Sábado, 07 de dezembro de 2019 Edição nº 15350 15/11/2019  










FLÁVIO A. LUCIO ALVESAnterior | Índice | Próxima

A Bolívia e seus dilemas - parte II

Em 09 de junho de 2005 publiquei um artigo aqui nesta mesma sessão, intitulado "A Bolívia e seus dilemas", abordando dois aspectos do clima de tensão política e social que assolava o país vizinho naquele momento, a Lei de Hidrocarbonetos que determinou a sobretaxação de 32% sobre o seu petróleo e gás natural, chegando a uma taxação média de 50% naquele ano (processo iniciado em 2004 com o referendo popular sobre a "nacionalização dos hidrocarbonetos", onde o "sim" venceu, ainda na gestão do presidente interino Carlos Mesa, que renunciou em março de 2005 por não querer ou conseguir implementá-la); e a proximidade da eleição presidencial que elegeria Evo Morales como o primeiro presidente de origem popular na história da Bolívia, o que se confirmou no dia 18 de dezembro de 2005, fato histórico que acompanhei na cidade de Santa Cruz de la Sierra, na condição de enviado do Grupo de Estudos Regionais Sul Americanos, do Departamento de Geografia da UFMT. Como sabemos hoje, o presidente Evo Morales implementou a tal Lei da Nacionalização no ano seguinte, impactando nos lucros da Petrobras, fato muito polêmico àquela época. Não imaginei que, diante dos últimos acontecimentos, escreveria a "Parte II" do artigo.

Em geral, os brasileiros sabem pouco sobre a Bolívia. Sem dúvida, um país com destacada relevância na história do Brasil e, em especial, na história de Mato Grosso. País com muitos tratados comerciais e de fronteira com o Brasil e Mato Grosso, país de onde se originou o estado do Acre, onde a Coluna Prestes exilou-se após lutar em Mato Grosso, país cuja parte de seu território declarou-se mato-grossense durante a Guerra de Independência, embora a monarquia do Rio de Janeiro tenha recusado o "presente" para evitar maiores problemas com o Sr. Simón Bolívar e o Sr. Sucre, principais líderes da independência boliviana. É o país que divide com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul o grande Pantanal. Atualmente, alimenta parte significativa da matriz energética do estado de Mato Grosso através de um ramal exclusivo derivado do gasoduto que segue por parte do Sudeste e Sul do Brasil. A usina termelétrica Mário Covas (8ª maior geração no Brasil, segundo dados do governo de MT), instalada no distrito industrial de Cuiabá, movida em grande parte a gás natural boliviano, pode gerar até 480 MW de potência, o que na prática excede em até 380 MW a energia gerada pela Usina Hidrelétrica de Manso no período de estiagem, só para se ter uma ideia da sua representatividade.

Mais uma vez, repetindo a afirmação feita aqui há mais de 14 anos, a "Bolívia está em crise". Evo Morales caiu. Várias teses se colocam. Foi golpe da oposição de origem "não indígena"? Ou foi uma revolta com embasamento popular legítimo após a tentativa "forçada" de vencer a 4ª eleição consecutiva?

Evo Morales venceu indiscutivelmente lá em 2005. Foi agraciado com a mudança constitucional de 2009 que o permitiu disputar mais duas reeleições, em 2010 e 2014, o que já o tornou o presidente mais longevo da história da Bolívia, apoiado sobretudo no grande sucesso econômico de sua gestão, muito boa inclusive para as empresas multinacionais dos hidrocarbonetos (petróleo e gás) supostamente prejudicadas lá em 2006, ou seja, o partido Movimento Al Socialismo – MAS - de Evo Morales praticou uma "economia de mercado", concatenada com a dinâmica do mercado internacional, muito mais ao estilo dos países "socialistas de mercado" como Vietnã e China, do que de Cuba ou Venezuela, garantindo índices anuais do PIB sempre acima dos 4% durante todo o seu mandato, inclusive após a chegada da grande crise internacional de 2008 que "engoliu" o governo brasileiro em 2014. Guardadas as devidas proporções, são "índices de China" para o país mais pobre da América do Sul, mas que também soube combater a pobreza obtendo ótimos índices na sua redução através de investimentos sociais e geração de empregos. E essas informações podem ser encontradas em fontes que não são de esquerda, como o Banco Mundial (capitalista, que lá em 2006 se colocou contra a Lei da Nacionalização) e revistas especializadas em economia (capitalistas). Percorri a Bolívia em julho de 2018, de San Mathías a La Paz, e pude observar um grande canteiro de obras no país, resumindo-o aqui nas obras de duplicação da principal estrada que liga Santa Cruz de la Sierra a La Paz via Cochabamba, e nas obras de implantação e expansão das linhas de teleféricos urbanos que revolucionam a eficiência do transporte urbano da grande La Paz, solucionando problemas seculares de interligação de La Paz com a zona popular e aeroportuária de El Alto, e a preço popular, B$ 2,00 (R$ 1,22) com várias conexões possíveis, o que me permitiu "sobrevoar" a grande La Paz em todas as suas direções, mas sempre sendo "observado" por um rosto "onipresente e onipotente" do presidente Evo adesivado em todas as portas móveis e estações de baldeação dos teleféricos...

Diante do sucesso econômico, Evo caiu na tentação de se achar o "melhor e único homem capaz de prosseguir na presidência do país", tentando a 4ª reeleição, tentação essa que representa uma espécie de maldição que paira sobre a classe política latino-americana, que achando-se invencíveis e até um tanto imortais, enfraquecem a capacidade política de seus povos aos sufocarem a renovação espontânea de suas lideranças políticas legítimas e mais jovens, as quais se constituem em "artigo raro" nas instáveis democracias latino-americanas.

Evo Morales chegou a uma encruzilhada, onde deveria escolher entre seguir, por exemplo, os passos de Nelson Mandela, que cumpriu seu único mandato (1994 a 1999 na África do Sul) com grande brilho e deixou o poder, elegendo com tranquilidade seu sucessor político, ou Nicolas Maduro e tantos outros "comandantes" latino-americanos que fizeram a escolha errada. Para seguir no poder, lançou em 2016 um plebiscito para que o povo decidisse sobre a sua reeleição em 2019, até então inconstitucional, e recebeu das urnas um NÃO, o qual deveria ter acatado prontamente, valorizando o significado democrático dos referendos/plebiscitos populares que ele mesmo acatou quando se tratou de aplicar a Lei de Nacionalização de Hidrocarbonetos, quando foi de seu interesse 10 anos antes.

Daí em diante sabemos o que aconteceu, insistiu no caminho nefasto das escolhas erradas, obtendo de forma obscura uma autorização do Tribunal Constitucional da Bolívia para concorrer à presidência indefinidamente, subestimando o desejo e a inteligência inclusive de parte do seu próprio eleitorado, que passou a pedir por sua saída. Em julho de 2018 tive a oportunidade de conversar com eleitores residentes em Cochabamba e La Paz, seus redutos tradicionais, mas que passariam a votar contra o presidente Evo por sua "fome" excessiva de poder e desrespeito ao referendo popular de 2016. E assim foi, de modo que os últimos episódios, como a contagem dos votos sem a devida transparência, a pequena margem na suposta vitória e o levante popular (inclusive em seus redutos tradicionais), serviram apenas como as últimas "gotas dágua" para deflagrar o exílio anunciado.



* FLÁVIO ANTONIO LUCIO ALVES foi membro do GERSA – Grupo de Estudos Regionais Sul-Americanos do Dept. de Geografia da UFMT (2003 a 2006, durante pós-graduação), atualmente docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso - IFMT

flavio.alves@alf.ifmt.edu.br



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