Domingo, 25 de agosto de 2019 Edição nº 15222 18/05/2019  










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Filme conta como um cético francês se tornou o autor de O Livro dos Espíritos

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
Da Folhapress – São Paulo

Tinha que ser no Brasil. Pergunte na França sobre Allan Kardec e pouquíssimos franceses vão saber dizer quem foi o conterrâneo que criou, no século 19, uma doutrina que até hoje move paixões -e cifras- no outro canto do mundo.

Nosso país é o mais espírita do planeta, com 3,8 milhões de pessoas que declararam seguir a religião, fora os simpatizantes -é aquela história do sujeito que vai à missa ou culto para tentar falar com a finada mãezinha por meio de um médium. A cinebiografia "Kardec - A História por Trás do Nome", por isso, tinha mesmo que ser do Brasil, onde filmes com temática espírita levam milhões aos cinemas.

A produção de Wagner de Assis não é sobre um homem de fé. Não a princípio. Definitivamente não era assim que Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) se via. Ele era o cético que tentava explicar fenômenos paranormais pela ciência e virou Allan Kardec, autor de "O Livro dos Espíritos", de 1957. Na tela, é interpretado por Leonardo Medeiros.

Há uma linhagem de médiuns importantes na sua família, diz o ator. Seu tio-avô, por exemplo, Eurípedes Barsanulfo, era médium mineiro tido como tão poderoso que Chico Xavier batizou um filho seu com o nome dele. "Só que tenho questionamentos pessoais", diz. Precisa ver para crer.

Assim como Kardec. "Me sinto muito confortável, pois me sinto parecido com ele, que não era médium, não psicografava. Mas, diante de um fenômeno natural que começou a testemunhar, percebeu coerências e aplicou o método científico", afirma Medeiros. A história está em "Kardec - A Biografia" (2013), livro de Marcel Souto Maior que embasou o filme.

Há cerca de 150 anos, o professor foi atrás do espetáculo das mesas girantes que tanto agitava a França. Objetos que pareciam dominados por forças ocultas e que eram ironizados pelos jornais à época.

"Só se ouve falar, por toda parte, da mesa que gira: o próprio Galileu fez menos ruído no dia em que provou-se realmente a Terra que girava em torno do Sol", publicou o L Illustration em 1853.

De assombração a delírio coletivo, pululavam explicações para o fenômeno. A Igreja achava que era obra do Diabo. Kardec usou as ferramentas científicas do momento para palpitar: podia ser a eletricidade -essa grande novidade- dos corpos reunidos numa sala, a força magnética deles, que fazia as mesas darem seus duplos twists carpados. Havia até quem apostasse na recém-inventada telefonia como um canal para o além.

Kardec não se contentou com seu palpite. Quem optar pela ciência, dizia, "não mais crerá em fantasmas, não mais tomará fogos-fátuos por espíritos".

Havia embustes, claro, que se assemelhavam a traquitanas que Kardec viu num teatro no qual trabalhou –como charlatães que exibiram o suposto esqueleto de uma sereia num museu, à época. Mas, depois de tudo o que presenciou, convenceu-se: espíritos eram muito reais.

Com ajuda de médiuns que diziam se comunicar com eles, escreveu seu best-seller, um compilado de 501 diálogos entre vivos e mortos. No último capítulo, incluiu entre os colaboradores do além de João Evangelista, apóstolo de Cristo, a Samuel Hahnemann, pai da homeopatia.

O autor escolheu um pseudônimo, afirma Souto Maior, por antever a luta contra a Igreja, o ataque da imprensa e a descrença dos companheiros da ciência. De pouco adiantou, pois foi descoberto e penou com tudo isso.

Mas de onde veio esse nome? Uma entidade chamada Zéfiro que sugeriu, segundo o biógrafo. O espírito brincalhão e o compenetrado professor teriam trabalhado juntos como druidas, na época do imperador Júlio César. Naquela encarnação, ele atenderia por Allan Kardec.

Há detalhes na trajetória do autor que não estão no filme de Assis, que já dirigiu longas da Xuxa e o blockbuster "Nosso Lar". Como traços de racismo em "A Gênese" (1868), no qual Kardec escreveu que não era "uniforme o progresso em toda a espécie humana", até porque seria "impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados".

"Nesse trecho polêmico, ele acabou ecoando preconceitos de sua época. Como dizia Chico Xavier, somos todos falíveis", afirma Souto Maior.

No Brasil, os primeiros abolicionistas foram kardecistas baianos, diz a historiadora Mary del Priore, autora de "Do Outro Lado - A História do Sobrenatural e do Espiritismo". Eram advogados e médicos que recebiam espíritos de escravos romanos e foram detonadores do movimento.

Não por acaso o espiritismo floresceu no Brasil, onde chegou no século 19 de "mãos dadas com a moda do francesismo nas classes mais altas e médias", diz a historiadora. Acabou germinando em todas as esferas sociais num país que "sempre foi encruzilhada de religiões, e com um culto aos mortos muito presente".

Bem diferente da França, que pode ter se empolgado com as mesas girantes por um tempo, mas tem "tradição desde a Revolução Francesa de combate às religiões".

O diretor do filme afirma que "torce o nariz docemente" para a catalogação de sua obra como um filme espírita. Seria uma produção para crentes e não crentes, diz, por tratar de aspectos contemporâneos, como a intolerância religiosa. O diretor, que é espírita, conta ter se impressionado quando, numa locação carioca que simulava a casa de Kardec, deparou-se com uma oração colada dentro da caixa de luz.

Lembra Mary Del Priore: "Santo Agostinho dizia que, para quem não acredita, nenhuma palavra basta, e, para quem acredita, nenhuma palavra é necessária".



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