Segunda feira, 22 de julho de 2019 Edição nº 15220 16/05/2019  










LIVRO-CRÍTICAAnterior | Índice | Próxima

Deus-dará, que une Brasil e Portugal, tem Rio como monstruoso personagem

ALVARO COSTA E SILVA
Da Reportagem

"Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar", cantou Chico Buarque inspirado na Revolução dos Cravos, que derrubou o regime salazarista em 1974. E, parafraseando Bernard Shaw, alguém já disse que Brasil e Portugal eram dois países separados pela mesma língua.

Ao criar um "narrador transatlântico" para o romance "Deus-dará", recém-lançado deste lado do oceano, Alexandra Lucas Coelho conseguiu uma façanha digna dos grandes navegadores da literatura: extinguir a distância e promover o debate.

"O livro corresponde ao meu próprio movimento, alguém que partiu de Portugal para morar no Brasil. Não é o livro de uma brasileira, mas também não é o livro só de uma portuguesa. A expectativa é de como será lido aqui e agora, quando o Brasil vive o maior desafio da sua democracia", diz Alexandra, jornalista que trabalhou no Rio como corresponde do jornal Público.

Desde as primeiras linhas, a tarefa de tradução da própria língua se impôs: "Caqui é dióspiro, como tomar umas é beber, encher a cara é beber demais. Língua que vai ao mar dá nisso, o narrador será transatlântico ou não será".

"O tal narrador transatlântico é uma figura antropofágica. Literalmente. Para saber por que, como nos policiais, é preciso chegar ao fim do livro. Sua linguagem tem muito de escuta, fui repórter muitos anos, e repórter vira gravador ambulante", define a escritora, que já publicou livros de viagens ("Caderno Afegão", "Viva México") e de ficção ("O Meu Amante de Domingo", "A Nossa Alegria Chegou").

O Rio é o monstruoso e fascinante personagem principal. Lendo o romance, dá até para sentir o cheiro e o som da cidade, que podem ser agradáveis como o da Floresta da Tijuca ou insuportáveis como o dos tiroteios nas favelas. Nela vivem os sete personagens que vamos conhecer em jornadas bíblicas de sete dias, com a ação desenvolvendo-se entre 2012 e 2015.

A inspiração nasceu de uma caminhada em volta da lagoa Rodrigo de Freitas. "Um dia, quando eu já morava havia dois anos no Rio, veio a ideia do livro. Título, estrutura, personagens. Eu precisava escrever um romance sobre aquela cidade, que já se tornara minha. Ia chamar-se Deus-dará, título que brotou, baixou e nunca mudou. Uso a palavra baixou porque gosto de pensar no romance como um terreiro afro-luso-brasileiro em que vivos e mortos se encontram."

Segundo a autora, a narrativa foi construída indo do Gênesis ao Apocalipse. "Gênesis porque o Rio sempre parece estar nascendo do magma original, brotam morros, árvores. Apocalipse porque, ao contrário do que pensei nos primeiros tempos na cidade, era ali que o apocalipse ia acontecer. Porque, na verdade, o apocalipse já existia na aparente euforia olímpica."

Mesmo com as sucessivas voltas ao passado e explicações sobre a história da cidade e de seus bairros, é um Rio contemporâneo o de Alexandra, vivendo a expectativa e as transformações geradas pela Copa do Mundo e pela Olimpíada, como também os protestos de rua, o movimento contra o governador Cabral e a sensação de que o legado de obras do prefeito Eduardo Paes, a partir do chamado Porto Maravilha, não seria lá essas coisas.

"Não reescrevi as dezenas de páginas que já tinha escritas quando veio o Junho de 2013. Foi sempre perturbador o quanto de antecâmara esse livro tinha, tem. Já estava tudo ali."

Mais uma vez, o Rio cumpriu a sina de funcionar como trailer do Brasil. "Inicialmente ia ser um retrato da cidade. Quando o Brasil explodiu em 2013, o livro também explodiu. De volta a Portugal, fui estudar história, antropologia, crônicas da época. O livro foi para o fundo e para trás, até bem antes de 1500, sem nunca deixar o presente. Tornou-se um romance sobre nós, sobre Brasil e Portugal, os fantasmas de um império colonial escravagista, a herança no presente, nossos mortos insepultos."

Alexandra percebeu que não poderia escrever um romance carioca sem envolver Machado de Assis na trama. "Fui morar no anexo de uma casa incrível no Cosme Velho. Calhou, pois, que Machado virou meu vizinho. Foi muito natural. O Bruxo era o meu primeiro fantasma, e em torno de nós foi girando Cosme Velho, Rio, Brasil, Atlântico, África, Portugal. Machado era negro, é o gigante que é, e se casou com uma portuguesa. Atava os nós."

Convidada por sua editora brasileira, Alexandra Lucas Coelho desfilou neste ano na vitoriosa Mangueira. A experiência não era inédita: ela antes saíra duas vezes no Império Serrano.

"Vi o enredo da Mangueira como outro hino, outra bandeira, de outro Brasil, orgulhoso e vivo, e que ainda encerrava o desfile com o símbolo que é Marielle Franco", conta a romancista, que, na turnê de lançamento do livro em dez cidades brasileiras, tem exibido o adesivo "Marielle Vive" no lado esquerdo do peito.

Se não bastasse ter escrito uma obra ousada e necessária, Alexandra ainda se deu ao luxo de algumas desmistificações. A certa altura, um personagem dá a letra ao comentar que o famoso cabrito do bar Capela não tem nem nunca teve nada demais. Só na cabeça do carioca esperto.

Deus-dará

Autora: Alexandra Lucas Coelho. Editora Bazar do Tempo. R$ 65 (440 págs.).



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