Segunda feira, 18 de novembro de 2019 Edição nº 15333 23/10/2019  










RENATO DE PAIVA PEREIRAAnterior | Índice | Próxima

Filhos e pais

Houve um tempo que ter filhos e criá-los era um processo normal, uma rotina custosa mas agradável, aceita de bom grado sem lamentações, dramas ou culpas. Pais antigos normalmente eram austeros, às vezes meio abrutalhados; mas como já se esperava esse comportamento deles não gerava traumas; principalmente porque ninguém sabia o que era trauma no sentido psicológico – uso que veio a incorporar-se ao linguajar diário há mais ou menos 50 anos.

Conta-se que até os anos 1960 não existia essa frescura de filhos e filhas ficarem culpando pais e mães pelos fracassos, inseguranças, medos e traumas. Cada um assumia sua sina e pondo-se no controle da própria vida não precisava buscar desculpas para os insucessos. Também nesse tempo cada criança estava acostumada com seu lugar na hierarquia doméstica e lhe bastavam os poucos privilégios que tinha.

Afirmam os que têm mais de 60 anos – não posso confirmar porque não sou desse tempo – que as crianças buscavam brincadeiras longe da vista dos mais velhos e não precisavam ser encorajadas, paramentadas e estimuladas por estes para as travessuras próprias da idade.

Dizem ainda os mesmos velhos, que os pirralhos tinham boa autoestima e por isso não demandavam a toda hora declarações formais do amor da mãe ou do pai. Aliás, eles (os filhos) ficavam envergonhados quando uma ou outra mãe mais melosa falava na presença dos companheiros: “Mamãe te ama, chuchu!”.

Mas aí os entendidos criaram umas doutrinas mirabolantes atribuindo aos pais a culpa por todos os males psicológicos que os filhos viessem a desenvolver. Depois disso todo mundo passou a debitar na conta dos velhos os fracassos e as amarguras da vida, porque é muito confortável acreditar que não se tornou um escritor famoso, um artista conhecido ou centroavante da seleção porque não recebeu o necessário estímulo dos pais.

Mas esses que internalizaram a teoria e aliviaram suas dores, passando a responsabilidade dos próprios fracassos para os genitores, agora que têm filhos vivem angustiados com um medo absurdo de causar-lhes qualquer trauma.

A sequência normal da vida de uma criança no passado – crendo no testemunho dos velhos - era de um gradualismo positivo, ou seja, ela ia adquirindo espaço e voz no meio social à medida que desenvolvia. Na juventude ampliava sua importância e chegando maturidade alcançava a plenitude. Quando envelhecia mantinha o respeito conquistado pela experiência.

A dinâmica hoje parece pender para o gradualismo regressivo: a criança é um reizinho paparicado, o jovem começa a ter o reinado contestado no meio social e chegando à maturidade passa a sofrer o medo de contrariar os filhos que gerou.

Os jovens pais, vítimas das teorias que ganharam força na segunda metade do século XX, estão endeusando as crias e, involuntariamente, fragilizando-as. Como não temos controle sobre as etapas futuras da vida dos filhos o melhor seria endurecer-lhes o couro para melhor se defenderem dos espinhos que enfrentarão. Não convém - metaforicamente – lambuzar seus corpos com creme hidratante e filtro solar.



* RENATO DE PAIVA PEREIRA - 72 anos – empresário e escritor

renato@hotelgranodara.com.br



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