Quarta feira, 20 de novembro de 2019 Edição nº 15223 21/05/2019  










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Biografia retrata ascensão de Roberto Marinho

São quase 600 páginas que seguem o protagonista até a criação do Jornal Nacional, ou seja, antes de se tornar o empresário de mídia mais poderoso do país

NELSON DE SÁ
Da Folhapress – São Paulo

Roberto Marinho é observado de vários pontos de vista, neste primeiro volume da biografia que a Editora Nova Fronteira lançou na última sexta-feira (17), no Rio. São quase 600 páginas que seguem o protagonista até a criação do Jornal Nacional, ou seja, antes de se tornar o empresário de mídia mais poderoso do país.

Numa das leituras, é possível acompanhar a trajetória do jovem que viu o pai ser rejeitado na capital federal como "crioulo" -e que depois perseguiu a vida inteira, ele também, ser aceito pela elite do Rio, como descreve um de seus próprios filhos, que deram entrevistas para compor o livro.

Existe aquele que se cercou de operadores políticos, desde muito cedo, e com ajuda deles montou aos poucos um império.

Tem um Roberto Marinho que foi do conselho do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), na ditadura do Estado Novo, negando registro a jornais de esquerda e silenciando diante da encampação de A Noite, publicação que havia sido criada por seu pai e estava então com um adversário.

E outro que se colocou, também no conselho varguista, contra a intervenção no Estado de S. Paulo (mas depois elogiaria o trabalho do interventor no jornal paulista).

Há muitos deles em "O Poder Está no Ar", que Leonencio Nossa, que trabalha no Estadão, prepara há seis anos. Ele conta que procurou dar à biografia tratamento jornalístico, buscando o máximo de fontes disponíveis para um retrato multifacetado, de um personagem que atravessou o século e morreu aos 98, em 2003.

"Como viveu por muito tempo, havia o risco de contaminação pelas versões mais atuais, de pessoas próximas ou de adversários", diz o autor. "O Roberto Marinho dos anos 20 e 30 não é reconhecido pelas pessoas que conviveram com ele a partir dos anos 70. Mas não é mesmo."

O biógrafo enfrentou dificuldades como poucos sobreviventes para entrevistar ou uma limitada bibliografia, mas também deu "sorte", como diz.

Para um dos episódios mais controversos do período que aborda, o acordo da Globo com o grupo americano Time-Life nos anos 1960, contou com a totalidade dos documentos da CPI que investigou o caso. Eles vieram a público um ano antes de começar a escrever.

"Ele luta até o fim contra o [deputado] João Calmon, o Chatô [Assis Chateaubriand, da concorrente Tupi] e o Carlos Lacerda [governador da Guanabara] e é derrotado", resume Nossa. "Mas foi bom para ele. A Time-Life deixa de ser sócia para virar credora. E ele vai contratar o Walter Clark."

O célebre executivo da Globo é assunto para o segundo e último volume. Neste, o biógrafo enfatiza como a visão de Marinho sobre o entretenimento se desenvolveu muito antes do contato com Clark. "Começou naquele menino que viu o pai se dar mal na relação com cinematógrafos, no cinema mudo", diz.

Irineu Marinho, seu pai e criador do jornal O Globo, recebe atenção especial de Nossa, que busca repetir no Brasil a experiência das biografias contextualizadas e jornalísticas que leu, sobre personagens como Walt Disney, Lev Tolstói e presidentes americanos, com grande foco na formação.

"Irineu é da turma do [líder abolicionista] José do Patrocínio, do André Rebouças, ligada ao Nilo Peçanha, que era um político do Rio, contra as oligarquias agrárias de Minas e São Paulo", diz, lembrando como o pai do biografado chegou a ficar quatro meses na cadeia.

"Para mim, está muito evidente na história do Roberto Marinho esse drama, que é desse grupo, na relação com as elites brasileiras. Não consigo desvencilhar esse lado competitivo dele, muito, muito forte, dessa questão racial."

Marinho vai "atuar em segmentos populares" por toda a vida, começando como amigo do compositor Sinhô, que dedicou a ele a canção "A Cocaína". O autor lembra como o samba era então "marginalizado" e trata de evitar abordar a juventude de Marinho com preconceito.

Nossa também vê por aí sua atuação nas primeiras décadas no jornal, um vespertino, veículo mais popular, concorrente por muito tempo do Última Hora de Samuel Wainer, e os investimentos em quadrinhos, depois no rádio e por fim na televisão.

Por todo esse caminho, o jornalista e empresário contou com o apoio do que o biógrafo chama de operadores ou "lobistas", como também descreve no livro, procurando facilitar o entendimento do leitor (veja lista ao lado). Foi assim que, pouco a pouco, estabeleceu-se na elite político-empresarial do Rio e do país.

O mais conhecido hoje é o advogado Jorge Serpa, que morreu no último dia 21 de janeiro e era descrito pelos filhos de Marinho, segundo o livro, como "guardião das trevas". Evandro Carlos de Andrade, que editou O Globo, via Serpa como "a pior coisa que ocorreu na vida de Roberto Marinho".

O autor chega a transcrever uma conversa com Serpa, mas sublinha que, para o período deste primeiro volume, foram mais importantes Lulu Aranha, que estabeleceu o "Cartel Aranha" e através de quem Marinho aprendeu a lidar com ditaduras, e Augusto Frederico Schmidt, maior articulador na conquista da concessão de TV.

Repórter, Nossa registra sua "meia decepção" com a bibliografia histórica do Estado Novo e das décadas seguintes, além do próprio Marinho. "A gente não sabe quem ganhou dinheiro, quem não ganhou. Falar de empresas brasileiras é um negócio complicado. O que tem sobre Lulu Aranha? Uma passagem aqui, outra ali."



ROBERTO MARINHO: O PODER ESTÁ NO AR

AUTOR Leonencio Nossa

EDITORA Nova Fronteira. R$ 89,90 (576 págs)

QUANDO Lançamento nesta sexta (17), às 19h

ONDE na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro



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