Quarta feira, 19 de fevereiro de 2020 Edição nº 15304 12/09/2019  










RENATO DE PAIVA PEREIRAAnterior | Índice | Próxima

Ressuscitando cadáveres

As recorrentemente belicosas declarações do presidente Bolsonaro não trazem surpresas. Aliás, foram essas características – destempero, voluntarismo, agressividade – que o fizeram conhecido no país inteiro e o puseram no pedestal dos heróis.

É bom reconhecer que o Presidente nunca enganou o eleitorado. Os que o endeusam, e os que ajudaram a elegê-lo, por ser um mal menor, sabiam muito bem de suas ideias políticas e de seus desatinos verbais, como no caso dos quilombolas, dos homossexuais e da preservação ambiental. Tal qual o Trump, presidente americano, ele mostrou-se sempre como realmente é. Essa semelhança entre eles de alguma forma tem aproximado os dois países para desespero dos militantes do PT que tem horror ao Tio Sam.

Só que essa postura de “sincerão” que fala o que lhe dá na telha, pode ser inofensiva nos Estados Unidos onde a economia funciona a despeito do presidente, ou em campanha eleitoral aqui no Brasil, mas é um desastre na hora de governar, principalmente em um presidencialismo de coalizão com mais de trinta partidos políticos, como é o nosso caso.

Não acho que este governo vai fracassar por conta da falta de jeito do Presidente porque, a despeito dele, alguns ministérios, talvez os que mais importam, funcionam bem como o da economia com Paulo Guedes, e o da agricultura, cuja ministra não entra em bola dividida. Também o mercado pouco a pouco vai desinteressando-se da verborragia presidencial e seguindo seu caminho. Se tivermos sorte em pouco tempo o Presidente vai dedicar-se cada vez mais às perfumarias que adora e às brigas com jornalistas deixando a nação seguir seu rumo.

Noto que o apoio da mídia ao governo que nunca foi bom está caindo: dos quatro jornais e sites mais importantes do país, no começo do governo, um se mostrava mais a esquerda, outro razoavelmente moderado e dois com claras manifestações direitistas. Entretanto agora mesmo os mais à direita não conseguem deixar de noticiar as declarações tresloucadas do Presidente, como no caso do episódio recente com o presidente da OAB. Este último entrevero estourou por conta da obsessão do Capitão Bolsonaro em ligar o atentado que sofreu a algum partido de esquerda, mesmo depois da conclusão da Polícia Federal e da Justiça de que foi uma ação solitária de um débil mental. Mas ele encasquetou, como dizia minha mãe, aí não tem mais jeito. (encasquetar é botar na cabeça como se faz com um casquete ou boné)

Não há nenhuma estratégia política em suas declarações, como ele mesmo diz. É o voluntarismo que dita seus atos. Se ele pensasse um segundo antes de falar não teria ressuscitado os cadáveres da ditadura que voltaram a povoar a mídia e animar a esquerda, doidos para reabrir feridas antigas.

É melhor nos acostumarmos com ele, pois controlar sua verborragia é impossível. Mas podemos deixá-lo brigando com a imprensa e tentando suplantar o PT em vulgaridade e grosseria enquanto a turma sensata que compõe o núcleo econômico do governo toca o país. Aliás, o mercado cada dia, felizmente, dá menos atenção aos destemperos do Presidente.



* RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor

renato@hotelgranodara.com.br



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