Domingo, 08 de dezembro de 2019 Edição nº 15348 13/11/2019  










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Gilead, da distopia à esperança

"Os Testamentos", de Margaret Atwood, aguardada sequência de "O Conto da Aia", ganha lançamento no Brasil

Da Redação

Há 30 anos, o mundo assistia à queda do Muro de Berlim. Parece apropriado que na mesma data, em 9 de novembro, tenha chegado às livrarias brasileiras Os Testamentos (Rocco, 448 páginas), continuação de O Conto da Aia, obra mais conhecida da escritora canadense Margaret Atwood. Se na primeira parte da história o regime totalitário de Gilead parecia tão forte quanto a União Soviética em seus anos de glória, aqui há um relato da corrosão interna da nação, que pode resultar em uma implosão tão simbólica quanto os acontecimentos na Alemanha em 1989.

Ao menos é a esperança das personagens que narram Os Testamentos. Como o título sugere, a obra combina os relatos de testemunhas para compreender o futuro descrito por Margaret Atwood em 1985, quando a escritora apresentou pela primeira vez a história da aia Offred no país fictício de Gilead, que teria emergido em parte dos Estados Unidos após uma seita de religiosos chegar ao poder. Inspirados em passagens bíblicas, eles reestruturam a sociedade de forma que as mulheres passam a ser tratadas como patrimônio do Estado teocrático, principalmente aquelas que podem ter filhos - escolhidas como aias, para perpetuar as famílias dos Comandantes.

Uma das obras premiadas em outubro com o Man Booker Prize 2019, no Reino Unido, Os Testamentos é construído a partir de três pontos de vista: de uma menina criada no Canadá, que olha para o país vizinho com assombro; de outra garota que cresceu em Gilead e é capaz de ver beleza no regime; e a temida Tia Lydia - vista até aqui como uma das grandes vilãs da autora por ser uma mulher que ajuda a subjugar outras mulheres. Segundo a escritora, a história surgiu para responder a questão deixada por O Conto da Aia: como um regime totalitário chega ao fim?

"Trinta e cinco anos é um longo tempo para pensar em respostas possíveis, e elas têm mudado à medida que a própria sociedade mudou, e possibilidades se tornaram realidade", escreve Margaret Atwood. "Totalitarismo pode ruir de dentro para fora, ao passo que o regime não consegue manter as promessas que o levaram ao poder; ou pode ser atacado de fora para dentro; ou os dois. Não existem fórmulas seguras, pois muito pouco na história é inevitável".

BEST-SELLER - Às vésperas de seu aniversário de 80 anos, a escritora se mantém há 95 semanas na lista dos 10 livros mais vendidos do Brasil com O Conto da Aia, de acordo com a revista Veja. São quase dois anos, data que corresponde ao relançamento da obra pela Rocco, em junho de 2017. Se parte do sucesso pode estar relacionado à popularidade da adaptação televisiva The Handmaid’s Tale (considerada canônica por Atwood), existem outros fatores capazes de explicar o súbito interesse no romance. Para o editor da Rocco Tiago Lira, o contexto político tem sua parcela de responsabilidade: “Essa redescoberta tem tudo a ver com a onda conservadora e autoritária que cresce no mundo todo. Quando uma distopia escrita há quase 35 anos parece se aproximar cada vez mais da realidade, maior o interesse pela obra”.

O ressurgimento de O Conto da Aia, no entanto, não é uma exceção, mas parte de um cenário maior. O segundo livro recorrente na lista de mais vendidos em ficção, há 71 semanas, é A Revolução dos Bichos, uma crítica ao stalinismo soviético publicada por George Orwell em 1945. Outros sucessos de épocas passadas incluem ainda 1984, também de Orwell, de 1949, entre os 10 mais vendidos; além de Fahrenheit 451, lançado por Ray Bradbury em 1953, e Admirável Mundo Novo, publicado em 1932 por Aldous Huxley, ambos entre os 20 primeiros.

Em comum nestas histórias, visões pessimistas sobre o futuro, em que as liberdades são cerceadas, governos autoritários ascendem ao poder e a tecnologia é apenas uma ferramenta para sufocar ou manipular a população. São as distopias, nomeadas em oposição à perfeita Utopia, descrita por Thomas More, em 1516.

Doutora em teoria da literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pesquisadora na área de distopias, Caroline Becker vê o movimento como natural: “Não à toa 1984 passou a ser um dos livros mais vendidos após a eleição de Trump. E não à toa a descrição das roupas das aias se tornou um ícone em protestos relacionados a discussões sobre o cerceamento da liberdade feminina. É a arte ultrapassando seu espaço "livro", aquele mundo ficcional, e invadindo a realidade. O que eu acredito seja um dos sentidos, um dos objetivos, da construção ficcional distópica”.

Ela complementa, contudo, em sintonia com as palavras de Atwood, que, apesar da trama pessimista, tais narrativas sempre apresentam movimentos de resistência aos regimes, sendo a esperança um dos principais ingredientes: “A gente lê distopias e assiste a distopias muitas vezes porque existe um signo utópico nessas narrativas e existe a possibilidade de subversão”.



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