Quarta feira, 20 de novembro de 2019 Edição nº 15245 20/06/2019  










RENATO DE PAIVA PEREIRAAnterior | Índice | Próxima

Pinguelas

Há mais de dez anos escrevi um artigo sobre a progressiva insegurança dos adultos em geral, principalmente os das classes média e alta. Dizia que eles se sentem inseguros e indefesos, buscando a todo custo uma proteção e que repassam aos filhos essa insegurança. Para estes criam casulos, redomas e armaduras que os livrariam dos perigos da vida.

Dizia, na ocasião, que não os deixam ousarem nada fora do previsto nos manuais e que toda brincadeira precisa ser acompanhada, anulando toda criatividade e iniciativa das crianças. Para cada coisa busca professor, especialista ou instrutor. O aprendizado, antes simples e fácil, de andar de bicicleta, por exemplo, hoje é quase uma operação de guerra. Há de se escolher um local seguro e paramentar o pobre aprendiz de tantos detalhes de proteção que ele fica parecendo um palhacinho colorido e desconjuntado.

Reclamava, no artigo, que a criançada não joga mais pelada de rua, não pesca nos córregos, no brinca de bolita; só pratica esportes nas “escolinhas”, pesca com iscas artificiais peixes “domesticados” nos pesque-pagues, sempre acompanhados de professores e monitores e obedecendo à regras rígidas e que os exercícios físicos precisam ser feitos somente nas academias computadorizadas que medem pressão, frequência cardíaca, calorias perdidas; precedidos da necessária avaliação médica.

Pra sair na rua a mãe verifica se a criança está levando o celular, o cartão de crédito, o documento de identidade e se passou creme hidratante e filtro solar, porque o sol é perigoso, muito perigoso...

Com tanto monitor, instrutor, professor, normas, regras, manuais, equipamentos, cuidados, teorias, medições, avaliações tudo vai ficando tão sem graça que deixa de ser alegre brincadeira e vira compromisso.

Aí sobra só um brinquedo não dependente de professor que é o computador, onde nada acontece de verdade: os tiros não matam, os tombos não ferem, as machucaduras virtuais não doem. Nele os jogadores não aprendem a decidir porque as decisões, mesmo erradas, não trazem consequências reais.

No texto, falava das pobres crianças que deveriam ser livres, simples, criativas, andar descalças, tomar chuva e sol, conviver com situações inesperadas e hoje não vivem sem manuais.

Usei na época a metáfora de uma pinguela: “pobres crianças e adolescentes obesos que sabem tudo de informática, falam inglês, francês, alemão, frequentam balé, yoga, fazem lipo, implantam silicone, mas não conseguem passar numa pinguela” e explicava: “ela (a pinguela) é estreita, quase sempre roliça, às vezes escorregadia, desprotegida, insegura... Não tem corrimão, parapeito, guardheil. Passá-la exige avaliação se convém ou não e se os riscos são administráveis: coisas que não aprenderam”.

Agora um estudo da School Grounds Alliance (O Estado de São Paulo – 01/06/2019) falando dos malefícios que a superproteção paterna tem causado às crianças sugere, entre outras coisas, que os parquinhos sejam “mais perigosos” para estimular o desenvolvimento infantil e que os adultos contem até 17 antes de interferir na brincadeira por achá-la perigosa.

Parece que o que eu escrevi de “orelhada” há 12 anos não estava tão por fora assim.



* RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor

renato@Hotelgranodara.com.br



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