Quarta feira, 23 de outubro de 2019 Edição nº 15247 25/06/2019  










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Ian McEwan: estamos nos afogando na irracionalidade

A Argentina venceu a Guerra das Malvinas, Alan Turing vive e humanos sintéticos circulam por aí no novo livro de Ian McEwan, que discute os dilemas da tecnologia

Da Reportagem

Nada comprovou mais vividamente a máxima de que a tecnologia torna frágil a civilização do que os grandes engarrafamentos de trânsito no final da década de 1970”, diz Charlie, o narrador de “Máquinas como eu”, novo romance do escritor inglês Ian McEwan. Apesar do comentário ácido, Charlie é um devoto da ciência e torra uma fortuna para comprar Adão, um dos primeiros seres humanos artificiais lançados naquele 1982.

Sim, “Máquinas como eu” se passa em um 1982 alternativo: a Inglaterra perdeu a Guerra das Malvinas, os Beatles ainda lançam discos, carros sem motorista ocupam as estradas e Alan Turing (o cientista da computação que se matou em 1954 porque a homossexualidade era crime no Reino Unido) está vivo e é saudado como o gênio da revolução tecnológica.

McEwan, outro defensor incondicional da razão, aproveita a desconfortável relação de Charlie, seu robô Adão e sua vizinha e quase namorada Miranda para discutir os dilemas éticos impostos pelo avanço da inteligência artificial. Nesta entrevista por telefone, McEwan reivindica a ciência para combater o populismo e diz duvidar que robôs possam um dia produzir boa literatura.



P - Por que escrever um romance que se passa num 1982 alternativo, tecnológico e futurista?

McEwan - Eu queria Alan Turing vivo e não tão velho para fazê-lo patrono da era digital. O passado recente poderia facilmente ter sido diferente. O presente é um construto frágil, uma extraordinária e imprevisível coincidência. Eu quis brincar livremente com minha imaginação. Temos trens velocíssimos, mas lotados e com janelas imundas. Há voos baratos para qualquer lugar, você pode ir do Rio a São Paulo em menos de uma hora, mas sua rotina ainda é tediosa. Ainda que tenhamos máquinas incríveis, nossa vida segue sendo uma bagunça. E, se todas essas máquinas não pertencessem ao presente ou a um futuro brilhante, mas a um passado complicado e familiar?

Imaginar esse passado alternativo foi muito divertido. Tive que me controlar porque estava virando uma obsessão.



P - O senhor há tempos é fascinado pela ciência. Por que escrever um livro sobre inteligência artificial agora?

McEwan - Comecei a me interessar por inteligência artificial nos anos 1970, após escrever um filme para a BBC sobre máquinas que pensavam. Passei as décadas seguintes obcecado pelo tema, mas foi uma longa decepção porque a ciência ainda não entedia os processos complexos por trás de interações aparentemente simples, como pegar uma bola ou levar uma xícara à boca. Houve avanços incríveis. Logo as ruas estarão cheias de carros sem motoristas. Para projetá-los, precisaremos decidir como esse carro vai se comportar em emergências. As máquinas terão de tomar decisões: sacrificar motorista ou pedestre? Estamos às vésperas de entregar decisões morais a máquinas. Se projetássemos um ser humano artificial, daríamos a ele nossas melhores ideias e princípios morais. Sabemos como ser bons, mas também que é difícil ser bom o tempo todo. Somos preconceituosos e às vezes perdoamos o imperdoável por amor. Talvez as máquinas possam ter uma inteligência superior à nossa e uma moral menos maleável.



P - “Máquinas como eu” discute como a tecnologia pode tornar a sociedade mais frágil. O senhor mantém sua fé na ciência e na razão?

McEwan - Passei a vida escrevendo livros para persuadir as pessoas de que a razão não é fria, mas calorosa e não se opõe à benevolência. Hoje, enfrentamos problemas graves. Há uma tempestade perfeita de ascensão populista e crise climática. A política enlouqueceu. Os populistas dizem que o aquecimento global é uma trama dos governos para controlar as pessoas. Justo quando temos condições de unir nações para lidar com as mudanças climáticas, temos populistas gritando no Reino Unido, nos EUA, no Brasil, no mundo todo! Estamos vendo a irracionalidade se espalhar pelo planeta quando mais precisamos cooperar para salvar as florestas e impedir o aumento do nível dos oceanos. É este o problema: estamos nos afogando na irracionalidade.



P - E como deter essa onda de irracionalidade?

McEwan - Precisamos defender a razão, reafirmar nosso compromisso com uma sociedade aberta, tolerante, curiosa e justa e pressionar por governos que trabalhem por todos, não só pelas elites.



P - Adão diz que, num mundo racional controlado por androides, a literatura será redundante “porque nos entenderemos uns aos outros bem demais” e só sobrarão os haikus. O senhor concorda?

McEwan - Não. Imaginar que se pudéssemos entender as mentes uns dos outros não haveria mais desentendimentos é uma teoria extravagante e adolescente. A literatura sempre será essencial para discutir questões éticas, tirá-las da abstração e colocálas no calor da experiência humana. Os romances dão carne e osso a dilemas morais porque dão acesso à consciência dos personagens e mostram a vida como imaginamos que ela pode ser. Nenhum texto filosófico ou jornalístico pode dar tanta vida a uma questão quanto um romance.



P - Como os avanços tecnológicos estão afetando a literatura? Robôs serão capazes de escrever bons romances?

McEwan - Se um computador for capaz de escrever um bom romance, teremos que concluir que ele já é capaz de pensar, que tem algum tipo de consciência, porque a literatura exige um profundo entendimento dos motivos humanos, da alegria e tristeza, do amor e ódio. Não somos só intelecto. Somos um intelecto em um corpo. É difícil que um programa de computador entenda o que é ter corpo. Acho que ainda estamos longe de ler um bom romance escrito por um máquina. Talvez escrever um romance seja um bom teste para ver se uma máquina desenvolveu consciência.



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