Domingo, 18 de agosto de 2019 Edição nº 15224 22/05/2019  










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Filme francês com romance lésbico volta a chamar a atenção na disputa

Da Folhapress – Cannes, França

Desde que o Festival de Cannes foi tragado, a partir do ano passado, pelo furor do movimento feminista #MeToo, a principal mostra de cinema tem sido questionada sobre a ainda incipiente participação de diretoras mulheres e respondido de forma às vezes precipitada à grita, selecionando obras marqueteiras e com pouca substância.

O filme "Portrait de la Jeune Fille en Feu", da francesa Céline Sciamma, talvez seja o primeiro exemplo de um longa que responde diretamente aos anseios de tais grupos identitários sem sacrificar a consistência ou cumprir cota.

O longa costura uma elegante ambientação de época com uma observação incisiva sobre as discrepâncias entre o olhar feminino e o olhar masculino, que servem tanto ao enredo quanto à reflexão sobre gênero nas artes, em especial no cinema.

Na Bretanha do século 18, a jovem Marianne (Noémie Merlant) é chamada a servir como dama de companhia à nobre Héloïse (Adèle Haenel), que acaba de deixar o convento e está prometida a um rico milanês. O que a filha de condessa não sabe é que a recém-chegada é uma pintora que foi incumbida de fazer um retrato seu para enviá-lo ao futuro pretendente.

Tudo precisa ser segredo. O último retratista foi enxotado por Héloïse, contrariada pela ideia do matrimônio, mas deixou uma tela incompleta e com um borrão no lugar no rosto. Caberá a Marianne completar esse desenho às escondidas.

Os olhares penetrantes da pintora, que no princípio servem apenas para captar os traços da outra, logo evoluem para um interesse mútuo e as encaminha para um proibido romance lésbico. Ao final, não se sabe se a garota em chamas do título é que é objeto do retrato e que será rifada em casamento ou se é a que o pinta e que está consumida pelo desejo.

A cineasta, que já abordou aspectos da feminilidade em "Tomboy" e "Garotas", usa as diferentes perspectivas entre os retratistas para tecer comentários sobre o que é arte produzida por mulher e o que é arte produzida por homem.

Nesse esforço, ela dialoga com as formas com que personagens femininas têm sido mostradas no cinema –sua delicadeza não poderia ser mais oposta, por exemplo, ao registro voyeur de Abdellatif Kechiche e seu "Azul É a Cor Mais Quente", vencedor da Palma de Ouro em 2013.

A questão do ponto de vista é tão central que a diretora ainda costura à história referências ao mito de Orfeu, aquele que perdeu sua amada justamente porque olhou para ela.

Rival de Céline Sciamma na disputa pela Palma de Ouro, o diretor canadense Xavier Dolan foi um dos que não se contiveram e correram às redes sociais para se derreter pela obra. "Me senti confortável, tanto romântica quanto psicologicamente diante da ausência de personagens homens", escreveu.

Outro título na competição, "Le Jeune Ahmed", dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, falha justamente naquilo que é o trunfo do filme da diretora francesa. Sua principal limitação é o quanto o olhar estrangeiro dos cineastas é incapaz de adentrar a complexidade de uma realidade que não é a deles.

O Ahmed do título é um adolescente de origem árabe que vive com a mãe e os irmãos em Bruxelas, onde dá início a um espécie de jihad pessoal. Conhecidos por dramas sociais tão despidos de estetização que até parecem documentários, os irmãos Dardenne são hábeis na construção de personagens complexos, como os de "A Criança". No novo longa, entretanto, perdem a mão e não conseguem esmiuçar a ira de Ahmed para além das naturais angústias adolescentes. Pare eles, o menino continua o estrangeiro.

Diretor Karim Aïnouz martela as várias facetas do machismo

Criado numa família de mulheres, o diretor cearense Karim Aïnouz explora até onde vai a couraça da resistência feminina no filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", história sobre duas irmãs vitimadas por décadas de machismo no Rio de Janeiro. Para contar esse enredo, ele se vale do melodrama e o revisita com as cores vibrantes que marcam sua obra.

O longa faz parte das seis produções brasileiras em Cannes e estreou nesta segunda (20) na seção Um Certo Olhar, paralela à competição principal do evento. Uma das três produções da paulista RT Features no evento, a obra é inspirada no romance homônimo de Martha Batalha.

Nos anos 1950, Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) são duas filhas de portugueses conservadores, fadadas a sucumbir num mundo em que os homens ditam as regras. Guida se enamora por um marinheiro grego e foge de casa. Eurídice está resignada a se casar virgem com um sujeito, digamos, menos apaixonante, interpretado por Gregorio Duvivier em um bem-vindo papel dramático.

Os planos da irmã fugitiva, contudo, dão errado. Seu amado é um crápula e a moça acaba voltando grávida para o Rio. Só que o pai tirânico a expulsa de casa e, por meio de numa mentira, a impedirá de ter contato com a irmã, que tampouco sabe que sua outrora companheira voltou para o Brasil.

Ao longo dos anos, as duas viverão na ignorância quanto ao paradeiro da outra numa improvável história de duas pessoas que habitam a mesma cidade e, iludidas por uma farsa inquebrantável, acabam separadas para sempre.

Nos momentos de brilho do filme, o filtro lavado com que o diretor captura a boemia da Lapa traz à lembrança seu "Madame Satã". A cena da noite de núpcias de Eurídice, a melhor do filme, acerta no tom tragicômico.

Outras vezes, as interpretações exageradas e mensagens muito diretas quase fazem esse exercício de melodrama descambar para a telenovela –que o digam as caras e bocas compungidas da atriz Carol Duarte, por exemplo.

Fernanda Montenegro faz uma aparição especial no filme. Embora curta, a participação acrescenta boa parte da dignidade ao filme e evoca uma das personagens mais célebres da atriz no cinema, a Dora de "Central do Brasil".

Na sessão, atulhada de brasileiros, o filme foi recebido com bastantes aplausos. A revista americana The Hollywood Reporter destacou que a capacidade do diretor para "modular os tons do filme garante que, mesmo com sua longa duração, ele continue surpreendendo".



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