novo. Numa terra devastada, os pais passam horas na busca por comida. O governo do Mato Grosso do Sul calcula que 1,3 milhão de hectares do Pantanal foram destruídos pelas chamas.

Na paisagem por onde voam as araras, as cores vibrantes pantaneiras típicas deram lugar à monotonia sem vida de tons de cinza e palha do pós-fogo. A falta de comida para araras e outros animais nos próximos anos aumentará a predação de filhotes e restringirá a reprodução.

INFERNO - Neiva aponta na plumagem do bebê de 2 meses uma linha negra nas penas de voo, um sinal de desnutrição, marca dos dias em que o filhote e seus pais sobreviveram sem comida, cercados pelas chamas, sob calor extremo e ar carregado de fuligem.

Em condições descritas pelos brigadistas e voluntários como a materialização do inferno, o casal de araras não abandonou o filhote. Do ninho mergulhado em fumaça, testemunhou a fuga desesperada de outras aves e mamíferos maiores e a morte de incontáveis répteis, anfíbios, moluscos e mamíferos mais lentos, como os tatus.

A metros de onde estavam as aves, uma equipe de voluntários, soldados do Exército e brigadistas foi cercada pelas chamas e obrigada a recuar para salvar a própria vida. Um campo de guerra, numa batalha vencida pelo fogo, nas palavras de Neiva Guedes. Um horror impossível de descrever e que ainda assombra Lucas Rocha, integrante do Instituto Arara Azul que participou do combate às chamas.

As aves adultas poderiam ter voado e fugido, mas as azuis nunca deixam seus ovos e filhotes.

“Elas são exemplo de fidelidade e cuidado com a prole. O casal fica junto por toda a vida e prefere morrer com as crias a relegá-las à própria sorte”, diz Neiva, cujo trabalho é apoiado pela Fundação Toyota e o Caiman.

As araras-azuis, as maiores e mais inteligentes de todas as espécies de araras e papagaios, foram salvas da extinção pela dedicação pelos esforços de Neiva e seus colaboradores. Há 30 anos ela começou a estudar a espécie e descobriu como aumentar sua taxa de reprodução com monitoramento e a instalação de ninhos artificiais. Na natureza, a azul nidifica no manduvi, uma espécie de árvore do Pantanal, cada vez mais escassa e ameaçada e que Neiva e seus colaboradores têm se esforçado para plantar no bioma.

As queimadas deste ano aumentaram um risco que se pensava superado e se somam a uma escalada de problemas, que incluem extremos climáticos, desmatamento e tráfico de animais. No Pantanal, o monitoramento realizado de 2016 a 2017 (dado mais recente disponível) mostra que a cada hora uma área de 100 mil metros quadrados (ou 10 campos de futebol) teve sua vegetação original alterada.

Condições climáticas extremas, com mudanças bruscas de temperatura e chuvas torrenciais fizeram de 2018 o pior ano de reprodução de araras azuis em 30 anos, destaca Neiva.

Dos 108 ovos registrados no Caiman, só 19 filhotes sobreviveram — a média é de 49. O fogo deste ano pegou as araras em plena estação reprodutiva e dos 103 ovos, 30 filhotes sobreviveram.

Neiva explica que as araras são muito sensíveis a variações bruscas de temperatura. O temor está nos extremos climáticos, como os vistos este ano, de calor e seca ferozes, e em 2018, marcado por chuvas intensas e temperaturas excepcionalmente elevadas.

Raoni Rajão, especialista em gestão ambiental e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, observa que o desmatamento está associado à redução de chuvas e a mudanças de clima regionais.

“Temos visto ocorrer o que os modelos climáticos previam. O Pantanal é um sistema muito rico e sensível, extremamente dependente de água, que vem do Cerrado, da umidade da Amazônia. É preciso deter o desmatamento. Não adiantará chorar sobre as florestas derrubadas”, salienta.

Neiva Guedes, que já salvou as araras quando parecia não haver esperança, tem fé na resistência do Pantanal e de suas criaturas: “A natureza é sábia e as araras, bravas guerreiras. O problema é que elas são mais susceptíveis que muitas espécies. Precisam de ajuda”.



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