Sábado, 18 de janeiro de 2020 Edição nº 15283 14/08/2019  










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Bela Adormecida drogada decide hibernar durante um ano em romance

CLARA BALBI
Da Folhapress – São Paulo

A solução que a jovem protagonista de "Meu Ano de Descanso e Relaxamento" encontra para superar as mazelas existenciais é, a princípio, simples. Dormir. Durante um ano inteiro.

O plano é seguido à risca no desenrolar do livro da americana Ottessa Moshfegh, recém-lançado pela Todavia no país. Longe de uma tentativa de suicídio, argumenta a personagem, sua estratégia é uma "medida de autopreservação".

Órfã de pais ricos, loira e atraente –a atriz Margot Robbie é cotada para dar vida a ela no cinema–, a patricinha depressiva em fuga da rotina da galeria de arte onde trabalha organiza o período de hibernação com diligência.

O último passo é encontrar uma psiquiatra irresponsável o suficiente para lhe receitar um estoque de remédios tarja-preta, o que ela consegue ao descobrir a paranoica doutora Turtle nas páginas amarelas.

É, assim, fazendo complicadas equações com nomes como como Stilnox, Neuroproxin, Gardenal e Zyprexa –alguns reais, outros inventados– que a protagonista navega por dias, semanas, meses.

Nas poucas horas em que está acordada, ela se arrasta até a esquina para comprar café, ver filmes em VHS estrelados por sua heroína, Whoopi Goldberg, e recebe visitas indesejadas da melhor amiga, a bulímica Reva.

Reva, aliás, simboliza tudo aquilo que a protagonista mais abomina na Nova York pré-11 de Setembro em que vive. "Era uma escrava da vaidade e do status, o que não era nada incomum num lugar como Manhattan, mas eu achava seu desespero especialmente irritante. Isso não me ajudava a respeitar sua inteligência."

As descrições de Reva são só algumas das amostras de honestidade mordaz da primeira pessoa construída por Moshfegh. A personagem não poupa ninguém, do pai distante ao namorado babaca.

A escritora de 38 anos, filha de mãe croata e pai iraniano, tem experiência na coisa. Seu primeiro romance, "Eileen", indicado ao Man Booker Prize há três anos e sem edição no Brasil, trazia as ruminações perversas e por vezes escatológicas de uma secretária obrigada a cuidar do pai alcoólatra.

"Me interesso pelo que as pessoas têm a dizer quando não estão fingindo", diz Moshfegh, sobre a predileção pela primeira pessoa. "Ocasiões em que conseguimos nos comunicar sem fingir são raras. E a literatura permite isso."

A língua ferina da personagem-título só se compara à sua capacidade autodestrutiva. Nesse sentido, remete a uma outra millennial da ficção contemporânea, a Fleabag da série homônima da Amazon.

Moshfegh se diz lisonjeada com a comparação. "São jovens atraentes e urbanas, lidando com questões invisíveis na superfície", descreve.

Mas, ressalta, não acredita que as semelhanças sejam de todo incomuns. "Acho que a humanidade inteira está enfrentando esse tipo de coisa."

A trajetória de sua protagonista começa a mudar com outro remédio, Infermiterol. Este faz com que ela tenha ataques de sonambulismo que duram dias, sempre seguidos de amnésia.

Após meses lutando contra os efeitos da droga, ela enfim decide abraçá-los. Chama o artista mais pretensioso da galeria de arte em que trabalhou e deixa que ele a use como tema de suas obras durante quatro meses. Destes, passa só 40 horas consciente.

É assim que, para a surpresa do leitor, ela sai, senão incólume, de fato descansada e relaxada de sua jornada.

Raquítica, com os músculos atrofiados metidos em roupas de ginástica, ela reflete sobre o ano que passou. "Meu sono tinha funcionado. Estava branda e calma e sentia as coisas."

Moshfegh pensa, no entanto, que o final está aberto a interpretações. "Às vezes acho que ela conseguiu alcançar o outro lado, e há uma esperança nisso. Outras vezes, acho que ela só ficou com sequelas, e é por isso que está feliz. Tornar-se estúpido é uma solução para muitos problemas."



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