Domingo, 15 de setembro de 2019 Edição nº 15291 24/08/2019  










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Presidente da Ancine diz que suspensão de edital foi convite ao diálogo

PAULA SPERB
Da Folhapress - São Paulo

Criado durante a ditadura militar, em 1973, o Festival de Cinema de Gramado, na serra gaúcha, já exibiu filmes que foram censurados pelo governo, como "Toda Nudez Será Castigada", de Arnaldo Jabor, escolhido como melhor longa na primeira edição.

Durante a sua 47ª edição, porém, a portaria do governo, que determinou o cancelamento do edital para projetos sobe diversidade sexual criticado por Jair Bolsonaro (PSL), foi chamada de "convite ao diálogo" durante o tradicional evento do calendário cinematográfico.

A declaração foi feita pelo presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Christian de Castro, na manhã da última quarta-feira (21), em encontro do Gramado Film Market, parte da programação do festival, e indignou a plateia formada por profissionais da indústria audiovisual.

Após o cancelamento, o secretário especial da Cultura, Henrique Pires, deixou o cargo dizendo não admitir que o governo imponha "filtros" na cultura. Segundo ele, a suspensão do edital foi apenas a "gota dágua" de uma série de tentativas do governo de impor censura em atividades culturais.

O presidente da Ancine disse que o fim do edital se tratava de um "convite ao diálogo" após ser questionado pelo diretor de cinema Henrique de Freitas Lima. "Fiz uma intervenção e chamei atenção sobre a portaria. A resposta foi que ela deveria ser encarada como um convite ao diálogo", disse Lima à reportagem. O diretor já apresentou quinze filmes no festival e dirigiu títulos como "Concerto Campestre" (2005) e "Lua de Outubro" (2001).

O cineasta ainda questionou o que poderia ser feito, então, pelos profissionais. A resposta do presidente foi um pedido por menos "enfrentamento". As afirmações de Castro indignaram o público.

"Me senti em um filme distópico. Diálogo pressupõe interação, que não existe, e respeito, que também anda escasso. É no mínimo perturbador ou, melhor, surpreendentemente inovador classificar essa portaria como uma proposta ao diálogo", disse à reportagem Mariza Leão, que produziu as comédias "Meu Passado me Condena" (2013) e a sequência "De Pernas pro Ar" (2010, 2012), e estava no encontro.

A produtora se manifestou em público dizendo que o presidente da Ancine, ao contrário do diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que saiu em defesa da ciência quando o governo disse que os dados não eram corretos, não defendeu o audiovisual brasileiro diante do cancelamento do edital.

Em nota, a Ancine afirmou que "uma produtora presente no local, de forma desrespeitosa, interrompeu uma resposta do diretor-presidente com críticas e ofensas. Imediatamente após se pronunciar, a ela se retirou do recinto de forma abrupta, impossibilitando que Christian [Castro] respondesse as alegações". A nota ainda diz que "o diretor-presidente da Ancine se mostrou aberto ao diálogo durante toda a sua participação no festival".

Lima também questionou sobre a as nomeações para o Conselho Superior de Cinema, do qual depende o Comitê Gestor do Fundo Setorial. Sem eles, a Ancine fica parada, prejudicando todo o setor. A cota de tela, que define um percentual mínimo de filmes nacionais em cartaz, também está emperrada.

Outros tópicos da apresentação de Castro causaram preocupação nos profissionais do setor. Um deles é a indicação de substituir o investimento (que faz da Ancine um tipo de "sócia" do projeto, participando dos resultados) por financiamento, ou seja, empréstimos.

"Isso seria inviável. É quase como um banco. O dinheiro do Fundo Setorial não é para isso. Não existe mercado para recuperar e devolve rum empréstimo", disse Lima.

O cineasta Rogério Rodrigues, que preside o Siav (Sindicato da Indústria Audiovisual do RS), concorda que se o investimento passar a funcionar como crédito, a indústria será prejudicada e discorda da ideia de que os filmes "não dão retorno".

"O setor representou 0,46% do PIB. O audiovisual devolve muito mais do que o governo investe", argumenta Rodrigues.

Castro também apresentou o plano de investir mais nas empresas e menos nos projetos audiovisuais específicos. A ideia também causou estranheza entre os profissionais.

"Isso incomodou muito. O objetivo de qualquer proponente para realizar projeto não é investir na própria empresa, é investir no filme. Se o orçamento é de R$ 3 milhões, não queremos R$ 500.000 para empresa.

Tudo é para o filme, para pagar profissionais, câmeras, equipamentos. Por isso as empresas não são milionárias. O objetivo não é enriquecimento", disse Daniela Strack, assistente de direção e presidente da APTC/RS (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS".

O diretor-presidente da Ancine, Christian de Castro, esteve no Festival de Cinema de Gramado apresentando a palestra intitulada "Ancine e FSA". Após a palestra, foi aberto espaço para perguntas e respostas, e Christian respondeu a todos os questionamentos propostos.



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