Domingo, 08 de dezembro de 2019 Edição nº 15347 12/11/2019  










LIVROAnterior | Índice | Próxima

Em dois livros, os caminhos tortos do Secos & Molhados

Biografias do grupo e do seu empresário contam a inusitada trajetória dos pioneiros do pop nacional

Da Reportagem

Em agosto de 1973, em plena ditadura militar, chegava às lojas “Secos & Molhados”, álbum de estreia do grupo de mesmo nome. Na capa, as quatro cabeças dos músicos, com pesadas maquiagens, apareciam servidas em bandejas, em cima de uma mesa. No vinil, vinham músicas como “Sangue latino”, “O vira”, “O patrão nosso de cada dia” e “Rosa de Hiroshima”, esta feita em cima de um poema de Vinicius de Moraes sobre os bombardeios nucleares ao Japão na Segunda Guerra. Menos de um ano depois, o disco venderia um milhão de cópias, e os Secos & Molhados lotariam estádios e ginásios pelo Brasil.

Dois livros recém-lançados ajudam a ampliar a pouco conhecida —embora fantástica — história desse grupo que saiu dos porões teatrais, bateu Roberto Carlos (então o grande vendedor de discos do Brasil) e, de quebra, inaugurou no showbiz brasileiro a figura do popstar on the road. São eles “Primavera nos dentes: a história do Secos & Molhados” (Três Estrelas), do jornalista Miguel de Almeida; e “Moracy do Val Show!” (WMF Martins Fontes), biografia em forma de almanaque do empresário e descobridor do grupo, dos também jornalistas Celso Sabadin e Francisco Ucha.

Com a perspectiva de “uma história cultural, não somente de um grupo”, Miguel pinta em “Primavera nos dentes” o retrato de três artistas —Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad (o quarto músico na capa do LP era o baterista Marcelo Frias, efêmero integrante).

Depois da Tropicália, o trio descobriu a receita de um pop antropofágico nacional, conjugando o rock inglês, o fado português e a canção brasileira. Tudo isso, com a ambiguidade sexual à flor da pele de Ney e toda a sedução e mistério das pinturas faciais.

“Havia um silêncio proposital sobre o sucesso e o alcance cultural do Secos & Molhados, e essa foi uma das razões de eu escrever o livro”, diz Miguel de Almeida, o autor de “Primavera”. “Ninguém tinha abordado a questão de gênero com aquela voltagem. O Ney vinha do teatro, com a ideia de espetáculo, e eles criaram personagens que pegaram um público de crianças e mulheres”, acrescenta.

VINIL DERRETIDO

Moracy conta que resolveu empresariar o grupo logo na primeira vez que o viu, em São Paulo. O entusiasmo, no entanto, não foi partilhado pelo mercado: o grupo foi rejeitado por várias gravadoras até fechar contrato na Continental. E, na falta de uma campanha de lançamento, o boca a boca se encarregou da divulgação.

“Não deu nem tempo de a ditadura perceber o que estava acontecendo Quando o disco já estava estourado, um juiz de uma cidade no ABC quis proibir o show, mas o neto fez ele liberar”, diz Moracy.

Após um vídeo musical no “Fantástico”, o sucesso foi amplificado, o que levou a gravadora a derreter discos de outros artistas a fim de ter matéria-prima para prensar mais discos dos Secos & Molhados.

Mesmo assim, em fevereiro de 1974, Moracy ainda teve que investir num avião com faixa, sobrevoando as praias cariocas, para promover um show no Maracanãzinho. Com mais de 30 mil pessoas na plateia (em dia de Palmeiras e Vasco no Maracanã), o espetáculo ainda foi ameaçado pela proibição de um coronel do Exército.

“Mas o Ney disse ninguém vai sair daqui, e o show aconteceu”, recorda se o empresário.

Em 1974, pouco mais de um ano depois do lançamento do segundo LP e de uma viagem ao México, o grupo se desfez. A saída de Moracy e Ney em meio às interferências do pai de João Ricardo na condução dos negócios puseram fim à primeira e mais gloriosa fase dos Secos & Molhados.

“O grupo deu o recado e deixou sua marca”, acredita Miguel de Almeida. “Eles tiveram uma obra espontânea, não estavam atrás de fazer sucesso ou política. Era o trabalho da juventude deles, sem medo de contestar modelos pré-estabelecidos”, completa.



Anterior | Índice | Próxima

Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto




17:09 Macondo, infelizmente...
17:09 07 – sábado Implantação de Jardim Botânico deve começar
17:08 A maconha foi liberada no Brasil?
17:08 Os pets e o estilingue
17:07 Combate ao custo Brasil


17:05
17:04 Temporada 2019 atrai 6 mil visitantes em exposições marcadas pela diversidade
17:04 Arena Encantada traz fé, magia e diversão para as famílias mato-grossenses
17:03 Em Ela disse, jornalistas contam os bastidores da investigação que derrubou Harvey Weinstein
17:02 Carol Castro: Se deixar, te colocam na prateleira do papel sensual
Cuiabá
Min: 18°
Max: 36°

TOPO | PRIMEIRA PÁGINA | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | POLÍTICA | ECONOMIA | CIDADES | POLÍCIA | ESPORTES
BRASIL | MUNDO | DC ILUSTRADO | CUIABÁ URGENTE | EDITORIAIS | ARTIGOS | AZUL | TEVÊ | E-MAIL
Diário de Cuiabá © 2018