Sábado, 21 de setembro de 2019 Edição nº 15261 13/07/2019  










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Canções que se tornaram verdadeiros hinos feministas são em grande parte escritas por homens

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
Da Folhapress - Rio

"Deus é mulher, Deus há de ser." "Mina, não deixe ninguém te dizer o que você pode fazer." "Deixa eu te lembrar que eu não sou obrigada a nada, ninguém manda nessa raba." São três versos fortes, entoados por mulheres fortes. Todos eles escritos por homens.

Elza Soares canta a primeira das estrofes, de "Deus Há de Ser". O autor é Pedro Luís Teixeira de Oliveira, da banda Pedro Luís e a Parede. É de Negra Li a segunda, "Mina", de Vulto e Fábio Brazza. E Pocah, ex-MC Pocahontas, vem estourando com "Não Sou Obrigada", emancipação de seu bumbum erigida por Wallace Vianna, Pedro Breder e André Vieira.

Essas composições integram um pacote comum na indústria cultural, na qual músicas de voltagem feminista são, em boa parte, feitas por homens. São prato cheio para o debate sobre gênero e sobre o "lugar de fala" –com que propriedade homens podem meter o bedelho no feminismo, ou brancos no racismo?

O fenômeno tem mais cores que o verde-amarelo. Mesmo o repertório mais feminista de Beyoncé conta com um time masculino. Sabe "Run the World (Girls)", sobre como as meninas vão dominar o mundo? Ela divide os créditos dessa com seis homens.

Se Elza diz que "Deus há de ser fêmea, Deus há de ser fina", Ariana Grande também atribui feminilidade à figura máxima de várias religiões em "God Is a Woman". Em seu Twitter, a americana descreveu a música como "empoderamento sexual feminino".

Só não é a força criadora por trás desse hit em particular, uma ideia original de Savan Kotecha e Rickard Göransson, que já compuseram para artistas como Britney Spears e Avril Lavigne. "Você vai descobrir que Deus é mulher" foi a frase original que veio à cabeça deles. Acabaram chegando a Grande, que gostou e ajudou a finalizar a canção.

"Deus é fêmea" foi o que Pedro Luís diz ter ouvido de uma cantora que já morreu, em 2000. Ela queria uma canção feita por ele e deu o tema.

Mas quem a gravou foi outra amiga, Elza, "dessas que defende uma canção como poucxs", ele escreve à repórter, usando o "x" da chamada linguagem neutra, adotada por feministas e LGBTs que veem um estereótipo nocivo na linguagem que separa feminino de masculino.

Certa vez, Pedro Luís sussurrou a ela "Deus é mulher". A intérprete topou na hora. "E lá foi a canção batizar o disco, para orgulho máximo desse humilde poeta que vos fala."

Sobre o tal lugar de fala, o musicista diz que "se o que toma meus sentidos, querendo virar canção, atravessa um território que não é exatamente o que me pertence, peço licença, me visto de respeito e admiração, mas arregaço as mangas e ponho minhas mãos à obra".

O ex-marido de Viviane de Queiroz Pereira, a Pocah, era um tipo impositivo. "Essa coisa de mandar nas minhas roupas, de controlar a minha vida." E o casamento a fez se tornar feminista, ela conta.

A funkeira também já "cancelou um boy" (terminar com alguém, na língua dos jovens) que reclamou do tamanho do short dela. Mandou na lata: "Vou sair assim, e, se não for com você, vai ser com outro".

Ela não é obrigada a nada, como canta em seu funk escrito pelos três homens por trás da Hitmaker, produtora especializada em criar hits, como diz o nome em inglês. O que importa, afirma Pocah, é "eles fazerem a música de acordo com o meu pensamento".

Uma pegada parecida com a de Negra Li. "Quem escreve a música pensa mais na mensagem do que no gênero de quem escreveu, e isso é inspirador. Ainda mais pra mim, que interpreto a música", diz.

Mulheres tiveram pouco espaço até aqui, avalia a musicista e pesquisadora Luísa Toller. Tantos músicos escrevendo sobre a luta feminina, para ela, "é sintoma de um mercado cultural atrasado, que ainda prioriza composições feitas por homens e que, ao mesmo tempo, tenta se atualizar com os temas que estão sendo debatidos, mas não se desconstrói em sua estrutura".

Toller é autora de marchinhas de Carnaval como "Mulheres na Marcha" ("quem sabe um dia a gente saia sem camisa, faça xixi na rua para poder sentir a brisa") e "Tomara que Caia" (torcida pela queda do patriarcado, do presidente, do "esquerdomacho").

Um meio, aliás, pródigo em letras "empoderadas" com autoria masculina, lembra. Caso de "Não Vem Se Eu Não Quiser", marchinha sobre assédio no Carnaval composta por Carlos Linhares.

"Se os homens estão se atualizando, querendo falar sobre assuntos atuais e interessantes para o feminismo, poderiam falar também de si", diz Toller. "De masculinidade tóxica e frágil, de paternidade, de violência, enfim, também temos muito o que desconstruir do lado deles. Lugar de fala não pode se tornar lugar de falo."

"Por muito tempo, as mulheres foram colocadas no lugar de intérpretes", afirma Carol Oms, diretora-executiva do feminista Instituto AzMina. E vai de Gal Costa, que ecoou o hit de Erasmo Carlos "Mulher, Sexo Frágil", a Valesca Popozuda, com sucessos escritos pelo ex-marido Pardal, como "Tá pra Nascer Homem que Vai Mandar Em Mim".

"Nada impede que uma música composta por um homem contemple as pautas das mulheres, mas acredito que esse espaço será cada vez mais ocupado por nós em todas as frentes", diz Oms.

Andressa Oliveira, produtora cultural da Liga do Funk, fala do seu meio. Ela vê por aí muitas MCs mulheres que "têm construído letras com grandes apontamentos feministas, inclusive na putaria". "Elas falam sobre violência doméstica, direito ao corpo, sexualidade, gênero, prazer."

Exemplos? Na ponta da língua: o batidão de título autoexplicativo interpretado por MC Rebecca e saído da cachola de outra funkstar, Ludmilla: "Cai de Boca".



Deus Há de Ser

Deus é mulher

Deus há de ser

Deus há de entender

Deus há de querer

Que tudo vá para melhor

Se for mulher, Deus há de ser

Deus há de ser fêmea

Deus há de ser fina

Deus há de ser linda

Deus há de ser



Famosa na voz de Elza Soares, a canção foi escrita por Pedro Luís



Mina

Mina, bota o seu melhor batom Escolha o seu melhor som Joga esse cabelo pro ar e deixa estar E deixa estar, e deixa Mina, não deixe ninguém te dizer O que você pode fazer Você que sabe o seu lugar e deixa estar E deixa estar, e deixa



Famosa na voz de Negra Li, a canção foi escrita por Fábio Brazza e Vulto



Não Sou Obrigada

Deixa eu te lembrar que eu não sou obrigada a nada

Ninguém manda nessa raba

Uma bunda dessa não nasceu pra ser mandada

Ninguém manda nessa raba



Famosa na voz de Pocah, foi escrita por André Vieira, Pedro Breder e Wallace Viana



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