Quinta feira, 21 de novembro de 2019 Edição nº 15326 12/10/2019  










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Terror nacional, Morto não fala mostra Daniel de Oliveira ouvindo lamento de cadáveres

Para viver assistente de necrotério, ator fez laboratório no IML de Porto Alegre

Da Folhapress – São Paulo

Quando tinha 6 anos, Daniel de Oliveira tomou um susto daqueles que se levam pra vida: o ator ficou preso na grande geladeira em que seu avô largava os peixes quando voltava das viagens de pescaria. Foi salvo pela mesma moça que fechou a porta do frigorífico sem saber que havia um garoto lá.

— Acendi um fósforo lá dentro, mas logo apagou. Comecei a dar uns berros e bater na porta. Deve ter durado uns poucos segundos até vir alguém em meu socorro. Para mim, foi uma eternidade. Virei o Stênio lá, naquele momento — conta o ator.

Oliveira refere-se ao seu personagem em "Morto não fala" , que chegou esta semana aos cinemas em mais de 70 salas no país, com uma mistura bem elaborada de fantasmas, casa assombrada e muito sangue . No elenco, ele é acompanhado por Fabíula Nascimento, Bianca Comparato, Marco Ricca e as crianças Cauã Martins e Annalara Prates.

Protagonista do filme, Stênio trabalha como plantonista noturno no necrotério de uma grande cidade. Ele tem o dom de falar com os mortos, que na sua região são vítimas da violência urbana. O limite dessa capacidade são os segredos que escuta e que não podem ser compartilhados no mundo dos vivos, sob pena de ficar amaldiçoado pelo resto da vida.

Era ao traumático episódio de infância que muitas vezes Oliveira recorria para encontrar o tom correto de Stênio. Certamente foi a lembrança que o preencheu quando fez uma cena na qual o personagem acorda sobressaltado dentro de uma geladeira de cadáveres, já resultado da tal maldição que o persegue.

Recorrer a emoções passadas para chegar a uma interpretação melhor não foi o único recurso empregado por Oliveira. Entusiasta dos "laboratórios", o ator foi ao Instituto Médico Legal de Porto Alegre, onde teve a oportunidade de acompanhar o trabalho dos técnicos e até de assistir a uma autópsia.

— Fui com a Bianca Comparato, que faz o papel da minha vizinha Lara. Quando chegamos, os caras estavam fechando um corpo. Mas pedimos para reabrir, para ver o que haviam feito. Só o som do zíper fez a Bianca sair em disparada — brinca ele.





Para Oliveira, a profissão de Stênio é quase invisível, porque não se reconhece quem cuida dos corpos que chegam ao IML. Além disso, a morte está sempre rondando a vida dessas pessoas:

— Pega facada, assassinato, tudo. Por isso, tem que vir com outro dispositivo de valorizar a vida. O caso do Stênio é isso, mas ele acaba enlouquecendo — diz o ator.

Primeiro filme que o cineasta gaúcho Dennison Ramalho dirige sozinho, "Morto não fala" tem origem em um conto homônimo do jornalista paulista Marco de Castro, repórter policial que transformava seus plantões na madrugada em crônicas e contos de terror. Na concepção original, Stênio era um homem castigado pela vivência, muito sofrido, pobre e explorado pelo sistema.

— Era mais velho e mais gasto. Quando sugeriram o Daniel, eu sabia que era um grande ator. Mas, pensei, será que ele se desconstrói? Sugeriram que eu assistisse "A festa da menina morta", do Matheus Nachtergaele, em que ele faz o papel de um milagreiro. Ali, vi que ele poderia ser colocado naquele lugar (do Stênio) — revela Ramalho.

Corroteirista e diretor-assistente de José Mojica Marins em “Encarnação do demônio” (2008), último longa de Zé do Caixão, Ramalho tem uma longa experiência com terror, tendo dirigido três curtas que somam mais de 30 prêmios nacionais e internacionais juntos: “Nocturnu” (1999), “Amor só de Mãe” (2002) e “Ninjas” (2010). Para o cineasta, “Morto não fala” até tem pitadas do terror social que marcou o gênero no país em filmes como “As boas maneiras” (2018) e “O animal cordial” (2018), mas sua intenção era mesmo fazer o autêntico “cinema de horror brasileiro”:

— Meu ponto de partida é esse. Quero fazer um filme de horror escroto, gráfico. Para não ter que escutar aquela máxima: “Não sabia que tinha filme de terror no Brasil”. Os meus filmes não são filmes brasileiros de terror, são filmes de terror brasileiros.

Concebido como uma série para a Globo, “Morto não fala” acabou considerado muito sombrio para a TV aberta. Virou então uma espécie de balão de ensaio para o cinema. Segundo Ramalho, a ideia era primeiro ver a performance do longa em festivais e sessões de pré-estreia e depois seguir adiante com o projeto original.





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